"Não foi o melhor, mas foi o possível", diz Patrícia Zaidan sobre acordo entre demitidos da Abril e novo dono do grupo

Leandro Haberli | 26/07/2019 09:30
Prestes a completar um ano, no próximo dia 6, a demissão em massa de funcionários do Grupo Abril segue sendo causa de angústia para as famílias dos 804 profissionais, entre gráficos, jornalistas, distribuidores e administrativos, que perderam o emprego naquele dia. 

"Nove dias após as demissões, quando deveria começar a pagar as verbas rescisórias, a Abril conseguiu aprovar na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais a sua entrada em recuperação judicial, o que garantiu a ela o direito de suspender a quitação do que devia aos trabalhadores, que ficaram sem receber férias, 13º salário, 40% de multa sobre o FGTS e horas extras", lembra Patrícia Zaidan, que foi editora da revista Claudia por 19 anos e tem ajudado na mobilização pelos direitos dos demitidos da Abril.  

Além dos 804 demitidos, quase 250 trabalhadores, que haviam sido dispensados em meses anteriores e ainda recebiam as verbas rescisórias em parcelas, tiveram cancelados seus pagamentos. "Foram ainda incluídos no abismo dos desesperados cerca de 200 freelancers, entre fotógrafos, diagramadores, revisores e produtores, igualmente deixados de mãos vazias. O número de tungados aproximou-se, então, de 1250 profissionais. Ou seja, um calote retumbante arquitetado pelos acionistas do Grupo, os irmãos Giancarlo, Victor e Roberta Civita", prossegue Patrícia, acrescentando que, segundo a revista Forbes, os três detinham em 2015 um patrimônio pessoal avaliado em 3,3 bilhões de dólares (a dívida trabalhista do Grupo Abril seria de aproximadamente 7% desse valor).  
Crédito:Reprodução Facebook
Zaidan foi editora da revista Cláudia por 19 anos e participou das negociações com o atual dono do Grupo Abril


Após exaustivas rodadas de negociação com o atual dono do Grupo Abril, o advogado Fábio Carvalho (que comprou o negócio por apenas 100 mil reais) e sua equipe, o grupo de demitidos e freelancers assinou um acordo em maio. "Não foi o melhor acerto, mas o possível", pondera Patrícia. 

Resumidamente, a maioria tinha verbas rescisórias de até 250 mil reais e receberá tudo até fevereiro de 2020. A primeira parte (70% do valor) foi paga em junho passado; os 30% restantes serão quitados até dia 16 de fevereiro. O que passa de 250 mil reais e atinge 350 mil sofre deságio de 40%. O prejuízo maior ficou para quem tem crédito a receber acima de 350 mil reais, normalmente profissionais que trabalharam mais tempo na Abril e assumiram responsabilidades em cargos de chefia. 

"O montante que ultrapassa 350 mil reais será pago com o abusivo deságio de 92%. Os freelancers também saíram muito machucados. Tratados como empresa - que, na verdade, não são - tiveram que se submeter a ajustes vis ou receber 8% do valor devido, e em parcelas a perder de vista", descreve Patrícia. 

Na entrevista a seguir, a jornalista fala mais sobre as injustiças sofridas pelos demitidos da Abril, e lembra dos casos de Fábio Sasaki e Dagmar Serpa, que morreram sem receber o que o grupo devia a eles. 

Redação Portal IMPRENSA - Como ficou a situação de quem não aderiu ao acordo?
Patrícia Zaidan - Os demitidos que assinaram o acordo tiveram que se comprometer a abrir mão de processar a empresa. Quem não topou deve receber em 16 de fevereiro, conforme a tabela de limites oferecida aos demais. Mas pode ir à Justiça do Trabalho para cobrar, por exemplo, multa por atraso na quitação das verbas rescisórias, insalubridade, acúmulo de função, horas extras etc.

