Periferia em movimento faz 10 anos com jornalismo que visa "emancipar quebradas"

Leandro Haberli | 05/09/2019 10:14
Criada na zona sul da capital paulista em 2009, como um projeto de conclusão do curso de jornalismo dos então alunos da Universidade de Santo Amaro (Unisa) Aline Rodrigues, Sueli Carneiro e Thiago Borges, a "Periferia em movimento" está completando dez anos como uma plataforma de articulação e produção de "conteúdo de quebrada". Contando com 5 profissionais fixos, além de uma rede de dez produtores de conteúdo, a Periferia em movimento passou a contar este ano com sua primeira sede fixa, localizada no bairro do Grajaú. Na entrevista a seguir, concedida por telefone ao Portal IMPRENSA, o fundador da plataforma Thiago Borges explica quais são as fontes de financiamento do projeto, detalha seu foco editorial e faz críticas à forma como a mídia aborda a periferia.
Crédito: Reprodução Periferia em movimento
Produtores de "conteúdo de quebrada" em ação: jornalismo de dentro para dentro

Portal IMPRENSA - Por que vocês decidiram fazer um projeto de conclusão de curso de jornalismo sobre a periferia?
Thiago Borges - Todos nós somos moradores de periferia. Nos incomodava a forma como a mídia retratava as periferias. Decidimos que esse seria nosso tema de pesquisa, partindo da discussão sobre o estereótipo da violência e sobre as iniciativas locais para combater a violência. Também queríamos discutir o papel da mídia na construção desse esteriótipo.

Portal IMPRENSA - Como essa ideia se tornou uma plataforma rentável de jornalismo?
Thiago Borges - Primeiro fizemos um documentário e criamos um blog sobre os bastidores. Nos anos seguintes fizemos debates sobre o tema periferia, além de oficinas audiovisuais. Com isso passamos a produzir conteúdo para o blog. Desde então estamos aprimorando a nossa produção. 

Portal IMPRENSA - Qual o foco editorial da Periferia em movimento?
Thiago Borges - Hoje a gente se entende como uma produtora independente de jornalismo de quebrada, que é um jornalismo que busca a emancipação das quebradas, que se coloca no lugar de quem sofre as opressões, e traz isso como um contraponto à narrativa da mídia hegemônica. Nosso jornalismo é feito nas periferias, para o público das periferias, de dentro para dentro, por pessoas de periferia, principalmente do extremo Sul de São Paulo, com esse olhar territorializado. Atuamos em duas frentes. Primeiro na produção de conteúdo. A gente articula, produz e distribui conteúdo  pensando em dar visibilidade para quem está na frente de lutas pela garantia de direitos nas quebradas. Seja na luta contra o genocídio, por direitos LGBTs, por cultura e diversidade, educação, saúde, transporte, moradia, preservação do meio ambiente, resistência indígena. Enfim, buscamos descentralizar as narrativas e a longo prazo construir um novo imaginário de sociedade, sem machismo, racismo, desigualdade social nem LGBT fobia. Nossa outra frente é a articulação. Trabalhamos com mobilização de públicos, mapeamentos e encontros de aprendizagem, como oficinas e cursos, sempre discutindo mídia, periferia e direitos humanos. 

Portal IMPRENSA - Qual a fonte de renda da plataforma? 
Thiago Borges - Hoje não conseguimos nos manter 100% como gostaríamos. Mas temos alguns projetos apoiados por editais públicos, principalmente na área da cultura. A gente presta serviços de produção de conteúdo e cursos também, principalmente para organizações da sociedade civil. Além disso, temos alguns patrocínios. Outra fonte de renda é um plano de assinaturas iniciado há pouco tempo na plataforma de financiamento coletivo Catarse.       

Portal IMPRENSA - Quantos jornalistas colaboram? Há colaboradores fixos? 
Thiago Borges - Hoje temos uma equipe de 5 pessoas, que atuam com articulação e produção e distribuição de conteúdo. Temos uma rede de dez pessoas que colaboram esporadicamente conosco, inclusive jovens que fizeram nossos cursos e oficinas de produção de conteúdo audiovisual. 

Portal Imprensa - Qual o perfil dos colaboradores?
Thiago Borges - Todos nossos colaboradores são comunicadores de quebrada. Alguns têm formação em jornalismo. Mesmo quem não tem formação formal passou por oficinas, cursos e processos de capacitação na área de comunicação e jornalismo. Também existe uma vivência a partir do território em comunicação. 

Portal IMPRENSA - Quais os planos para o futuro?
Thiago Borges - Queremos aumentar nossa equipe fixa e ter mais pessoas colaborando na produção de conteúdo, especialmente na área de redes sociais e design. 

Portal IMPRENSA - Vocês têm sede fixa?
Thiago Borges - Somente este ano conseguimos estabelecer uma sede fixa. Até então não contávamos com isso. Desde fevereiro a gente ocupa uma casa no Grajaú. 

Portal IMPRENSA - Quais as principais coberturas realizadas nestes dez anos?
Thiago Borges - Resumidamente, buscamos destacar a efervescência cultural das quebradas, o processo de produção cultural e artística e o movimento político que surge disso. Também destaco a cobertura sobre direito à cidade a partir de reportagens sobre moradia, especulação imobiliária e mobilidade. Nosso foco é a cidade enquanto território de direitos. A questão do genocídio de jovens negros nas periferias e toda a estrutura racista e patriarcal envolvida nesse fenômeno também foram destacadas em nossos conteúdos ao longo desses dez anos, assim como questões de gênero e sexualidade, machismo e LGBT fobia.