Versignassi lança edição atualizada de "Crash - Uma Breve História da Economia"

Leandro Haberli | 29/08/2019 12:00
Diretor de redação da revista Super Interessante, o jornalista Alexandre Versignassi tem uma outra paixão além da divulgação científica: economia. Ele começou a estudar o assunto há 15 anos, como pequeno investidor. Hoje, além de publicar análises econômicas em seu blog no portal da Super Interessante e no Facebook, é autor de "Crash - Uma Breve História da Economia", que foi finalista do Prêmio Jabuti em 2011. O livro ganha em setembro, pela editora Harper Collins, uma edição atualizada. Em entrevista ao Portal IMPRENSA, o jornalista analisou as drásticas transformações do cenário econômico de 2011 para cá, que figuram entre os motivos da atualização da obra, assim como o surgimento do bitcoin, que mereceu um capítulo exclusivo na nova edição. 
Crédito: Divulgação
Alexandre Versignassi: paixão por divulgação científica e história da economia




Portal IMPRENSA - Por que você resolveu lançar uma edição atualizada de seu livro "Crash - Uma Breve História da Economia"?
Alexandre Versignassi - Porque o propósito do livro é explicar o funcionamento da economia traçando paralelos entre o passado e o presente. E o presente mudou bastante desde 2011, quando saiu a primeira versão do livro. Por exemplo: o capítulo de introdução do Crash fala sobre a Mania das Tulipas, na Holanda do século 17. Foi uma bolha especulativa que elevou à estratosfera os preços dos bulbos de tulipa. Dava para comprar uma casa com uma flor. Isso parecia algo absurdo, que nunca iria se repetir. Mas aconteceu de novo. Foi entre 2015 e 2017, quando o preço do bitcoin subiu 7.800%, e de repente dava para comprar um apartamento com meia dúzia de bitcoins – que até outro dia valia rigorosamente zero. E não existiam bitcoins quando a primeira versão do livro foi escrita. Nesta, agora, há um capítulo inteiro sobre criptomoedas.    

Portal IMPRENSA - Como foi o trabalho de atualização do livro?
Alexandre Versignassi - Foi um trabalho complexo. O livro teve uma primeira atualização em 2015. Mas mesmo de lá para cá as mudanças na economia foram brutais. Para começar, tivemos a consolidação da maior crise econômica da história do País. Esta nova versão, então, busca explicar o que nos levou a essa crise. Outras constantes no livro são a evolução das taxas de juros, da inflação, da pontuação do Ibovespa. Tudo isso foi atualizado para a realidade de hoje.

Portal IMPRENSA - Como o diretor de redação da Super Interessante se interessou por teoria e história econômica?
Alexandre Versignassi -  Minha paixão dentro do jornalismo sempre foi a divulgação científica. Desde criança queria trabalhar na Super, e me especializei em traduzir conceitos complexos, como Relatividade e Física Quântica, para a linguagem do dia a dia. Passei a me interessar por economia há uns 15 anos, primeiro como pequeno investidor, depois estudando para valer. O que me motivou a entrar a fundo na economia foi um fato simples: trata-se de uma ciência fascinante. A economia, afinal, é a mais exata das ciências humanas, e a mais humana das ciências exatas (não lembro quem cunhou essa frase – mas ela diz tudo). Com o tempo, percebi que dava para utilizar as técnicas de divulgação científica na divulgação econômica. Para explicar Relatividade de modo que qualquer pessoa possa entender, por exemplo, você precisa buscar analogias nada óbvias. É um trabalho pesado de criação. Com economia é a mesma coisa. Testei isso pela primeira vez numa matéria da Super, em 2008, para tentar explicar a crise econômica global que abateu a economia naquele ano. O retorno positivo que eu tive dos leitores por aquela matéria foi maior do que o que eu tinha recebido até então. Dali em diante fui chafurdando cada vez mais na economia, e comecei a pesquisa para escrever a primeira versão do Crash.

Portal IMPRENSA - Seu livro foi lançado em 2011, numa época que o cenário econômico brasileiro era bem diferente do atual. Como você analisa essa mudança brusca observada por aqui?
Alexandre Versignassi - Em 2011, o clima era surrealmente positivo. Havia uma esperança real de que estávamos prestes a virar um país de primeiro mundo. Mas demos com a cara na parede. E não foi só por inépcia econômica do governo. Foi por conta de um legado de décadas de descaso com a educação e a infraestrutura, e atolado numa burocracia paralisante. Quando o Brasil teve a chance de dar um salto, se viu sem mão de obra qualificada, sem estradas de ferro para escoar produção, em meio a um labirinto tributário e um lodaçal de corrupção. Isso converteu a esperança do início da década em niilismo – e ainda não sabemos o caminho para sair disso. Por outro lado, a história está aí para ensinar: todas as economias caminham em ciclos. Vamos sair dessa crise, de um jeito ou de outro. O desafio é montar os alicerces para termos como aproveitar melhor o próximo período de bonança. E isso é o que precisamos fazer já.