"Steve Bannon sempre responde com um grande sorriso aberto quando perguntado se é neonazista", diz Milton Blay, que está lançando o livro "A Europa Hipnotizada"

Redação Portal IMPRENSA | 27/08/2019 12:23
Correspondente internacional na Europa desde 1978, o jornalista Milton Blay lança em São Paulo, nesta quarta, 28, o livro "Europa Hipnotizada - a escalada da extrema direita" (editora Contexto, 192 páginas, R$ 37). Radicado em Paris, Milton começou sua carreira na rádio Jovem Pan, foi correspondente do grupo Bandeirantes e de muitos outros veículos de comunicação do Brasil (incluindo revista Visão, jornal Folha de S.Paulo e rádios Capital, Excelsior [depois CBN] e Eldorado). Também foi redator-chefe da Rádio France Internationale, além de presidente da Associação da Imprensa Latino-Americana na França.  De passagem pelo Brasil, Blay contou em entrevista por telefone ao Portal IMPRENSA os motivos que o levaram a produzir seu novo livro e um pouco de sua rotina na França. Além de escrever, dar palestras e analisar política internacional em seu canal no YouTube, hoje ele ensina francês como voluntário da ONG Thot, que atua na acolhida de refugiados em Paris. 
Crédito:Reprodução Facebook
O jornalista brasileiro Milton Blay mora em Paris desde 1978


Portal IMPRENSA - O que representa o avanço da extrema direita na Europa hoje?
Milton Blay - A Europa viveu 70 anos em paz e agora está ameaçada de desintegração pelo avanço do populismo e da tentação nacionalista. Num movimento impensável poucos anos atrás, até mesmo países como França, Alemanha, Áustria, Holanda e Itália são palco hoje do avanço da extrema-direita.

Portal IMPRENSA - Como surgiu a ideia de escrever "Europa Hipnotizada"?
Milton Blay  - A extrema direita sempre foi uma preocupação minha, desde a época da ditadura, quando eu já trabalhava na imprensa no Brasil. Achei que nunca viveria esse tipo de problemática novamente. Mas pouco a pouco as ideias populistas e ultranacionalistas começaram a ressurgir. O fenômeno é alimentado pelo medo da globalização e consequente perda de identidade. Para os chamados antiglobalistas, migrantes são pessoas que causam choque de civilização. 

Portal IMPRENSA - Quando você iniciou as pesquisas para  o livro?
Milton Blay  - Cerca de três anos atrás, quando vim para o Brasil e dei uma palestra na qual fui muito questionado, inclusive pela comunidade judaica, por defender a ideia de que, como judeus, temos a obrigação de fazer pelos outros o que não fizeram por nossos pais e avós. As pessoas me falaram que a situação atual é totalmente diferente, pois os muçulmanos, de forma distinta a nossos pais, não querem se integrar. Resolvi pesquisar e vi que isso é totalmente falso. Os refugiados querem se integrar. Conto no livro as histórias exemplares de dois refugiados que foram acolhidos na França pela Thot, ONG na qual sou professor voluntário de francês. 

Portal IMPRENSA - Qual o tipo de público da ONG?
Milton Blay - Na ONG atendemos sírios, afegãos, sudaneses, eritreus, dentre outros cidadãos de países em guerra. Se voltarem, eles morrem. Vejo de perto o esforço que eles fazem para se integrar e aprender. Eu não aguentaria passar por metade das dificuldades que eles passam.

Portal IMPRENSA - Como foi a pesquisa para o livro?
Milton Blay - Comecei a investigar o que a extrema direita estava causando. O fenômeno ressurgiu no leste Europeu. Mas avançou de forma inimaginável no centro da Europa. Hoje existe partido neonazista até no Bundestag, que é o parlamento alemão. Quem poderia imaginar algum tempo atrás essa situação? Na França, Marine Le Pen conseguiu 40% dos votos no segundo turno. Tudo isso gera um profundo receio. E pior, a Europa não reage, parece hipnotizada. Daí o título do livro. 

Portal IMPRENSA - Regimes autoritários podem se legitimar pelo voto?
Milton Blay - Regimes autoritários são eleitos hoje com milhões de votos. Mas tento lembrar no livro que o império da lei está acima do sufrágio universal. Na Turquia não há imprensa livre. Situação semelhante ocorre na Polônia. A União Europeia tentou punir esses governos antiestrangeiros e eurocéticos, contrários à própria ideia de união europeia, mas não conseguiu. Vale lembrar que a União Europeia conseguiu 70 anos de paz numa região que foi uma das mais assassinas da história da humanidade. E o que quer a extrema-direita? O fim da União Europeia. Pode haver em breve uma implosão da União Europeia. É tempo de dar o grito de alerta. O extremismo está se alastrando. 

Portal IMPRENSA - Como você analisa o Brexit?
Milton Blay - O Brexit entra na linha do extremismo, da negação do estrangeiro. O Boris Johnson (primeiro-ministro do Reino Unido) quer o que vem sendo chamado de 'Brexit duro', ou seja, um Bexit sem acordo de saída da União Europeia. Isso seria péssimo para a circulação de pessoas e mercadorias. Londres é hoje a maior praça financeira do mundo, bem à frente de Nova York. Com o Brexit, os bancos estão saindo de lá. 

Portal IMPRENSA - Qual o papel da imprensa nessa guerra cultural?
Milton Blay - O papel da imprensa é fundamental. Vivemos a era da chamada pós-verdade. A verdade em si pouco importa. Na França e em outros lugares do mundo, o movimento antivacina ocasionou a volta de doenças como o sarampo. Os terraplanistas representam 10% da população da Europa. As redes sociais amplificam essas loucuras. As fake news adquiriram o mesmo peso das notícias verdadeiras.O receptor não consegue separar.

Portal IMPRENSA - Qual o papel de Steve Bannon na escalada da extrema direita na Europa?
Milton Blay - O elemento aglutinador da direita europeia é Steve Bannon, que, vejam só, mantém contato estreito com Eduardo Bolsonaro. Bannon fez a campanha de Trump, com muitas fake news via redes sociais e WhatsApp. Na Europa ele opera a 'Movement', organização antiglobalista e contra o que eles chamam de 'marxismo cultural'. Mas hoje eles também atacam o Iluminismo, Voltaire, Kant. É uma loucura. Muitas vezes jornalistas europeus perguntam para o Steve Bannon se ele é neonazista. Sua resposta é sempre um grande sorriso aberto. 

Portal IMPRENSA - Como se divide o livro?
Milton Blay - Ele tem quatro partes. A primeira é sobre a Europa. A segunda é sobre o Brasil. Nesta procuro demonstrar que o governo de Bolsonaro jamais poderá ser considerado democrático. A terceira parte é sobre o cenário internacional. Nela abordo também plataformas como Uber e Airbnb, que representam a nova forma de capitalismo que está surgindo, quase sem regras. A quarta parte do livro eu dediquei a uma de minhas grandes paixões, a música clássica. Embora eu não tenha nenhuma admiração por Hugo Chávez, escrevi sobre seu programa de formação de músicos nas favelas da Venezuela. Sei que é utópico, mas acredito que a música salva. Inclusive quero levar os refugiados com os quais trabalho para concertos da Filarmônica de Paris.