Novo livro de Luiz Maklouf Carvalho analisa carreira militar de Bolsonaro e questiona sua absolvição pelo STM

Leandro Haberli | 06/08/2019 11:02
Por que Jair Bolsonaro abandonou a carreira militar e ingressou na vida política? A descrição em detalhes e com farta documentação desse controverso momento da trajetória do atual presidente constitui o eixo central do novo livro de Luiz Maklouf Carvalho, "O Cadete e o Capitão - A vida de Jair Bolsonaro no quartel" (editora Toda via livros, 256 páginas, R$54,90 papel, R$32,90 e-book).

Jornalista experiente e repórter do Estadão desde 2016, Carvalho é autor, entre outros livros, de "Mulheres que foram à luta armada" e "Já vi esse filme: Reportagens e Polêmicas sobre Lula e o PT". 
Crédito:Reprodução Facebook
Jornalista experiente, Luiz Maklouf Carvalho investigou a fundo passagem que considerava mal contada pela imprensa

Para "O Cadete e o Capitão", o autor fez uma investigação de fôlego de uma história que considerava mal contada pela imprensa: o julgamento de Bolsonaro sob acusação de participar de um plano para estourar bombas em locais estratégicos do RJ. Baseado em documentos e mais de cinco horas de áudio do julgamento, o livro traz 88 páginas de imagens e documentos. A obra aborda ainda o momento em que Bolsonaro se torna uma figura pública ao assinar para a revista Veja um artigo sobre o baixo soldo pago aos militares. 

Mais completa reportagem sobre essa passagem decisiva da vida do presidente, o livro acaba de ser lançado. Na entrevista a seguir, Carvalho explica que Bolsonaro foi considerado inicialmente culpado, mas acabou inocentado de forma polêmica pelo Superior Tribunal Militar (STM). 


Redação Portal IMPRENSA - Por que decidiu pesquisar esse período específico?
Luiz Maklouf Carvalho - Porque era uma uma boa história mal contada sobre um período  da vida do hoje presidente da República. Alguns jornalistas contaram parte dela, inclusive eu, como repórter do Estadão, mas faltava contar o todo, com começo meio e fim, todos os lados e todas as nuances. Meus outros livros também partiram de boas histórias mal contadas, incompletas, ou obscuras. Para a democracia, quanto mais luz, melhor.

Redação Portal IMPRENSA - Como recebeu material tão farto, incluindo áudio?
Luiz Maklouf Carvalho - O material é público, está nos arquivos do Superior Tribunal Militar. Só tive que solicitar,como outros colegas, e receber. São documentos oficiais com informações sobre a vida do Jair Bolsonaro no Exército - suas folhas de alterações -  e com a íntegra dos processos a que respondeu, em três momentos,  para apurar a denúncia da revista Veja, feita em outubro de 1987. Dizia que o capitão Bolsonaro e um outro colega oficial tinha um plano para explodir bombas em quartéis e na adutora do Guandu, em protesto contra os baixos soldos militares. Segundo a revista, o plano tinha o nome de "Beco sem saida". O capitão negou as acusações, Veja as reafirmou. A apuração judicial-militar sobre quem mentiu foi feita em três etapas: uma sindicância, que não deu em nada; depois um conselho de justificação, que condenou Bolsonaro por 3 a 0, e o julgamento no Superior Tribunal Militar, que o absolveu por 9 a 4. Meu livro questiona esse resultado, com base nos autos, e no áudio completo da sessão secreta do julgamento, também disponível nos arquivos do STM. A decisão do STM, por maioria,  está baseada no princípio in dubio pro reu - na dúvida se absolve o réu -, porque teria havido empate em quatro laudos grafotécnicos em croquis publicados em Veja, e atribuidos a Bolsonaro, um deles com o desenho de bomba. Mostro que não houve empate nenhum - e sim dois laudos conclusivos afirmando a autoria de Bolsonaro,  2 a 0, portanto, contra ele. Esses laudos estão nos anexos do livro, da íntegra, além de outros documentos e diversas imagens.

Redação Portal IMPRENSA - Acha que na época do Exército ele já tinha vocação para a política?
Luiz Maklouf Carvalho - Não. O livro mostra que ele optou pela política depois do processo acima referido. Antes dele, em 1986, Bolsonaro foi punido com 15 dias de prisão disciplinar, por ter assinado um artigo na revista Veja, reclamando dos baixos salários, o que foi considerado uma 'transgressão grave' ao Regulamento Disciplinar do Exército (documentos no anexo do livro).  Com isso, e mais o processo já citado, sua carreira militar estava comprometida. A política foi uma opção determinada por essas circunstâncias.

Redação Portal IMPRENSA - Você sofreu algum tipo de pressão ou de ameaça por conta do livro?