“É fundamental fortalecer a proteção dos jornalistas, a ética e uma maior solidariedade entre os agentes da sociedade civil”, defende o diretor da RSF

Deivlin Vale, em colaboração | 06/05/2019 09:18

Crédito:Acácio Pinheiro / IMPRENSA
Painel contou com as presenças de Manuel Martinez (Agência Xinhua e Rádio El Espectador), Emmanuel Colombié (Repórteres sem Fronteiras), Cristiana Lôbo (GloboNews), Juvenal Araújo (SEJUS-DF) e Thiago Tavares (SaferNet Brasil)




O segundo painel sobre “A segurança dos jornalistas: o equilíbrio entre liberdade, segurança e responsabilidade” foi antecedido por uma palestra do coordenador de Comunicação e Informação da UNESCO no Brasil, Adauto Candido Soares. Segundo o estudo realizado pela organização, chama atenção a inversão da tendência na morte dos jornalistas. No biênio entre 2014 e 2015, mais de 50% das mortes eram registradas, sobretudo, em locais onde havia conflitos armados. Contudo, a partir do último relatório, realizado entre 2016 e 2017, a UNESCO observou que mais da metade das mortes ocorreram em países onde não havia conflitos armados. Para UNESCO, as mortes fora do cenário de disputa de poder entre governos é extremamente preocupante e prejudicial para a liberdade de expressão. Quando analisado o perfil dos jornalistas no último biênio, observa-se a violência sobretudo contra jornalistas locais, radialistas e um pequeno aumento contra as mulheres jornalistas. Segundo dados apresentados por Adauto, o Brasil está entre os 10 países que mais mata jornalistas no exercício da profissão. No período entre 2014 e 2017, foram dezoito jornalistas mortos no país (veja apresentação da UNESCO).

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Adauto Candido Soares, da UNESCO no Brasil


Na percepção de Emmanuel Colombié, diretor da América Latina na ONG “Repórteres sem Fronteiras”, a guerra ideológica no Brasil está cada vez mais visível, e por conta disso, a agressão física e verbal a jornalistas está aumentando. Segundo ele, ao invés das autoridades adotarem um discurso público que contribua com a repressão da violência contra jornalistas, “vemos repetidamente posicionamentos que tendem a expor, a vulnerabilizar e a descredibilizar a atuação dos comunicadores de modo geral”. Na visão de Emmanuel, o presidente Jair Bolsonaro manteve o tom crítico adotado na campanha contra parte da imprensa “tratando como inimigo quem faz reportagens e análises que expõem negativamente o governo”. Ainda na visão do diretor da Repórteres Sem Fronteiras na América Latina, “a postura do presidente tende a aprofundar o clima tóxico e hostil em relação ao trabalho dos jornalistas no país”. Emmanuel vê que o risco de censura é real, não apenas no Brasil, mas em outras democracias no mundo. Para evitar que esses ataques venham a ocorrer, ele orienta que os comunicadores, profissionais ou não, procurem dicas, guias e protocolos disponíveis nos sites das entidades que preservam a liberdade de imprensa, como a Repórteres Sem Fronteiras e a Unesco, além da preservação dos dados digitais.

 

Thiago Tavares, presidente da SaferNet Brasil e conselheiro do CGI.br, também deu dicas de como evitar problemas relacionados a ataques pessoais dos comunicadores nas redes sociais, e diminuir as chances de um possível vazamento de dados. O presidente da SaferNet Brasil disse que é importante manter os dados pessoais longe das redes sociais, pois, segundo um estudo realizado por uma organização europeia, 63% dos jornalistas já sofreram violência psicológica por conta desse tipo de crime, classificado como um “método de cerceamento”.

 

A jornalista Cristiana Lôbo, comentarista da GloboNews e moderadora de debate, também destacou as novas tecnologias que foram incorporadas, como robôs para atacar jornalistas, na tentativa de cerceamento da liberdade de imprensa.

 

Para uma maior segurança dos jornalistas, Thiago pede para que o WhatsApp, Telegram ou qualquer aplicativo de mensagens instantâneas tenha autenticação em dois fatores, a fim de que, caso haja a clonagem do chip do celular - prática mais comum nos casos de vazamento de dados -, o portador do celular original seja notificado instantaneamente. A maioria dos emails também oferecem o serviço de autenticação em dois fatores, e assim como no caso do WhatsApp, é de suma importância para a preservação dos dados. Para a preservação física dos aparelhos, ele também recomenda que o disco rígido do computador ou notebook seja criptografado, pois caso haja um roubo físico de dados, a pessoa não irá conseguir acessar os documentos. Thiago Tavares diz que esses pequenos detalhes podem trazer mais conforto e segurança para o comunicador exercer sua profissão.

 


O subsecretário de Direitos Humanos da Secretaria do Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (SEJUS-DF), Juvenal Araújo, iniciou o seu discurso comentando os números da ABERT, os quais mostram os desafios para haver a verdadeira liberdade de imprensa no Brasil, e que colocam em cheque a segurança dos jornalistas: “os números comparados entre 2017 e 2018 mostram que houve um aumento de 11,4% no número de agressões cometidas a jornalistas, além do volume de intimidações que subiu em 200%”. Um dos problemas em relação a esses números, segundo Juvenal, é que até 2018, no programa de proteção de defensores humanos do Distrito Federal, não havia comunicadores inclusos.

 

Manuel Martinez, correspondente pela agência Xinhua, da China, e rádio El Espectador, do Uruguai, trouxe uma reflexão que vale como uma autocrítica sobre a responsabilidade que o jornalista tem com a sociedade. Manuel disse que nada justifica as agressões aos jornalistas, mas que isso pode ser um reflexo do distanciamento entre a imprensa e a sociedade, e explicou de forma metafórica esse problema. “Isso [o distanciamento entre sociedade e imprensa] permite que vozes ressonantes, sejam de potências mundiais, ou as que ficam aqui, pertinho da gente, no final do eixo monumental, consigam encontrar eco e fomente essa perseguição macabra e medonha”.


Promovido pela Revista e Portal IMPRENSA, esta edição do fórum conta com o patrocínio da ABERT, apoio da OAB-DF, e apoio logístico do Insper. Além do apoio institucional da ABI, Abracom, Abraji, ANER, ANJ, Associação dos Correspondentes Estrangeiros, Instituto Palavra Aberta, OBCOM/USP, e Repórteres sem Fronteiras, e apoio de mídia da Agência Radioweb e do JOTA. Confira no site do evento a galeria de fotos, notas de cobertura e materiais relacionados. 


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