Redação Portal IMPRENSA - Resumidamente, como você avalia o comportamento dos herdeiros da família Civita no episódio?
Patrícia Zaidan - Fiquemos em apenas dois exemplos das manobras que os irmãos bilionários engendraram para sair com bolsos abarrotados. No primeiro deles, O Ministério Público do Trabalho descobriu que os Civita levaram para casa 44,6 milhões de reais, nos anos 2016 e 2017, quando os balanços do Grupo Abril apontavam prejuízos. Eles já haviam arrancado outros 73 milhões de reais entre 2013 e 2015. Enquanto os cofres eram sangrados, a empresa amargava a penúria, as redações ficavam cada vez mais enxutas e sucateadas, ocorriam cortes nos custos de produção e redução a zero nos investimentos em tecnologia e nas publicações digitais. Do final de 2017 até as demissões em agosto de 2018, onze títulos foram extintos – oito deles dedicados ao público feminino. Outro exemplo foi a venda da Abril Educação por cerca de 1,3 bilhão de reais. Os Civita alardearam que o negócio tinha sido montado com recursos pessoais, portanto, a venda não se reverteria para o Grupo, que despencava para o precipício.

Redação Portal IMPRENSA - A situação dos profissionais freelancers é parecida com a dos demitidos?
Patrícia Zaidan - Grande parte dos profissionais freelances não fechou acordo. A diretoria da Abril, além de desmarcar todas as reuniões que decidiriam o pagamento a eles, está fazendo uma coerção pesada e vergonhosa. Há quase três meses pressiona os freelancers a darem procuração ao advogado da própria empresa para representá-los na assembleia de credores – o que está diretamente ligado à negociação do pagamento. Ora, como o profissional-credor pode ter o mesmo advogado da Abril devedora? Há conflito de interesses. Quem constituiu o advogado do Sindicato dos Jornalistas (Raphael Maia) como seu procurador foi colocado numa lista negra. Ou seja, as redações consultam essa lista odiosa e não passam mais trabalho aos considerados freelas rebeldes. A pressão é tanta que alguns estão cedendo, porque precisam seguir trabalhando. Não é decente esta atitude da Abril. Ela é grave. O prejuízo atinge não só os freelas, mas a categoria inteira.

Redação Portal IMPRENSA - Você tem associado parte do declínio do Grupo Abril a suas posições políticas e editoriais. Continua pensando assim?  
Patrícia Zaidan - Sim. Ao processo de sucateamento se somou o descrédito da opinião pública. Uma empresa de comunicação não pode considerar-se o puxadinho do Supremo Tribunal Federal. Não deve operar como se fosse integrante da República de Curitiba ou informante de uma banda de procuradores e juízes. Não é sensato fazer jornalismo como se o Brasil fosse apenas Brasília, São Paulo e, às vezes, Rio de Janeiro.
 
Redação Portal IMPRENSA - Quais as principais medidas tomadas conjuntamente pelo grupo de jornalistas demitidos para garantir seus direitos?
Patrícia Zaidan - Criamos um comitê de demitidos e freelancers enganados um dia depois de a empresa entrar em recuperação judicial. Nós nos articulamos muito bem, do contrário estaríamos num limbo sem fim. A primeira reunião foi no Sindicato dos Jornalistas, e o apoio do presidente da entidade, Paulo Zocchi, mostrou-se imprescindível. Ele se colocou como um mediador entre os sindicatos das outras categorias e participou conosco das negociações com a empresa.

Redação Portal IMPRENSA - Como foi a organização desse comitê?
Patrícia Zaidan - Um grupo de coordenadores representava todos os demitidos. Juntar jornalistas, gráficos, distribuidores e administrativos foi fundamental. Passamos a fazer protestos digitais todas as vezes que as revistas da Abril mantinham eventos com patrocínios e convidados. Queríamos denunciar. E fizemos isso até de forma bem-humorada, muitas vezes, por meio de cards, memes e capas de revistas parodiando as da Abril. Ocupamos as redes sociais, publicamos artigos em jornal de grande circulação, fomos a uma audiência pública na Assembleia Legislativa que tratou do assunto, demos entrevistas em inúmeros veículos, falamos em universidade, pedimos apoio a diferentes setores da sociedade. Cerca de 350 jornalistas e fotógrafos que fizeram parte da Abril ao longo de décadas – e já não pertenciam mais aos quadros da empresa – assinaram uma carta memorável em nossa defesa. Também teve corpo a corpo, ações ruidosas na porta da gráfica da Abril, ‘apitaço’ na assembleia de credores, passeatas e manifestação no Fórum João Mendes, durante uma visita-surpresa ao magistrado da Recuperação Judicial. O juiz do caso, doutor Paulo Furtado, acostumado a falar com advogados e promotores, nunca tinha recebido um grupo de 35 mulheres. Tornaram-se público o abandono e o desrespeito aos demitidos.

