Governo Trump causou aumento na cobertura de educação nos EUA, diz professora de jornalismo da Universidade Columbia

Leandro Haberli | 20/08/2019 20:59
Depois de discutir os desafios enfrentados por jornalistas de educação no governo Bolsonaro, o 3º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, realizado em São Paulo, nos dias 19 e 20 de agosto, pela Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação), convidou a professora da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia (EUA), Lynnell Hancock, para a mesa "O jornalismo de educação na era Trump".

Mediado por Fábio Takahashi, que cobre educação desde 2003, é vice-presidente da Jeduca e editor do DeltaFolha (grupo de jornalismo de dados da Folha de São Paulo), o debate começou apontando as semelhanças entre Trump e Bolsonaro na área de educação. Também escritora e repórter de educação, Lynnell lembrou que a secretária de educação de Trump é Betsy DeVos, que tem entre as principais pautas de sua conservadora agenda política a privatização da educação, o aumento do ensino religioso nos EUA e a revogação de medidas do ex-presidente Obama de inserção de LGBTs nas escolas americanas.

A professora da Universidade Columbia explicou que essas pautas causaram pânico no início do governo Trump, impulsionando a cobertura de educação nos EUA. "Mesmo assim ela permanece na sombra, já que assuntos como o muro (separando EUA e México) dominam o noticiário", avalia Lynnell. 
Crédito:Reprodução Universidade Columbia
Lynnell Hancock é professora da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia desde 1993

A professora criticou a cobertura de educação do New York Times. Segundo ela, o jornal tinha planos de intensificar a produção de reportagens sobre o tema. Mas quando Trump foi eleito, os recursos foram direcionados para a cobertura política. Assim, o jornal não estaria dando conta de cobrir as pautas de educação em profundidade.   

Além do foco em outros temas polêmicos do governo Trump, restrições de equipe e orçamento dos veículos de comunicação estariam fazendo com que pautas de educação que a professora de Columbia classifica como "gigantescas" sejam pouco exploradas pela mídia americana. "É o caso da enorme discussão em torno da definição de novos parâmetros de pobreza para os estudantes terem acesso a merendas gratuitas nas escolas dos EUA. Infelizmente essa história não tem tido grande cobertura", lamenta Lynnell. 

Para ela, Trump "sequestrou a imprensa", pautando-a diariamente. "Hoje se fala em integração racial nos EUA quase da mesma forma que se falava na década de 1960. É assustador", exemplifica.

A professora da Universidade Columbia falou também sobre o fenômeno conhecido como "desert news", como são chamadas áreas remotas desprovidas de cobertura jornalística local. Na visão dela, uma saída para esses "desertos de notícias" são as organizações jornalísticas independentes sem fins lucrativos focadas no interesse público e dispostas a fazer a cobertura local nessas áreas. Lynnell citou casos bem sucedidos nesse sentido, como o das agências Propublica e Report For America.