Efeitos de 2018 terão influência por décadas, diz autor de livro sobre o ano passado

Leandro Haberli | 03/09/2019 10:52
Ganhador de mais de duas dezenas de prêmios jornalísticos e literários no Brasil e no exterior, Mário Magalhães usou suas colunas para o Intercept como ponto de partida para seu novo livro "Sobre lutas e lágrimas: uma biografia de 2018" (editora Record, 330 páginas, R$ 33). Com passagens por "Tribuna da Imprensa", "O Globo", "O Estado de S. Paulo" e "Folha de S. Paulo", onde foi repórter especial, colunista e ombudsman, o autor da biografia "Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo" conta nesta entrevista concedida por email ao Portal IMPRENSA os motivos que o levaram a escrever um livro sobre 2018. Ele também comenta a metodologia empregada na produção da obra e resume os episódios que considera mais importantes do ano passado, além de revelar a produção de uma biografia sobre Carlos Lacerda, na qual trabalha desde 2015. 
Crédito: Daniel Ramalho
Mário Magalhães: "os capítulos mais longos e densos, com maior ambição jornalística e narrativa, são todos inéditos"

Portal IMPRENSA - Em que momento, a partir de qual acontecimento, você decidiu escrever um livro sobre 2018?
Mário Magalhães - “Sobre lutas e lágrimas” conta a história a quente, com capítulos escritos semana a semana em 2018. No fim de janeiro do ano passado, eu comecei a escrever uma coluna semanal no site “The Intercept Brasil”. De início, já amarrava, narrava e interpretava os acontecimentos dos dias anteriores. Acumulavam-se indícios de que não seria um “ano normal”, “mais um ano”. Tive certeza de que vivíamos um ano que deixaria sequelas na noite infame de 14 de março, quando a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados. Minhas colunas semanais passaram a ser criadas com o formato de capítulo de livro. Muitas delas estão em “Sobre lutas e lágrimas”, porém os capítulos mais longos e densos, com maior ambição jornalística e narrativa, são todos inéditos.

Portal IMPRENSA - Como ocorreu a escolha dos temas?
Mário Magalhães - Como ocorre em livros de ficção e não ficção, no fundo o escritor não escolhe temas e personagens; é escolhido por eles. Os assuntos, os protagonistas, os coadjuvantes e os figurantes se impõem. Um exemplo é o médico conhecido como Doutor Bumbum. Ele é um ninguém para a História, mas sua história oferece um retrato riquíssimo sobre hipocrisia: “faça o que eu digo, não o que eu faço”. Ele sugeria às pacientes que pesquisassem a trajetória dos médicos antes de procurá-los. Se soubessem qual era a dele... O Doutor Bumbum ganhou um capítulo dedicado a ele, que nas redes sociais era um militante extremista. O personagem se impôs. Idem o empresário e apresentador Luciano Huck. Um capítulo se debruça não sobre as ideias que ele alardeia, mas sobre uma falsidade recorrente no país: a promoção como “novo” do que não é. Huck tem duas décadas de intervenção política, com clara preferência partidária e inclinação ideológica. Suas opções podem ser boas ou não, mas sua figura não tem nada de recém-chegada à política. Huck é um veterano. Na Copa, Neymar e suas quedas se impuseram à narrativa. Bem como Elza Soares, com seu álbum que inspira as almas mais generosas e tolerantes.

Portal IMPRENSA - Na sua opinião, a prisão do Lula foi o momento-chave de 2018?
Mário Magalhães - Há quatro datas decisivas no ano, creio: 14 de março, com a morte de Marielle e Anderson; 7 de abril, com a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva (é Dia do Jornalista e do meu aniversário...); 6 de setembro, com a facada em Jair Bolsonaro; e 28 de outubro, com o desfecho eleitoral.

Portal IMPRENSA - Como foi o processo de pesquisa, produção e entrevistas?
Mário Magalhães - O livro combina ensaio e vários gêneros jornalísticos: reportagem, crônica e, daí as opiniões, artigo. Por isso os capítulos têm pegadas diferentes. A abertura, com a história do Réveillon de Marielle, é fruto sobretudo de uma entrevista que eu fiz com a companheira dela, a arquiteta Monica Benicio. O capítulo sobre a morte da Marielle se concentra na manifestação popular do dia seguinte, no Rio. Eu estava lá, com bloco e caneta para anotar o que via, ouvia, pensava e sentia. O capítulo sobre a volta de censura principia com a apresentação de Chico Buarque e Gilberto Gil cantando “Cálice” no Festival Lula Livre. De novo, eu estava lá, na Lapa carioca, mesmo cenário onde inicia o capítulo sobre o segundo turno eleitoral - ninguém me contou, eu presenciei. Capítulos de idas e vindas na história exigem pesquisa, como o que reconstitui o assassinato do estudante Edson Luís em março de 1968, 50 anos antes de matarem Marielle e Anderson. A história da Frente Ampla (1966-1968) contra a ditadura se beneficiou da minha investigação para a biografia de Carlos Lacerda, na qual trabalho desde 2015. Na minha opinião, os melhores capítulos são aqueles apurados na rua, gastando sola de sapato e de tênis, testemunhando a história.

Portal IMPRENSA - O livro tem um lado? Que lado é esse?
Mário Magalhães - Sim, tem lado: o da civilização contra a barbárie. É partidário: pelas luzes, contra o obscurantismo. Não fica em cima do muro _defende a democracia contra o autoritarismo e a ditadura. No Brasil de hoje, não tomar o partido da civilização equivale a ser cúmplice dos arautos da barbárie.

Portal IMPRENSA - Quais as sequelas de 2018? Qual o impacto que os acontecimentos do ano passado terão na história brasileira?
Mário Magalhães - O prólogo de “Sobre lutas e lágrimas” se intitula “O ano que tão cedo não vai terminar”. É uma referência-reverência ao livro clássico “1968: O ano que não terminou”, do jornalista e escritor Zuenir Ventura. Zuenir se referiu ao Ato Institucional número 5, de 13 de dezembro de 1968, baixado pela ditadura antes do fim daquele ano. Eu tenho convicção de que 2018 não terminará tão cedo porque seus efeitos influenciarão a vida nacional não somente por anos, e sim por décadas. A aceleração do desmatamento da Amazônia já estava desenhada em 2018, como o livro descreve. Também o ataque à ciência e à educação, que sofrerão por muito tempo as consequências do ano que só no calendário acabou. O recrudescimento da censura é bola cantada em 2018 nas artes, na cultura, na universidade, no jornalismo. Daqui a meio século, o Brasil vai se lembrar de 2018 como no ano passado recordamos 1968. Por isso a frase final do livro é “O ano que flertou com o apocalipse deixará sequelas demais”.