Flip insere Euclides da Cunha na atualidade brasileira, e destaca a trajetória do primeiro correspondente de guerra do país

Redação Portal IMPRENSA | 11/07/2019 14:06
A noite inaugural da 17ª Festa Literária Internacional de Paraty — Flip contou com a maior intérprete de Euclides da Cunha, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão. Estudiosa da obra do escritor desde os anos 1970, Walnice recomenda a leitura diária de ‘Os Sertões’ para os brasileiros entenderem problemas atuais do país. 
Crédito:Walter Craveiro / Divulgação Flip

“Enquanto o capitalismo não acabar, teremos que ler Os sertões para saber o que acontece com os pobres do país — o genocídio de jovens negros, a militarização das favelas no Rio, desastres de Mariana e Brumadinho, por exemplo”, afirma a professora emérita da Universidade de São Paulo. 

Walnice lembra que ‘Os Sertões’ é um “livro vingador”, que diferentemente das demais versões sobre Canudos, não transmitia um ponto de vista único, o dos militares, e reforça que a propaganda contra Canudos foi uma fraude. “Ao contrário do que se dizia, os canudenses não eram monarquistas e nem queriam derrubar o governo”. E associa essa fraude às fake news. “Assim se vê que não foi Donald Trump quem inventou a fake news. Canudos foi uma das maiores fraudes da história do Brasil”. 

Para entender a cobertura de Euclides, Walnice analisou a cobertura jornalística da época. “O noticiário não poderia ser menos imparcial. Quase todos os repórteres eram militares, alguns combatentes. É de admirar que Euclides tenha conseguido escrever, insistindo que a campanha foi 'um crime'", afirma a crítica literária, conforme destaca nota do G1

Fernanda Diamant, curadora desta edição da Flip em homenagem a Euclides da Cunha, fala do homenageado e sua relação com a atualidade do Brasil. “Há algo de mítico, também, no relato da violência que define a sobre-humana revolta de Canudos. Mas a tragédia é real e foi testemunhada pelo autor, que, ao escrever o livro, reviu suas convicções e nos levou às raízes, ao fundo arcaico da opressão e da intolerância que ainda alimentam a violência social no país”. Ela dedicou esta edição da Flip a seu companheiro Otavio Frias Filho, falecido em 2008, e a João Gilberto, morto na semana passada, e o “Brasil que ele cantou”.

Por que ler ‘Os Sertões’

Crédito:Reprodução

“Um gênio no fim do mundo”, assim denominou a matéria da Revista IMPRENSA (de julho de 1990) em memória a Euclides da Cunha, o primeiro correspondente de guerra brasileiro, que desafiou em Canudos o jornalismo articulista de sua época. Em 1897, Euclides da Cunha foi enviado ao norte da Bahia, pelo jornal O Estado de S. Paulo, para fazer a cobertura de um conflito no arraial de Canudos. 

“A capacidade de desmontar uma pauta ao descobrir um enfoque novo e mais interessante é uma arte dos bons repórteres. Se não possuísse esta qualificação, que desnudou a crueza do país às grandes cidades do litoral, provavelmente Euclides não produziria o impacto que eternizou sua obra”, destaca IMPRENSA. 

A jornalista e professora Patrícia Paixão, que coloca “Os Sertões” na lista dos ‘vinte livros que vão aumentar o seu amor pelo jornalismo’, lembra seu primeiro contato com a obra. “Esse foi o segundo livro que li na faculdade... A obra é interessante não só por mostrar a importância de o repórter ir a campo, derrubando pressupostos que estão na pauta, como para entender a natureza do sertão e a essência e os sofrimentos do sertanejo. Todo brasileiro deveria ler esse livro”. 

Já a jornalista Paula Cunha, que coloca “Os Sertões” na lista dos ‘10 livros que o jornalista não pode deixar de ler’, comenta outra característica da obra. “Pode ser considerada também uma obra de estudo sociológico, geográfico e histórico. Apresenta forte crítica social ao retratar as dificuldades dos sertanejos (‘O sertanejo é, antes de tudo, um forte’) e a já histórica indiferença das elites brasileiras”. 

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