Livro discute soluções para a crise do jornalismo brasileiro

Redação Portal IMPRENSA | 30/05/2019 18:31
Terceiro volume da Coleção Interrogações, dirigida por Lucia Santaella, “A crise do jornalismo tem solução?” (Ed. Estação das Letras e Cores), de Rogério Christofoletti,  é um livro preocupado com a profissão e o mercado, mas voltado também ao público em geral. Para o autor, a crise do jornalismo vai além da falência de um modelo de negócios, e contém problemas como perda de credibilidade, afrouxamento ético, e debilidade na governança das organizações de notícia. “Todos são afetados por notícias, e por isso o enfrentamento da crise deve preocupar e envolver todo o mundo”, afirma Christofoletti.
Crédito:Arquivo pessoal Rogério Christofoletti
Em cinco capítulos e em pouco mais de 100 páginas, “A crise do jornalismo tem solução?” discute o financiamento da indústria, analisa remédios paliativos e soluções viáveis para o setor. Também discute confiabilidade, relevância e o papel do jornalismo nas democracias contemporâneas. “É um erro acreditar que as redes sociais nos informam hoje. Elas não produzem informação de qualidade, não apuram versões, não investigam. Os grupos de WhatsApp mais nos confundem que o contrário, e não podemos viver num tempo tão caótico como o nosso sem informação confiável”, pondera o autor.

Segundo Rogério Christofoletti, a crise do jornalismo é um fenômeno complexo e dinâmico, de difícil enfrentamento e sem solução única ou rápida. Por isso, neste livro, o autor tenta enxergar a crise em vários planos, lançando perguntas ique desafiam as certezas sobre o tema e propondo autocríticas nas redações. Apoiado em dados econômicos e cenários atuais, o livro apresenta exemplos de ruína e riqueza na dinâmica dessa crise. 

Christofoletti leciona e pesquisa jornalismo há vinte anos e há dez é professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Lá, também orienta teses e dissertações, e é um dos coordenadores do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS). “A crise do jornalismo tem solução?” foi escrito durante o seu período de pós-doutorado na Universidad de Sevilla, na Espanha. 

O Portal IMPRENSA conversou com o autor sobre o cenário da crise do Jornalismo e as possíveis soluções que ele aponta no livro.

A dificuldade de encontrar um novo modelo de negócio para o jornalismo on-line não decorre do fato de, por muitos anos, não ter cobrança pelo e agora, o usuário tem resistência a pagar para ler conteúdo, mesmo que ele encontre qualidade?   Há alguma saída para isso?

Parte da dificuldade vem, sim, dessa terrível economia da gratuidade. Chamo de "terrível" porque ela é ilusória, mentirosa e perversa. Ilude as pessoas, pois tudo que é produto do trabalho tem custos. E se tem custos, tem preço. Dizer que é grátis é mentira. A perversidade é que ela não afeta os grandes, mas sim os pequenos e médios. Os grandes players que vêm moldando a internet há duas décadas alimentaram essa ilusão e mal acostumaram as pessoas. Hoje, está mais claro que se um produto aparenta não ter preço é porque você é o produto. Hoje, está mais claro que as big techs se alimentam dos muitíssimos dados que produzimos (espontânea e inadvertidamente), e elas rentabilizam esses dados de forma extraordinária. Muitas vezes, sem o nosso consentimento pleno ou o nosso conhecimento. Como isso afeta o jornalismo? Da mesma maneira que afeta os mercados editoriais e fonográficos, e de outros bens de consumo. O usuário médio espera ter o produto sem pagar por ele, mas isso é insustentável. As empresas do setor simplesmente quebram!

A saída, a meu ver, é convencer o público de que a gratuidade é uma ilusão e que ele tem mais a ganhar se mantivermos viva uma indústria jornalística. O usuário não aceita pagar mensalidade de Spotify e de Netflix? O que faz com que uma pessoa pague religiosamente por esses serviços? Qualidade e relevância são dois fatores importantes. Há outros também. A indústria jornalística precisa observar e adaptar parte da receita de sucesso desses produtos/serviços.

A crise não estaria na forma como as notícias são transmitidas? Os meios impressos não estão com a mentalidade de noticiar o factual e menos o interpretativo, sendo que o factual pode ser encontrado nas redes digitais ou nos veículos eletrônicos?

