“O que a imprensa ainda não percebeu é como a gente perdeu a primazia da agenda”, ressalta José Roberto de Toledo

Gisele Sotto, em colaboração | 19/08/2019 14:53
A primeira mesa do 3º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, promovido pela Jeduca, debateu o novo ambiente do jornalismo, com destaque para o trabalho do jornalista em um ambiente político polarizado e hostil aos profissionais. 

Com a moderação de Antônio Gois, presidente da Jeduca e colunista de educação do jornal O Globo, a mesa teve como convidados Paula Cesarino Costa, jornalista e editora de diversidade da Folha de S.Paulo e José Roberto de Toledo, editor-executivo da piauí (site). O congresso acontece até amanhã (20) em São Paulo, e está sendo transmitido ao vivo pelo @jeducabrasil no Facebook.
Crédito:Gisele Sotto


Paula Cesarino Costa lembra que temos que discutir a postura dos jornais em relação às declarações dos políticos, e que faz sentido que as organizações de mídia sejam cuidadosas e não incendiárias na cobertura. “É muito claro que os jornalistas têm a missão de dizer como as coisas são, e isso não é tomar posição”, afirma.

José Roberto de Toledo enfatiza que “o que a imprensa ainda não percebeu é como a gente perdeu a primazia da agenda. Pelas mídias sociais, perdemos de vez esta batalha”. E complementa que a imprensa precisa pensar em como retomar o protagonismo, “senão a gente vai estar sempre a reboque”. 

A editora da Folha comenta que nestes oito meses de governo Bolsonaro teve uma mudança muito grande. “Bolsonaro é obsessivo em relação à imprensa, e ainda não aprendemos a lidar com o grau de ataques”, diz Paula sobre o presidente, que considera o maior pauteiro do Brasil. Isso acabou causando um esgotamento, já que muitas das notícias estão relacionadas a Bolsonaro. E como resposta a esse esgotamento, ela reforça que “às vezes, mais importante que publicar é ter a coragem de não publicar”. 

Complementando esta ideia, o editor da piauí fala que o jornalismo declaratório se tornou um vício, “já que é mais fácil plantar um repórter ao lado de cada autoridade”. O primeiro passo, segundo Toledo, é repensar as pautas, considerando o que Bolsonaro está fazendo e deixando de fazer, deixando claro para o público como se dá a proliferação da informação. Paula lembra que se dá destaque excessivo às declarações e que, com isso, o espaço do jornal para as demais notícias diminui.

Toledo reforça que “nós não vendemos informação, vendemos credibilidade” e lembra que há uma intenção e estratégia em desqualificar a imprensa. Paula aponta o desafio diário de cada redação – “a imprensa tem que desconstruir o que o Bolsonaro fala”. E que, para isso, nas redações, cada vez mais é necessário ter pessoas especialistas, com a capacidade de rebater e questionar, mas sem perder a visão do todo. 

Ao considerar as redações, Paula aponta que a composição precisa ser mais diversificada, para se ter mais vozes para o jornalismo, e que “a bolha das redações é mais preocupante pela falta de diversidade”. Com o enxugamento das redações, é mais possível atuar nos programas de treinamento para aumentar a diversificação, no entanto, a proposta, segundo ela, é colocar a diversidade nas pautas do dia a dia. “Mudar as fontes é decisivo para mudar um jornal”, completa a editora da Folha.

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