Redação Portal IMPRENSA - Como surgiu o mote "Abril com Fome"?
Patrícia Zaidan - Uma empresa tem responsabilidade social. Não pode provocar o caos na vida dos funcionários nem ir ao mercado atrás de patrocínio quando desrespeita direitos básicos. O trabalho é um deles. Comer é outro: muitos colegas viram a geladeira ficar vazia em poucas semanas, sem dinheiro para alimentar os filhos. Por isso, as nossas redes sociais levam o nome “Abril com Fome”. 

Redação Portal IMPRENSA - O calote também provocou doenças?
Patrícia Zaidan - Sim. A falta de dinheiro e a humilhação sofrida toda vez que um de nós procurava o RH da empresa causaram depressão, crises de pânico, úlcera, distúrbios intestinais e respiratórios, além do agravamento de doenças pré-existentes e muitos outros sintomas psicossomáticos. Perdemos dois jornalistas quando a dispensa em massa completou, em março, sete meses. Fábio Sasaki e Dagmar Serpa morreram sem receber o que a Abril devia a eles.  
 
Redação Portal IMPRENSA - Você tem informações sobre a recolocação dos profissionais no mercado de trabalho?
Patrícia Zaidan - Poucos conseguiram se recolocar com a dignidade que mereciam. Pelos relatos trocados nos grupos de ex-funcionários, nota-se que a maioria recebe salários bem menores, aceitou trabalhar sem carteira assinada. Outros submetem-se a fazer bicos variados ou deixaram a profissão.

Redação Portal IMPRENSA - Como você avalia o modo de agir da empresa até agora?
Patrícia Zaidan - O Grupo Abril tornou-se um exemplo bem-acabado de pagador ruim e patrão canalha. Virou imagem da empresa que trai, age sorrateiramente e à sombra. E ainda esculpiu um modelo de RJ que tem sido seguido por outras empresas que atuam no ramo de editoração e cultura. Os atuais proprietários da Abril terão que suar muito se quiserem transpor o calote construído sob a proteção da Lei de Recuperação Judicial.                                                                                                                                  
Redação Portal IMPRENSA - Aliás, você é crítica dessa lei. Por favor, explique por quê. 
Patrícia Zaidan - Criada em 2005, ela precisa de revisão urgente. Não pode beneficiar empresários como os Civita, que desejavam livrar-se do negócio que tanto desprezaram, distanciar-se dos dramas que causaram e ampliar a blindagem do patrimônio pessoal. Na RJ, diferentemente do processo de falência, acionistas declaram seus bens sem que isso seja necessariamente investigado. Se disserem que possuem duas cabras e um marreco, isso será tomado como verdade. É importante dar proteção judicial à empresa em crise para que se reerga sem sofrer pressão dos grandes credores. No caso da Abril, a maior parte da dívida de 1,6 bilhão de reais era com os bancos Bradesco, Itau e Santander. O Estado, por meio da lei de RJ, apoia a empresa para que ela volte a cumprir seu papel social e a contribuir com a economia do país. A lei, porém, não pode servir de prêmio para o mau empresário. Um projeto de lei ordinária deveria estabelecer que só se beneficia a empresa que não incluir verbas rescisórias no processo, tirando o trabalhador da RJ, algo que se arrasta por muito tempo. Também só recorreria a ela o empresário que abrir as contas bancárias (incluindo as mantidas fora do país) e apresentar as últimas dez declarações à Receita Federal demonstrando não haver nenhuma pirotecnia com o dinheiro ou ocultação de patrimônio.