A crise é complexa e tem muitas dimensões. A mais visível é a econômica porque é fácil observar jornais fechando, demissões e enxugamento das redações. É mais fácil ver também que as verbas publicitárias se pulverizaram e parte preciosa está migrando para outros setores. Mas há outras crises nos afetando: de credibilidade, ética, e de governança. O jornalismo - como muitas instituições - sofre com a queda de seu prestígio e primazia. A baixa na confiança se deve a fatores externos ao jornalismo e a fatores pelos quais somos muito responsáveis, pois não estamos satisfazendo as expectativas do público, nem estamos ocupando um importante papel de grande mediador social. A crise ética é resultado também de uma quebra de contrato de leitura entre jornalismo e públicos. A crise de governança nos chama a atenção para o fato de que precisamos mudar a forma como tomamos algumas decisões no processo de provimento de informação à sociedade. Podemos ser mais horizontalizados, transparentes e abertos à participação.

Uma solução pensada por alguns veículos foi aumentar a quantidade de opinião. Mas esse recurso não foi usado em excesso? 
Em alguns casos, sim. Em outros, ajudou a qualificar o debate público. O mais importante nisso tudo é que estamos preocupados em calibrar nossos instrumentos de forma a nos aproximar mais do público. Estamos dispostos a correr atrás do público, e estamos testando caminhos. A distância é mortal para nós. Precisamos encurtá-la e refazer pactos com os públicos. É uma obviedade, mas nunca é demais repetir: não existe jornalismo sem público.

A crise não está no suporte, mas no processo de seleção e construção das notícias? Ou seja, independentemente se o suporte é papel ou digital, o problema é como o jornalismo entende o processo de consumo e compartilhamento de informações? 

É preciso entender o consumo e a recirculação das informações, mas também é necessário investirmos em qualidade editorial, no nosso senso comunitário e na função pública que o jornalismo tradicionalmente tentou perseguir. Isto é, na minha visão, parte da crise do jornalismo está no divórcio entre os provedores de informação - nós - e a quem as informações se dirigem - os públicos. Precisamos dialogar mais, ouvir mais, fortalecer e assumir causas locais, tomar partido em várias situações, e mostrar que o jornalismo é um sistema especializado, experiente e vocacionado para ajudar a manter o tecido conjuntivo da sociedade. O jornalismo não salva o mundo, mas pode permitir que as pessoas sintam-se pertencedoras de uma realidade que, juntas, podem enfrentar se estiverem bem informadas e conectadas.

O que se entende por afrouxamento ético?  A perda de credibilidade decorre desse processo?

Afrouxamento ético é o abandono gradativo de valores que são alicerces do jornalismo. É também quando nos seduzimos por valores que contrariam o jornalismo, como o mercantilismo, as razões do marketing, a defesa de interesses particulares em detrimento dos interesses coletivos. O afrouxamento ético ajuda a corroer o caráter no jornalismo, e atinge em cheio a sua credibilidade. Se os públicos deixam de ver no jornalismo uma vitrine comprometida com a verdade dos fatos, uma vitrine crítica aos poderes, uma vitrine que advoga pelas suas causas, muito possivelmente, os públicos buscarão outros canais para preencher essas demandas. As redes sociais têm sido o destino de muitos públicos diante de tais desilusões. Mas as redes sociais, a rigor, não informam como o jornalismo se propõe a informar. Elas são episódicas e o jornalismo é contínuo. As redes podem ajudar a redistribuir as informações, mas também têm gerado e alimentado situações de grande desinformação. Grupos de WhatsApp também. O jornalismo é um provedor historicamente consagrado pelas sociedades a provê-las de informação. Quando não atende às suas expectativas ou quando se desvia de suas funções, é “punido” com o desinteresse e o abandono. Precisamos reocupar certos lugares no imaginário coletivo, e precisamos convencer as pessoas que somos ainda muito dignos de oferecer esse serviço, que somos úteis e relevantes. Penso que ainda não temos nada parecido para colocar no lugar do jornalismo. Ainda não estamos dispostos a abrir mão dele. Isso é uma primeira boa notícia para todos.

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