“Um dos desafios do jornalismo é hierarquizar o conteúdo para se contrapor a desinformação”, diz Pablo Ortellado

Gisele Sotto, em colaboração | 19/08/2019 17:00
A segunda mesa do 3º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, promovido pela Jeduca, discutiu como as informações, falsas ou verdadeiras, nascem e se espalham hoje, e o que o jornalista deve saber para competir com novas formas de circulação das informações. 

Com a moderação de Vera Magalhães, colunista da rádio Jovem Pan e do jornal O Estado de S.Paulo, a mesa teve como convidados Pablo Ortellado, professor na Universidade de São Paulo e (USP) e colunista da Folha de S.Paulo, e Tomás Durán Becerra, diretor de pesquisa da Universidade CUN na Colômbia e membro associado da rede Unesco-UNAoC em Milid (Media and Information Literacy and Intercultural Dialogue). O congresso acontece até amanhã (20) em São Paulo, e está sendo transmitido ao vivo pelo @jeducabrasil no Facebook.
Crédito:Gisele Sotto

Para dar início ao debate, Vera Magalhães questionou como o jornalismo profissional deve se equipar e se credenciar como fonte habilitada de informação. Pablo Ortellado afirma que a natureza do nosso problema se deve ao deslocamento na forma que se consome informação. Com a distribuição por meio das mídias sociais, “o consumo é filtrado pela pessoa que compartilha os conteúdos... e temos uma sociedade muito engajada politicamente, consumindo muita informação política”, diz Ortellado, e completa que com a “alta temperatura política, atores maliciosos compartilham informação de baixa qualidade”. 

Tomás Durán Becerra lembra a importância da preparação do jornalista, por meio de ferramentas de construção crítica da informação para mediar a produção de conteúdo. Por outro lado, pensando na educação midiática, “o leitor deve conhecer a estrutura dos meios, como estão relacionados entre si, procurar entender a estrutura da informação”. 

O professor da USP aponta que estamos centrando muito no problema da mentira, só que “a natureza do fenômeno é a difusão de informação altamente partidária. A informação é distorcida, aumentada, tirada de contexto”. E reforça que, em contraposição ao jornalismo de simulacro, “o jornalismo com apuração tem o desafio agora de recuperar sua credibilidade, de apostar no equilíbrio jornalístico”. 

O diretor da Universidade CUN na Colômbia afirma que, na Europa, há uma grande preocupação da indústria em relação ao público ter competências que englobam a educação midiática, considerando a estratégia de empoderar o público e recuperar a audiência. Essa estratégia é importante em cenários como a Colômbia, onde “as pessoas se informam pelo WhatsApp, um aplicativo que não é legítimo para o jornalismo”, declara Becerra. 

Pensando nas redes sociais, Ortellado lembra que há um deslocamento importante da desinformação migrando para o WhatsApp e Youtube, como efeito do endurecimento dos termos de uso das redes, e que o “WhatsApp ganhou funcionalidades de transmissão em massa, o que permite campanhas de desinformação”. Ele afirma que “a sociedade se meteu num processo de engajamento político que leva à desinformação generalizada”.  

Becerra comenta que deve haver uma regulação, mas questiona até que ponto uma empresa pode ser autorregular, considerando que elas se regulam também pelo mercado. “Regulação não é censura, a regulação aparece para proteger a pluralidade da informação”, completa. 

O colunista da Folha de S.Paulo reforça que os algoritmos estão privilegiando “conteúdo inflamatório, e que o caráter indignante do conteúdo está relacionado à repercussão da informação de baixa qualidade”.  E aponta como desafio para o jornalismo a necessidade de “resgatar o equilíbrio, o bom senso, escutar as partes... hierarquizar o conteúdo para se contrapor a desinformação”. 

Becerra lembra que as declarações sensacionalistas encontram um eco, e que “o eco das notícias se dá pela pressão de atores econômicos e políticos”. Considerando isso, ele enfatiza a necessidade de potencializar nas pessoas a capacidade de discernimento crítico, “convidá-las para que pensem muito mais nas informações que consomem”.

Leia também