50 anos de O Pasquim, veículo de contracultura e combate à ditadura militar

Redação Portal IMPRENSA | 26/06/2019 11:22
Neste dia 26 de junho, O Pasquim completa 50 anos de seu lançamento. Nasceu no fim de 1968, após uma reunião entre o cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, que buscavam uma opção para substituir o tabloide humorístico A carapuça, editado pelo jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que havia falecido. O nome, que significa "jornal difamador, folheto injurioso", foi sugestão de Jaguar, que criou também o ratinho Sig (de Sigmund Freud), personagem que interferia em praticamente todas as matérias, artigos, entrevistas e até nos anúncios. O jornal deixou de circular em 1991.
Crédito:Montagem com reprodução de capas de O Pasquim

Fundado no Rio de Janeiro, sua primeira edição foi publicada no dia 26 de junho de 1969, e desde o princípio contou com a colaboração e adesão de humoristas, jornalistas e intelectuais, como Millôr Fernandes, Ziraldo, Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Luís Carlos Maciel, entre outros.

“A revolução do Pasquim se ancorava na linguagem moderna, solta e coloquial, que logo reverberou no jornalismo das revistas mensais e, sobretudo, nos textos de cultura dos segundos cadernos”, comenta nota do caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo. 

O Pasquim ganhou notoriedade após o Ato Inconstitucional (AI-5), definindo-se como um veículo de contracultura e combate à ditadura militar. Em seu auge, chegou a comercializar 200 mil exemplares diariamente, mantendo sua veia humorística e posicionando-se também contra a corrupção e o capitalismo neoliberal. Uma das inovações do jornal eram as entrevistas, transcritas como uma longa conversa, sem copidesque.

“As entrevistas abriam espaços para personalidades contrárias ao regime militar como, por exemplo, d. Hélder Câmara a quem foi dedicada a capa da edição nº 40, de abril de 1970. Outras vezes o jornal trazia revelações como a feita por Ibrahim Sued no número de 26 de junho de 1969, sobre a escolha do futuro presidente, general Emílio Garrastazu Médici”, destaca nota do CPDOC | FGV - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil. 

Ao longo de 24 anos de existência, o veículo ficou reconhecido por seu papel de resistência durante a Ditadura Militar. Em junho de 1970, teve início a censura prévia a O Pasquim, já que a oposição sistemática do jornal, que atingia um grande público, incomodou o regime militar. Em novembro de 1970, grande parte da equipe do jornal foi presa pelo DOI-CODI, e os que não foram presos — Marta Alencar, Millôr Fernandes, Henfil e Miguel Paiva — continuaram editando O Pasquim com a ajuda de jornalistas e artistas que enviavam colaborações para a redação. 

O especial de 45 anos do AI-5 no Portal IMPRENSA lembra a “luta armada das palavras”, com o recrudescimento da censura nas redações dos jornais, rádios e televisões. A máquina da censura serviu para cercear periódicos de grande circulação como Última Hora e Correio da Manhã e os da imprensa alternativa ou nanica, como Opinião, Movimento, Em Tempo, O Pasquim. Também foi útil a muitos outros para calar aqueles que veiculavam opiniões contrárias ao regime. “A grande atuação do AI-5 para a imprensa é o fato de que, a partir dele, a censura se tornou explícita. É um tempo escuro que vai durar dez anos”, diz a historiadora Maria Aparecida de Aquino em entrevista à IMPRENSA.

Em comemoração aos 50 anos do Pasquim, a SESCTV exibirá documentários históricos. "Humor com gosto de Pasquim" e "O Pasquim: A revolução pelo cartum" destacam a trajetória do jornal fundado no Rio de Janeiro, símbolo de resistência e criatividade durante a ditadura militar. A SESCTV está disponível na operadora OI - canal 128 e pode ser assistida pelo site

No primeiro documentário, Angeli, Laerte e Luis Fernando Verissimo entre outros, falam sobre as publicações do Pasquim, momento histórico de renovação na linguagem jornalística brasileira. E no segundo, artistas como o Ziraldo, Millôr, Jaguar, Fortuna e Caruso, falam sobre o combate à censura imposta na época e como jornalistas e artistas de humor gráfico enfrentaram, com humor, a ditadura militar.


Resgate de memórias e resistência pela PUCRS

O Núcleo de Pesquisa em Ciência da Comunicação (Nupecc), vinculado à Escola de Comunicação, Artes e Design – Famecos da PUCRS, fomenta a pesquisa por meio da digitalização e fichamento on-line de jornais alternativos, coloniais de expressão portuguesa, além de suplementos literários. 

Atualmente, o núcleo se dedica ao escaneamento das edições de O Pasquim, tendo concluído a digitalização de outros periódicos, como O Movimento, CooJornal, Revista TV Sul e jornais de colônias portuguesas. A digitalização e atribuição das edições na página do site do Nupecc são feitas no Espaço de Documentação e Memória Cultural da PUCRS, o Delfos, que conta com uma infraestrutura pronta para manusear os acervos.
Crédito:Bruno Todeschini
As estudantes Gabriella Bittencourt (D) e Bárbara Morais escaneiam O Pasquim para o Núcleo de Pesquisa em Ciência da Comunicação


A pesquisa é coordenada pelo professor Antonio Hohlfeldt, que desenvolve há mais de dez anos o projeto com noticiários nacionais e internacionais, que visam a preservação do acervo material da história da imprensa.

“O Pasquim não foi só uma publicação que revolucionou o jornalismo brasileiro, ele revolucionou a cultura brasileira, o modo de ser do brasileiro, a linguagem do brasileiro, o modo de ver do brasileiro, o modo de falar e o modo de escrever do brasileiro. Havia temas que nunca tinham sido abordados pela imprensa nacional”, destaca Hohlfeldt. 

Outro projeto que tem o intuito de preservar a história do jornalismo brasileiro é desenvolvido pelo Centro de Cultura e Memória do Jornalismo (CCMJ), uma iniciativa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. O CCMJ disponibiliza para download edições digitais de O Pasquim e de outros jornais e revistas, que podem ser pesquisados neste site.
Crédito:Reprodução Revista IMPRENSA / Foto Alexandre Arruda
Nani mostra alguns de seus desenhos para o Pasquim, censurados pelos militares


Em 2009, a Revista IMPRENSA divulgou uma matéria especial em comemoração aos 40 anos de O Pasquim, que traz entrevistas com seus fundadores e relembra episódios marcantes da história do jornal. Você pode ler “A Patota e o Quarentão” no Acervo IMPRENSA ou adquirir o exemplar em nossa loja online.  

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