"Escritos com a pele": Moisés Rabinovici reúne suas melhores reportagens em livro

Marta Teixeira | 10/05/2019 17:19

As melhores reportagens de Moisés Rabinovici estão agora em livro. Um dos mais conhecidos correspondentes internacionais do Brasil, Rabino, como é conhecido nas redações, lança até junho "Escritos com a pele", pela 11 Editora, produção que marca sua estreia na literatura.

Crédito: Paulo Pampolim/Divulgação
Primeiro livro de Moisés Rabinovici reúne algumas das melhores reportagens de sua carreira

A história do título já inicia a viagem pela trajetória profissional do autor. "A base do livro é a lição mais importante que aprendi: escrever com a pele", explica ao Portal IMPRENSA. "Eu era um repórter que zelava pela forma do texto. Às vezes passava a noite toda para escrever o primeiro parágrafo de uma reportagem. Um dia, em Beirute, fiquei com um telex por meia hora, e tinha que enviar 60 linhas ao jornal. No telex, posta a primeira palavra, não tem volta. É seguir adiante, sem tecla de deletar. Adeus, preciosismo. Pelo tempo em que cobri a guerra do Líbano, de 1982-84, o desafio do telex foi diário. Os americanos diziam: é escrever com a pele."


Durante anos, o ensinamento foi compartilhado por Rabino em suas aulas e palestras. Agora, reunindo parte de sua produção jornalística em livro, ele amplifica a disseminação dessa lição e mostra alguns exemplos de seu resultado. 


Mas antes mesmo de "Escritos com a pele" chegar às livrarias, Rabino já tem planos para a próxima publicação. "Tenho um livro trabalhoso pensado. Só não tenho tempo para me dedicar a ele", diz, sem revelar o tema da obra.


Carreira longeva

A primeira experiência profissional de Rabinovici em redação foi na edição mineira do jornal Última Hora, aos 17 anos, em 1962. Quatro anos depois, integrava a primeira equipe do paulista Jornal da Tarde. Foram 40 anos no Grupo Estado, passando por diversas funções. 


Como correspondente internacional, morou oito anos em Israel, seis nos Estados Unidos e cobriu guerras em Ruanda, Equador, Peru, El Salvador e Panamá além de outros fatos marcantes como o assassinato de Yitzhak Rabin, em Tel-Aviv, a eleição de Nelson Mandela, na África do Sul, e o início da epidemia de AIDS em São Francisco, Entebe e Nairóbi. 


Rabino trabalhou pela rádio Renascença, de Portugal, nos anos 1980, e no Diário do Comércio, no início dos anos 2000. Passou pela revista Época, como correspondente em Paris, retornou ao Brasil para chefiar o portal do Estadão e atualmente é comentarista e âncora na TV Brasil.


"No tempo em que não havia internet, cobrir a então União Soviética sem intérprete era difícil. Poucos falavam inglês. Ruanda, pior ainda. Desafios são sempre o de chegar a um país em guerra, comunicar-se com a população e estabelecer contato com o jornal para transmissão de textos. Hoje o repórter tem opção do WhatsApp, e-mail ou redes sociais", ressalta. 


Rabino lamenta o processo generalizado de encolhimento das redações nacionais que não poupou as editorias de internacional. "No mundo globalizado, o que acontece de importante em qualquer lugar reflete em toda parte. É importante acompanhar. Daí nasceu até um neologismo: Glocal. O global é local. No The New York Times, The Washington Post, The Wall Street Journal, no El Pais, no Le Monde e alguns outros jornais internacionais, o correspondente não foi eliminado. Às vezes, um jornal lá fora publica um acontecimento no Brasil melhor que os jornais brasileiros", compara.  


Apesar disso, o desejo de muitos estudantes de jornalismo se tornarem correspondentes fora do país ainda é forte. Para esses, Rabino dá algumas dicas sobre o que é fundamental. "Falar e escrever inglês muito bem, mas sem desprezar o português, ferramenta diária. Dominar pesquisas em Big Data e criar filtros para o Google e Twitter não o soterrarem com montanhas de informações. Ser ágil", resume.


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