Venda do Diario de Pernambuco a empresário bolsonarista causa temor entre jornalistas

Redação Portal IMPRENSA | 24/09/2019 11:13
Confirmada na quinta-feira (19) por valor não revelado, a venda do Diario de Pernambuco, o "jornal mais antigo em circulação na América Latina", vem repercutindo desde então.

Crédito:Reprodução Portal MarcoZero
De um lado, é grande o interesse em torno da linha editorial que o veículo vai tomar. De outro, os jornalistas da casa estão apreensivos quanto ao futuro profissional, já mobilizando sindicatos, federações e advogados para se precaver de eventuais cortes e dificuldades de recebimento de direitos e indenizações.

O novo controlador do Diario de Pernambuco é Carlos Frederico de Albuquerque Vidal, 58 anos. Apoiador ilustre de Jair Bolsonaoro, a ponto de a compra do Diario de Pernambuco ter sido celebrada por Olavo de Carvalho como um golpe contra os "comunoglobalistas", ele tem uma locadora de veículos, um estacionamento e trabalhou na empresa da família, uma distribuidora de água mineral fundada em 1937.

Vidal adquiriu 78% do veículo (o restante está dividido com várias pessoas, que não têm poder de decisão na empresa), num negócio que contemplou também o arrendamento das rádios Clube FM e AM. 

Em entrevista a Maria Carolina Santos, do portal Marco Zero,  Vidal, que é conselheiro do Sport Club do Recife e vice-presidente jurídico da Associação dos Cronistas Desportivos de Pernambuco (ACDP), contou que as negociações com os irmãos Alexandre e Maurício Rands, ex-donos do Diario de Pernambuco, tiveram início há oito meses.

O novo empresário da comunicação acredita que o problema do jornal, hoje atolado em dívidas, foi ter ido mais "mais para o lado político que o comercial". "Política como informação, sim. Conchavo, não", defende, em referência à linha editorial que pretende implantar.

Durante todo o processo eleitoral do ano passado, o Diario de Pernambuco se posicionou fortemente contra Jair Bolsonaro. Por isso sua venda para um bolsonarista é considerada uma traição por alguns funcionários.

Para piorar, os Rands não foram fazer o comunicado da venda à redação e não se reuniram com os editores-executivos para comunicar pessoalmente. Limitaram-se a enviar pela vice-presidência uma nota publicada no site.

A reportagem do Portal Marco Zero revela que, entre os jornalistas, há o temor de que o Diario se transforme em um panfleto bolsonarista, uma central de fake news. Por outro lado, haveria esperança de melhora da situação financeira,  hoje marcada por salários atrasados e demissões sem o pagamento de direitos trabalhistas. Durante todo o período dos Rands, o FGTS foi depositado esporadicamente. Na Justiça Trabalhista, as ações e dívidas se acumularam.

Embora Vital tenha dito que vai assumir as dívidas do Diario de Pernambuco, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Pernambuco (Sinjope) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) veem com extrema preocupação a venda do Diario de Pernambuco.

Em nota, as entidades afirmam que o negócio atual se assemelha ao "processo nebuloso" pelo qual o controle acionário foi repassado pelos Associados e Canadá Investimentos para os irmãos Rands, que resultou em pagamentos atrasados e inúmeros débitos e direitos sem quitação.

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