“O ambiente de ameaça à liberdade de imprensa continua a se espraiar por todo o mundo”, afirma Paula Cesarino, editora de Diversidade da Folha de S. Paulo

Kassia Nobre | 15/08/2019 14:09
Como deve ser o trabalho do jornalista em um ambiente polarizado? A editora de Diversidade da Folha de S. Paulo, Paula Cesarino, conversará sobre o tema na mesa de abertura do 3º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação da Jeduca. O evento acontecerá nos dias 19 e 20 de agosto, em São Paulo. 

O Portal IMPRENSA conversou com a jornalista sobre os desafios da profissão na cobertura do cotidiano brasileiro. 

“A Folha e os jornais em geral cobrem muito os corredores de palácios e repartições. Preocupam-se por demais com as declarações do primeiro e do segundo escalão, mantendo-se distante do impacto de suas políticas no rés do chão”, afirma.  

Crédito:Folha de S. Paulo
 
Redação Portal IMPRENSA: A mesa de abertura tem como tema o trabalho do jornalista em um ambiente político polarizado e hostil aos profissionais. Gostaria que você contasse um pouco como é na prática esta realidade para os jornalistas, não só da Folha, mas no cenário do jornalismo brasileiro. 

Paula Cesarino: Há oito meses no poder, o presidente Jair Bolsonaro tem se revelado um obsessivo no relacionamento com a imprensa e, em especial, com a Folha. Reclamou mais uma vez de que a imprensa prefere "futrica e fofoca" a mostrar "coisas boas". Disse não pretender ficar na mão de "certos órgãos de imprensa, cuja especialidade é distorcer; mais do que isso, mentir o tempo todo". 

Quando ombudsman, cargo que exerci entre abril de 2016 e abril de 2019, escrevi algumas vezes sobre os ataques de Bolsonaro, seus filhos e seus seguidores contra a imprensa. Critiquei alguns desequilíbrios e falhas de coberturas feitas pela Folha. Listei os desafios que o cenário institucional, político e econômico impõe à imprensa de modo geral e à Folha especificamente. 

Ao mesmo tempo que existem barreiras e dificuldades para acompanhar, investigar e noticiar o atual governo, seu estilo acaba por facilitar a cobertura estridente. 

Com um rol de ministros que falam demais e criam polêmicas gratuitas, com anúncios de medidas seguidos de recuos, com disputas internas de poder e sucessivas mudanças de equipe, tem sido fácil produzir um noticiário barulhento. Tal caldeirão, no entanto, embute a armadilha de o jornal se perder no acessório declarativo e improdutivo, deixando de lado o mundo real, o impacto das ações do governo na vida das pessoas e no funcionamento das instituições. 

A Folha e os jornais em geral cobrem muito os corredores de palácios e repartições. Preocupam-se por demais com as declarações do primeiro e do segundo escalão, mantendo-se distante do impacto de suas políticas no rés do chão. 

Redação Portal IMPRENSA: E quais são as ações que você acredita que o jornalismo possa desempenhar para enfrentar isso? 

Paula Cesarino: Educação, o tema que nos traz aqui, deve ser coberta  com certo grau de obsessão. Tomando como referência a frase do presidente, eu diria que a fonte do mal no jornalismo é dar voz a autoridades destemperadas em vez de dar ouvidos àqueles que possam traduzir o resultado de governança incompetente no cotidiano produtivo da nação. Resumindo: mais planície, menos planalto. 

Redação Portal IMPRENSA: Qual é a sua expectativa para o debate no congresso Jeduca? E qual é a importância de se discutir jornalismo neste ambiente de desinformação e polarização? 

Paula Cesarino: O ambiente de ameaça à liberdade de imprensa e o aumento dos riscos ao exercício da prática jornalística continuam a se espraiar por todo o mundo — a tal ponto que o professor de direito americano Stephen Gillers, em título de livro recém-lançado, definiu os dias atuais como aqueles em que o “jornalismo está sob fogo”. 

São mais do que conhecidos episódios que exemplificam que o momento atual está repleto de ameaças à liberdade de imprensa e de expressão, soterrando a ideia de que a era das redes globais digitais seria marcada pelo triunfo da comunicação sem censura. 

Em seu relatório 2019, o Conselho Europeu para a Proteção do Jornalismo e Segurança dos Jornalistas traçou um cenário preocupante: “A liberdade de imprensa é mais frágil agora do que em qualquer época desde o fim da Guerra Fria. Os jornalistas enfrentam cada vez mais obstrução, hostilidade e violência enquanto investigam e relatam em nome do público.” 

A entidade defende ações urgentes “para melhorar as terríveis condições da liberdade de imprensa e para fornecer proteção confiável aos jornalistas, prática e legal”. 

Segundo o relatório, o espaço da imprensa para cobrar responsabilidades de autoridades governamentais e de poderosos foi diminuído e a impunidade tem protegido os responsáveis por crimes violentos que visam deliberadamente jornalistas por seu trabalho. 

A ONG Repórteres Sem Fronteiras, divulgou seu Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa, no qual avalia 180 países. Concluiu pela existência de uma “mecânica do medo prejudicial ao exercício sereno do jornalismo”. 

A manipulação política nas redes sociais e a proliferação dos discursos de ódio foram responsáveis por colocar o Brasil no 105º lugar do ranking, três posições abaixo de 2018. 

Tudo parece sempre novo e em constante mudança nos tempos atuais. Estava preparada para escrever que os desafios e os cerceamentos ao jornalismo são cada vez maiores e preocupantes na sociedade da informação constante e instantânea. 

Num velho livro sobre jornalismo, deparei-me, no entanto, com uma frase cunhada há 250 anos, que revela que nem tudo é tão novo no front: “A liberdade da imprensa é uma bênção quando estamos inclinados a escrever contra os outros e uma calamidade quando nos vemos assediados por quem faz uso dela”, definiu o escritor inglês Samuel Johnson (1709-1784). Nada mais preciso, incômodo e, pelo visto, perene.

Jeduca 
O congresso da Jeduca acontece nos dias 19 e 20 de agosto (segunda e terça-feira), no Colégio Rio Branco, em São Paulo. 

Programação
A programação do evento é composta por 15 mesas e sete oficinas, organizadas em três eixos: era da desinformação, educação midiática e novos e antigos desafios da educação. A lista completa dos participantes pode ser consultada pelo site do evento.

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