Comprova 2.0 é lançado com novo enfoque na abordagem

Gisele Sotto, em colaboração | 28/06/2019 11:14
Daniel Bramatti, presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), define o Comprova como “um projeto de jornalistas que envolve veículos, empresas e colaboradores. Uma jornada pelo mundo da desinformação”. Em 2018, a associação coordenou a coalização de 24 veículos de comunicação, que se uniram para monitorar e investigar boatos relativos à campanha presidencial brasileira, pelo período de 12 semanas. O Comprova conta com o patrocínio do Google News Initiative e do Facebook Journalism Project.

O projeto voltará a atuar na segunda quinzena de julho, agora com foco em políticas públicas federais, e foi lançado nesta quinta-feira (28) no 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. 
Crédito:Gisele Sotto
Equipe do Comprova, no lançamento durante o Congresso da Abraji

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, o presidente da Abraji fala sobre os desafios do Comprova 2.0. “O desafio será navegar por um ambiente bem diferente, mas que tem grupos políticos envolvidos, que procuram distorcer as informações... As ondas de informação se propagam e temos de buscar meios eficazes de se contrapor a isso”. 

Quanto às expectativas, Bramatti comenta que “a gente [coalizão de veículos do Comprova] vai ter uma grande vitória se conseguir manter um alto grau de envolvimento colaborativo entre as empresas”. E reforça que, por meio do Comprova, se obtém “um produto final [referindo-se às reportagens] com mais qualidade, mais olhos, mais pessoas contribuindo para o resultado final”. 

Pedro Burgos, jornalista e professor do Insper que atua como pesquisador convidado no Comprova, lembra que no início do projeto era muito difícil acreditar nessa “noção de ajuda mútua”, referindo-se à coalização de veículos, e reforça que para a segunda etapa do Comprova “a construção de confiança entre potenciais concorrentes é fundamental”. 

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, o jornalista e professor do Insper diz que no Comprova 2.0 eles irão atacar novos desafios, entre os quais, o de entrar em grupos fechados, onde o alcance da informação é muito forte. Ele acredita que com o foco em políticas públicas federais, “talvez [o projeto] tenha maior potencial de impacto”, e destaca que “abrindo o leque de conteúdo, teremos mais ideia do que funciona e não funciona”. 

Na nova etapa, em 2019, o Comprova terá o objetivo de monitorar e investigar boatos com alta viralização no ambiente online relativos a políticas públicas em discussão no Brasil. Buscará também promover iniciativas de educação midiática e treinamentos para alertar sobre conteúdos falsos que podem causar dano e confundir os cidadãos.

Os impactos do Comprova 

Claire Wardle esteve presente no lançamento do Comprova 2.0 e comentou as conquistas e desafios da primeira etapa do projeto. Ela comanda o First Draft, organização sem fins lucrativos que pesquisa e combate a desinformação, e que foi responsável pela implantação do Comprova no Brasil.
Crédito:Gisele Sotto
Claire Wardle, Adriana Garcia e Angela Pimenta no debate de lançamento do Comprova 2.0

Durante o debate, que contou também com as presenças de Adriana Garcia, gerente de projetos do Comprova, e Angela Pimenta, presidente do Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo), foram ressaltados os princípios editoriais do Comprova, responsáveis por alicerçar a coalizão dos veículos, entre os quais estão: integralidade e imparcialidade, independência, transparência, e responsabilidade ética.

Claire vê o Comprova “como um mecanismo para impulsionar bons conteúdos”, e considerando que grande parte da população não confia na mídia, ressalta a necessidade de “criar ‘etiquetas’ que expliquem a manipulação, a fim de começar a educar as audiências”. 

Duas questões foram levantadas no debate: como garantir que nossas reportagens são tão engajadoras quanto a desinformação; e como lidar com a informação que é danosa para a mesma não ser amplificada. 

Quanto ao segundo ponto, Claire lembra que os meios de comunicação funcionam como megafones, e que “se divulgarmos informações danosas, acabaremos causando prejuízos maiores”. Questionada se essa atitude é censura, a profissional do First Draft aponta a necessidade de “se criar diretrizes em como divulgar as informações com responsabilidade, entendendo como a informação se move pelos meios”, e provoca os veículos a pensarem: como se certificar de que não estamos sendo manipulados?

Considerando o impacto que o Comprova teve sobre os jornalistas que integraram o projeto, o relatório de avaliação da primeira etapa destaca que “à medida que o projeto avançava, os membros da equipe e das respectivas redações demonstravam um sentido de urgência para publicar desmascaramentos, com medo de que rumores virais pudessem distorcer o debate público”. As redações envolvidas no projeto relataram um aperfeiçoamento da apuração de notícias em redes sociais e de técnicas de verificação. O relatório de avaliação da primeira etapa do Comprova está disponível neste link https://bit.ly/comprovaBR

Em abril deste ano, em entrevista ao Portal IMPRENSA, Beatriz Buarque, fundadora do Words Heal the World, um projeto de combate ao extremismo, comentou essa questão da amplificação pela mídia. “Se quisermos realmente combater o terrorismo, precisamos conscientizar as grandes corporações midiáticas (incluindo as redes sociais) e os jornalistas sobre o impacto de suas ações... Hoje em dia a informação se tornou uma arma e precisamos evitar a todo custo servirmos de instrumentos para terroristas amplificarem suas mensagens”.

Leia também