“É difícil aceitar que a realidade supera uma charge”, diz o cartunista Benett

Kassia Nobre | 06/08/2019 13:59
Como deve ser o olhar de um cartunista para as pautas do cotidiano? O portal IMPRENSA entrevistou o chargista da Folha de S. Paulo e do Plural, Alberto Benett.

Benett relatou sobre o seu processo criativo e escolheu as charges que ilustram a entrevista para contar como teve a ideia de criá-las.

Ele explica que, ultimamente, o seu olhar para o cotidiano tem sido de incredulidade. “Em geral os chargistas têm de agradecer por governos controversos, mas confesso que em algumas situações é difícil aceitar que a realidade supera uma charge. Há personagens que parecem uma caricatura por si só. Há alguns anos eu levava um dia inteiro para fazer uma charge, desde a escolha do tema, até rabiscar em folhas de sulfite todas as ideias até entregar a versão final. Hoje antes de terminar a manhã já tenho duas ou três charges. No final da tarde, elas já se tornaram ultrapassadas porque surgiram novos temas, novas falas, novos personagens. Então tenho que começar tudo de novo”, conta.

A charge abaixo foi publicada na Folha de S. Paulo. Benett explica que ela é um exemplo de uma ideia que surge só de ler a chamada de uma matéria. “Foi um insight, e eu só precisava descobrir um jeito de desenhá-la o mais engraçada possível. Acho que é divertida e crítica ao mesmo tempo. Depois até foi copiada por contas de humor no Twitter”, relata.

Crédito:Arquivo pessoal










Segundo Benett, a charge abaixo tem um tom mais reflexivo. Ela foi publicada no Plural. “Armas, por exemplo, eu não gosto de fazer uma simples piada engraçada. Temas mais densos exigem charges menos simples, menos engraçadas. Mais críticas e muito mais reflexivas”, afirma.

Crédito:Arquivo pessoal



As charges também são feitas para homenagear, como esta também publicada no Plural. “Não há humor nenhum. Não há crítica. Apenas uma imagem, ou melhor, a ausência dela”, afirma.

Crédito:Arquivo pessoal


Trajetória

Benett começou sua carreira como cartunista aos 16 anos. Era considerado um garoto promissor. “Acho que me diziam isso porque eu fazia os desenhos de graça, só para publicar. O primeiro desenho que vendi foi por 5 reais. Dava para comprar uma coca-cola e um sanduíche”, conta.

Após se formar em Jornalismo, trabalhou no jornal Gazeta do Povo. Algum tempo depois, estava na Folha de S. Paulo, cobrindo férias de grandes nomes da charge, como Angeli e Glauco. Hoje, além de ser chargista da Folha, é chargista do Plural. Em 2013, lançou um livro de tiras chamado Amok.


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