Produzido por cooperativa de gráficos e jornalistas, jornal Tribuna Independente está há 12 anos no mercado alagoano

Leandro Haberli | 04/11/2019 13:26
Diretor administrativo e financeiro da Cooperativa de Jornalistas e Gráficos de Alagoas (Jorgraf), o jornalista Flávio Miguel de Oliveira Peixoto concedeu entrevista ao Portal IMPRENSA sobre a história da entidade. Única cooperativa do país a unir jornalistas e gráficos, a Jorgraf tem como principal fonte de renda o Tribuna Independente, jornal fundado em 2007, que hoje circula em todo o estado de Alagoas e gera emprego e renda para 60 cooperados, entre jornalistas e gráficos. Na entrevista a seguir, Peixoto fala sobre como o projeto começou e comenta os desafios de manter a Jorgraf. 

Portal IMPRENSA - Quando o jornal Tribuna Independente foi fundado e como se deu o processo de formação da Jorgraf?
Flávio Peixoto - No final de 2006 e início de 2007 o jornal Tribuna de Alagoas entrou em situação de colapso financeiro, atrasando quatro folhas de pagamento, aí incluído o décimo-terceiro salário. O jornal pertencia à família de Paulo César Farias, ex-tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello, e estava arrendado a um grupo empresarial e político liderado pelo então governador Ronaldo Lessa, que não conseguiu, junto ao seu sucessor, aporte financeiro para bancar as dívidas e custos do jornal. 
Sem salário, os jornalistas decidiram entrar em greve e logo foram seguidos pelos gráficos e pessoal da área administrativa. Em assembleia unificada, os trabalhadores decidiram ocupar o prédio em que funcionava o jornal, para impedir a retirada de máquinas e outros bens materiais. Os dirigentes do grupo arrendatário sumiram e os proprietários do jornal não apareceram. 
Em abril, os trabalhadores assumiram o controle total do jornal e da gráfica e decidiram utilizar toda a estrutura da empresa para botar na rua uma edição em que toda essa situação fosse denunciada. O jornal circulou no dia 1º de maio com o nome de Tribuna Independente, apoiado pelos sindicatos dos jornalistas, gráficos, Fenaj e várias outras entidades representativas de trabalhadores e também de movimentos sociais, que ajudaram no custeio por meio da publicação de publicidades e notas. 

Portal IMPRENSA - Quando vieram as outras edições do jornal?
Flávio Peixoto - Nos finais de semana seguintes seguiram-se outras edições do gênero, produzidas exclusivamente por jornalistas e gráficos, mas então já não somente denunciando o descaso, mas também veiculando notícias que antes eram censuradas e matérias inéditas. Foi a partir daí, com ampla repercussão positiva e incentivos de diversos segmentos da sociedade, que sentimos que poderíamos manter a estrutura do jornal funcionando, entendendo que sempre fomos nós que fizemos o jornal, nunca os patrões, e o que estávamos fazendo naquele momento era exatamente o que sabemos fazer - e bem melhor sem eles. Entendemos que poderíamos tomar o lugar deles e usar toda aquela estrutura para levar o jornal às ruas e nos pagarmos. Mantivemos contato com o líder da família Farias, sobre a ocupação do prédio e utilização de sua estrutura, e mostramos que havia reais possibilidades de tudo aquilo se tornar sucata em razão do abandono do grupo arrendatário e da falta de interesse dele e sua família em assumir a gestão. Com a concordância, seguimos a disposição de assumir o jornal diário, mas no formato de cooperativa envolvendo jornalistas e gráficos.
 
