Em vez de priorizar combate a assassinatos de jornalistas, governo mexicano os acusa de "mau comportamento"

Redação Portal IMPRENSA | 08/08/2019 12:04
Os jornalistas mexicanos Marcela Turati, co-fundadora da plataforma colaborativa Periodistas a Pie, e Javier Garza, ex-diretor do diário El Siglo de Torreón, que sofreu ataques armados e ameaças, escreveram um artigo publicado nesta quarta, 7 de agosto, na seção de opinião do jornal New York Times, sobre a decepção da categoria com o presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO). 

Intitulado "AMLO e a imprensa mal comportada", o artigo mostra que, em vez de fortalecer os mecanismos de proteção ao exercício do jornalismo e à liberdade de imprensa, e assim fazer com que o México deixe der o país mais perigoso do mundo para jornalistas, AMLO, um líder esquerdista que criou seu próprio partido para combater a "máfia do poder", tem feito críticas recorrentes e ferozes à imprensa mexicana quando esta aponta comportamentos inadequados de membros de seu governo. 
Crédito:Reprodução New York Times


Com título que faz referência à crítica de AMLO à tradicional revista mexicana Processo (segundo o presidente, ela não vem se "portando" bem), o artigo opinativo lembra que, enquanto o presidente desqualifica a imprensa que o critica, desde o início de seu governo, em dezembro de 2018, dez jornalistas foram assassinados por motivos relacionados a suas atividades profissionais no México.   

"Há aqueles que defendem a política de comunicação de AMLO, argumentando que o presidente está apenas expressando o cansaço popular com a imprensa corrompida e o direito de defender-se. Mas é inevitável considerar que sua hostilidade verbal alimenta os ferozes ataques cibernéticos e as alegações dos cidadãos aos repórteres de serem inimigos da sociedade, além de servir como um álibi para governadores e prefeitos que descrevem a mídia como corrupta garantirem a sua impunidade", analisam Turati e Garza. 

A dupla reconhece que ninguém esperava que, com a mudança de governo, o México se tornaria um paraíso para jornalistas.  "Mas também era impossível esperar o oposto, que as condições de trabalho dos jornalistas fossem piorar", analisam os autores do artigo, lembrando que, mantido o ritmo atual de assassinatos de jornalistas, 2019 vai se converter no ano mais sangrento para a categoria no México.  

De maneira equivocada e contraproducente, concluem os jornalistas, o debate no México gira em torno de uma imprensa "bem comportada". "E não no que implica ter uma imprensa ameaçada e dizimada pelo poder político, econômico, criminal ou suas múltiplas combinações". O texto termina com uma amostra aterradora do desdém do governo por tal situação: o fomento ao beisebol recebe mais verbas no México do que o mecanismo federal de proteção de jornalistas e defensores de direitos humanos.