Jornalista Laurentino Gomes lança livro sobre a escravidão no Brasil

Kassia Nobre | 13/09/2019 09:19
Autor de 1808, 1822 e 1889, o jornalista e escritor Laurentino Gomes acaba de lançar Escravidão (Globo Livros). A obra faz parte de uma trilogia de livros-reportagens sobre a história da escravidão no Brasil.

Resultado de seis anos de pesquisas e observações, que incluíram viagens por doze países e três continentes, o primeiro volume cobre um período de 250 anos, do primeiro leilão de cativos africanos registrados em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares.
 
“Tudo o que nós já fomos no passado, o que somos hoje e o que seremos no futuro tem a ver com as nossas raízes africanas e no modo como nos relacionamos com elas”, afirma Laurentino.

O Portal IMPRENSA conversou com o autor sobre a investigação jornalística aprofundada e a importância de escrever sobre escravidão no Brasil de hoje.

“Infelizmente, existe um discurso racista em moda hoje no Brasil que procura atribuir aos negros e africanos a culpa pela própria escravidão. O objetivo não é apenas incentivar polêmicas nas redes sociais e explorar politicamente a polarização do debate. É combater políticas públicas já estabelecidas e ainda em discussão destinadas a enfrentar o trágico legado da escravidão entre nós”, explica. 

Crédito:Divulgação/Globo Livros

Redação Portal IMPRENSA - Gostaria que você contasse um pouco sobre o processo de criação da trilogia. Como surgiu a ideia de escrever sobre o tema?
Laurentino Gomes - Escrever sobre a Escravidão foi uma decorrência natural da minha primeira trilogia de livros. Estudar 1808, 1822 e 1889, ou seja, as três datas fundamentais para a construção do Brasil como nação independente no século 19, ajuda a explicar a maneira como nos constituímos do ponto de vista legal, institucional e burocrático. Mas não é o suficiente para entender os aspectos mais profundos da nossa identidade nacional. Para isso, é preciso ir além da superfície, observar o que fizemos os nossos índios e negros, quem teve acesso às oportunidades e privilégios ao longo desses últimos quinhentos anos e como a sociedade e a cultura brasileiras foram se moldando desde a chegada de Pedro Álvares Cabral na Bahia até os dias de hoje. Ao fazer isso, me dei conta de que o assunto mais importante da nossa história não são os ciclos econômicos, as revoluções, o império ou a monarquia. É a escravidão. Tudo o que nós já fomos no passado, o que somos hoje e o que seremos no futuro tem a ver com as nossas raízes africanas e no modo como nos relacionamos com elas.

Redação Portal IMPRENSA - Qual é a importância de escrever sobre racismo e escravidão em um país cujo presidente falou a seguinte frase no programa Roda Viva: “Se for ver a história realmente, os portugueses nem pisavam na África, eram os próprios negros que entregavam os escravos”.   
Laurentino Gomes - Infelizmente, existe um discurso racista em moda hoje no Brasil que procura atribuir aos negros e africanos a culpa pela própria escravidão. O objetivo não é apenas incentivar polêmicas nas redes sociais e explorar politicamente a polarização do debate. É combater políticas públicas já estabelecidas e ainda em discussão destinadas a enfrentar o trágico legado da escravidão entre nós. Em 1888, o Brasil acabou formalmente com a escravidão, mas abandonou os ex-escravos e seus descendentes à própria sorte. O resultado aparece hoje na forma de preconceito racial e também nas estatísticas que comprovam um gigantesco abismo de desigualdade social entre os brasileiros devido ao desnível de oportunidades oferecidas à população afro-descendentes. Precisamos corrigir isso com a maior urgência, sob pena de comprovar o futuro do país. Por essas razões, espero que o presidente deixe para trás o discurso de palanque e governe para todos os brasileiros, levando em conta principalmente os mais fracos, os mais necessitados, os mais desprotegidos. Precisamos urgente cicatrizar as feridas, superar as divisões e encontrar pontos de união, que nos ajudem a caminhar em direção ao futuro e enfrentar os desafios mais urgentes.

Redação Portal IMPRENSA - Como jornalista e escritor brasileiro, como você enxerga a importância de uma investigação aprofundada na era da internet e da desinformação?
Laurentino Gomes - Poucas atividades humanas enfrentam desafios tão grandes e contraditórios quanto o jornalismo. As inovações tecnológicas na produção, edição e distribuição de conteúdo transformaram radicalmente a rotina nas redações. Um exemplo é o uso de telefones celulares para transmitir imagens, que proporcionou mais agilidade dos repórteres e incorporou o próprio leitor/expectador no trabalho de reportagem. Essas mesmas tecnologias, no entanto, transformam de forma drástica o comportamento e os hábitos do público. O resultado é a queda acelerada na audiência dos canais de televisão e na circulação de jornais e revistas. A internet facilita o trabalho de apuração das informações, mas também gera um empreguiçamento geral nas redações. Muitos jornalistas deixaram de ir para a rua. Ficaram reféns da tela do computador, em vez de entrevistar pessoas, testemunhar os acontecimentos e tomar contato com a realidade fora das redações. É, portanto, um momento decisivo. O futuro vai depender do empenho, do talento e da capacidade de inovar de cada profissional envolvido nesse desafio. Os jornalistas parecem naufragar no oceano das novas tecnologias tanto quanto os nossos consumidores que, lá fora das redações, estão angustiados com a quantidade de informações a seu dispor mediante um simples clique do mouse do computador ou pelo celular. Mais do que nunca, precisamos aprender a ser seletivos e a separar o velho joio do trigo.

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