Crédito:Edilson Omena
Flávio Peixoto, diretor da Jorgraf: "nunca conseguimos financiamento oficial de qualquer instituição financeira"
Portal IMPRENSA - Quais os desafios de manter uma cooperativa como a Jorgraf?
Flávio Peixoto - Foi necessária uma mudança de cultura e visão de todos, desde o primeiro instante, sobre participar de uma cooperativa de comunicação e substituir nossos patrões na função de gerir o negócio. Muitos conflitos sobrevieram, sendo gradativamente superados - alguns, nem tanto, mas entendemos que isso faz parte do processo. Afinal, tudo para nós sempre foi novo. Por exemplo, nunca conseguimos um financiamento oficial de qualquer instituição financeira, nem mesmo aquelas destinadas ao fomento de cooperativas, unicamente porque não há rubrica que preveja essa modalidade de contrato com uma cooperativa da nossa área. É relativamente compreensível, porque, de fato, não há outra como a nossa e, sendo assim, também não há previsão por parte das instituições financeiras. Para adquirir veículos, tivemos de financiar em nome de alguns dos nossos diretores. Idem em relação a outros bens. Por razões análogas, nunca tivemos nenhum modelo no qual pudéssemos nos inspirar e grande parte do que executamos no nosso dia a dia foi criada por nós mesmos. 
 
Portal IMPRENSA - Quais as fontes de renda do jornal?
Flávio Peixoto - Temos como fontes de renda as publicidades veiculadas no impresso, em nosso portal de notícias e na nossa TV Web, além dos serviços de impressão para terceiros e assinatura do jornal.
 
Portal IMPRENSA - Quantos jornalistas e gráficos o projeto emprega?
Flávio Peixoto - Nossa cooperativa possui 60 cooperados entre gráficos e jornalistas. Temos, também, um quadro de trabalhadores que gira em torno de 10 pessoas. Além dos serviços terceirizados. Podemos afirmar que geramos renda para mais de 100 famílias em Alagoas.  
 
Portal IMPRENSA - O jornal é impresso em gráfica própria?
Flávio Peixoto - Sim. A aquisição da rotativa em leilão da Justiça Federal representou um marco para a Jorgraf, fato ocorrido em 2010, garantindo autonomia para circulação diária do Jornal Tribuna Independente, além de outros produtos gráficos. No mesmo leilão, compramos também um gerador de energia. Ambos foram leiloados para pagamento de dívidas trabalhistas do grupo que havia arrendado a Tribuna de Alagoas.
 
Portal IMPRENSA - Onde o jornal circula? 
Flávio Peixoto - Circulamos em todo o Estado de Alagoas, de terça a domingo, com uma edição única aos finais de semana. 
 
Portal IMPRENSA - Como você definiria o posicionamento editorial da Tribuna Independente?
Flávio Peixoto - Sempre tivemos uma linha editorial independente e crítica, comprometida com a verdade e a democracia, além de uma administração transparente, onde os cooperados discutem tudo em assembleia.  
 
Portal Imprensa - O jornal tem um departamento de publicidade? Como ele funciona?
Flávio Peixoto - A publicidade fica a cargo da direção comercial onde existe, também, um setor de arte institucional.
 
Portal IMPRENSA - Qual a tiragem hoje?
Flávio Peixioto - Tiragem diária é de 4.700 exemplares e aos finais de semana de 6.900 jornais.
 
Portal IMPRENSA - O jornal possui quantos assinantes?
Flávio Peixoto - Atualmente atendemos a 2.600 assinantes da versão impressa e estamos estudando a ampliação da venda de assinaturas no formato digital.
 
Portal IMPRENSA - Como funciona a distribuição?
Flávio Peixoto - Temos um contrato com uma empresa terceirizada que faz toda a entrega para assinantes e bancas de revistas.
 
Portal IMPRENSA - Quais as diferenças, resumidamente, entre um jornal de uma cooperativa e um veículo de mídia tradicional?
Flávio Peixoto - Nossa formação é bem diferente da mídia tradicional. Somos um veículo que nasceu de um coletivo de trabalhadores composto por gráficos e jornalistas. Acredito, inclusive, ser uma experiência única no mundo, reunindo essas duas categorias. Temos 12 anos no mercado e realizamos assembleias periódicas para avaliar nosso desempenho, discutindo, quando necessário, as ações a serem encaminhadas. Temos, também, um conselho de administração com poder deliberativo, sendo a segunda maior instância da cooperativa, só superada pela assembleia geral. Basicamente somos regidos pelo princípio da transparência e do compromisso com os trabalhadores. Lógico que existe uma hierarquia e funções definidas, como a de editor-geral, editores setoriais, chefes, comercial, diretor industrial e outras funções próprias de um jornal.