"A guerra é uma oportunidade de entrar em contato com os aspectos mais extremos da condição humana", diz Lourival Sant'Anna

Leandro Haberli | 24/07/2019 17:31
Repórter e analista internacional, Lourival Sant'Anna se baseou na sua experiência de 20 anos cobrindo guerras para escrever seu terceiro livro, "Minha guerra contra o medo - O que o risco de morte ensina sobre a vida". Destinada a jornalistas e público em geral, a obra traz 7 passos de como lidar com o medo. 
Crédito:Divulgação



Tendo acumulado experiência como repórter especial, editor-chefe, editorialista e correspondente em Londres do Estadão, o jornalista hoje em dia cuida do blog Ao redor do mundo, hospedado no portal do Estadão, e apresenta na rádio CBN, junto com Roberto Nonato, o programa “O Mundo em Meia Hora”. 

Seu novo livro será lançado em São Paulo no dia 29 de julho, às 19h, no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. A cerimônia contará com talk show com a presença de Nonato e do neurologista Fabiano Moulin de Moraes, professor da Unifesp e autor do prefácio. 

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Em Belo Horizonte, o lançamento será no dia 1 de agosto, às 19h, no auditório do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), em talk show com Shirley Souza, âncora da CBN de Belo Horizonte, e com o advogado Sergio Suchodolski, presidente do banco. 

O livro está à venda na Amazon, nas versões impresso e Kindle, e no site da Livraria Cultura. "Quem quiser um exemplar autografado, pode me mandar mensagem no email contato@lourivalsantanna.com", diz o jornalista. Na entrevista a seguir, ele fala mais sobre a obra e o papel do medo na sua carreira. 

Redação Portal IMPRENSA -  O que te inspirou a escrever o livro? 
Lourival Sant'Anna - Cubro guerras há 20 anos e, em palestras e conversas, sempre me perguntaram se eu não sentia medo. Respondia que sim, claro. Então a próxima pergunta era: “Ah, então você é viciado em adrenalina?” Não, não gosto de correr riscos. Dirijo devagar, não gosto de montanha russa. “Então, por que você cobre guerras?”, me perguntavam. E a resposta que saía de mim, sem pensar muito, era: “Para me esquecer de mim mesmo”. Eu próprio não entendia essa resposta. Então, nas coberturas de guerra, passei a observar o funcionamento do medo, em mim, e nas pessoas ao meu redor. Foi dessas observações que nasceu a minha proposta de 7 passos de como lidar com o medo. O fio condutor dos 7 passos é exatamente sair de si mesmo, do seu mundo subjetivo, interno, onde moram as fantasias que alimentam o medo. Interessar-se e ocupar-se com o mundo real, onde estão a vida presente, as tarefas a serem executadas, e as pessoas, diminui a importância que damos para nós mesmos e, com ela, o medo. Observei que eu sentia mais medo quando estava indo para a guerra, e durante a noite, sob bombardeio, quando a realidade não está presente, e eu não tinha as tarefas da cobertura de guerra, que são muitas. Então formulei um método, com base nessas observações, que pode ser aplicado pelas pessoas, nas suas vidas cotidianas, nas relações pessoais e profissionais. Porque o medo é a grande doença contemporânea, a força dominante da nossa sociedade, que nos faz fugir para longe dos nossos sonhos, quando deveríamos ficar e lidar com as situações, ou, ao contrário, nos paralisa, nos faz ficar em situações, empregos, relacionamentos, que nos tornam infelizes, por medo de sair, medo do desconhecido, medo da mudança. No livro, eu conto em detalhes minhas vivências na guerra que me levaram a compreender o funcionamento do medo, e a elaborar cada um dos 7 passos que eu proponho. 

Redação Portal IMPRENSA -  Você tem uma extensa vivência internacional, incluindo algumas guerras. Quais os principais medos nesse tipo de cobertura?  
Lourival Sant'Anna - Bombardeios, disparos de tanques, tiroteios, franco-atiradores. Eu faço fotos e vídeos, e vou para o fronte, não fico na retaguarda, como os repórteres de texto. Para mim é fundamental viver o que as pessoas estão vivendo, para poder entendê-las e contar sua história, e ver e sentir o lugar, contar quantos tanques, quantos soldados, a frequência dos bombardeios, as distâncias, a topografia do terreno e tantas outras informações necessárias para entender o que se passa numa guerra. É um ambiente de muitos riscos, que nos fazem sentir medo de morrer, de nunca mais vermos as pessoas que amamos, de deixar os filhos órfãos. São sentimentos extremos, que nós mesmos vivemos na pele, e que vemos também outras pessoas enfrentar. Sempre me perguntam qual foi o momento de maior risco, e não consigo escolher um momento em especial. Foram muitos. Em todas as guerras se correm esses riscos. E eles são sempre assustadores, e nos marcam para sempre.


Redação Portal IMPRENSA - Como viver com as lembranças da guerra? 
Lourival Sant'Anna - Eu faço terapia e meditação. Mas mesmo assim não consegui ainda elaborar, ou mesmo acessar, grande parte do que vivi, e sei que não conseguirei, até o final da vida. Às vezes, nas minhas palestras, a voz falha, escorrem lágrimas quando conto alguma história. É muita coisa. E às vezes algum momento reaparece, em sonhos e lembranças. Quando eu estava cobrindo a guerra da Líbia, em 2011, eu voltei para o Brasil, para fazer uma pausa, enquanto os rebeldes se preparavam para avançar para Trípoli. Eu estava no clube, com meus filhos, cochilando numa cadeira de tomar sol. De repente, ouvi o rugido de um avião militar, e pensei: “O bombardeio vai recomeçar. Onde estão meus filhos?” Abri os olhos sobressaltado, e meu filho Pedro estava de pé, me olhando: “O que foi, pai?” Olhei para o céu, e um avião da FAB estava passando. É assim.

Redação Portal IMPRENSA - O que você aprendeu nessas situações? 
Lourival Sant'Anna - A guerra é uma oportunidade de entrar em contato com os aspectos mais extremos da condição humana. Na guerra, vemos do que nós, seres humanos, somos capazes, tanto no que é mais bonito quanto no que é mais sombrio: de um lado, a coragem, o amor, o desprendimento, a generosidade, a capacidade de arriscar a vida pela liberdade e pela dignidade e, do outro lado, a crueldade, o egoísmo, a covardia, a injustiça, a violência desmedida. O grande prazer dessas vivências está exatamente no aprendizado que elas proporcionam. Por isso para mim esse livro, que é o meu terceiro livro, é muito importante: porque nele eu relato alguns desses momentos de extremo risco e de experiências tão intensas, e tiro lições que acredito que possam ajudar as pessoas a lidar com seus medos cotidianos, e a distinguir a ameaça real da ansiedade crônica alimentada por fantasias, que as tornam infelizes, que as fazem viver bem menos do que poderiam viver.