"O jornal seguirá sua missão de vigilância dos poderes constituídos", diz Sérgio Dávila

Marta Teixeira | 21/03/2019 16:59

Recém-nomeado diretor de redação da Folha de S. Paulo, o jornalista Sérgio Dávila assume o cargo em um momento significativo. Desde o último período eleitoral brasileiro, os ataques à imprensa tornaram-se mais intensos e agressivos. 

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À frente de um dos mais importantes jornais do país, o executivo encara o momento com tranquilidade e destaca o fato de a situação geral não ser uma novidade para o jornal, no qual trabalha há 25 anos. 


"Por fazer desde sempre um jornalismo crítico, a Folha está acostumada a ser atacada por governos dos mais variados matizes ideológicos. Lembremos que o então presidente Fernando Collor de Melo mandou a Polícia Federal invadir o jornal, isso já em 1990. O atual presidente processa dois acionistas e uma repórter do jornal. Mas o jornal seguirá altivo em sua missão de vigilância dos poderes constituídos", disse Dávila ao Portal IMPRENSA.


A invasão na década de 90 foi a pretexto de suposta irregularidade cometida pela empresa na troca de faturas emitidas em cruzados novos por faturas emitidas em cruzeiros. Porém, a operação financeira era autorizada pelas normas de aplicação do plano econômico. 


A fúria do presidente Jair Bolsonaro teve início ainda na época da campanha eleitoral. Entre os motivos, estão reportagens investigativas feitas por profissionais da Folha revelando as existências de uma funcionária fantasma no gabinete do então candidato à presidência da República e, posteriormente, de um esquema ilegal, bancado por empresários, para divulgar notícias prejudiciais ao PT durante as eleições. Em sua primeira entrevista após ser eleito, Bolsonaro criticou o jornal e ameaçou proibir que recebesse verbas publicitárias do governo em sua gestão. 


A troca do diretor de redação não foi a única no jornal. No mesmo dia em que nomeou Dávila como substituto de Maria Cristina Frias, a Folha também anunciou mudanças na composição de seu conselho editorial. 


De acordo com o executivo, a sugestão de renovação havia sido feita por ele mesmo, ainda durante a gestão de Otavio Frias Filho como diretor de redação. O conselho editorial não se reunia desde 2007 e desde 2013, quando o jornalista Gilberto Dimenstein deixou o colegiado, o grupo não sofria alterações. 


"Em 2017, apresentei a Otavio Frias Filho uma proposta para renovar e atualizar o funcionamento do conselho editorial. Em setembro de 2018, reapresentei a proposta a Maria Cristina Frias, então diretora de redação. No último fim de semana, ela decidiu mudar o conselho, para a formação atual", explicou. Antecessora de Dávila na função, Maria Cristina havia substituído Otavio Frias em agosto do ano passado, depois que seu irmão morreu de câncer. 


Dávila disse ainda que a iniciativa segue as melhores práticas do mercado mundial e o objetivo é continuar inovando sem perder a essência do Projeto Folha. 


"As redações do New York Times e do Washington Post, por exemplo, são comandadas por jornalistas profissionais contratados no mercado. O mesmo ocorre no Brasil, em jornais como O Globo e O Estado de S. Paulo. O plano é seguir uma ideia muito querida de Otavio Frias Filho, criador do Projeto Folha, segundo a qual o jornal tinha de 'fugir para a frente', ou seja, inovar sempre, sem abrir mão dos princípios que fizeram da Folha a Folha", finalizou. 


O mandato dos membros do conselho editorial não tem prazo fechado. A função do colegiado é avaliar o desempenho da publicação, discutir sua linha editorial e examinar projetos que lhe sejam apresentados. Com as mudanças anunciadas nesta semana, integram o grupo de conselheiros: Rogério Cezar de Cerqueira Leite, Marcelo Coelho, Clóvis Rossi, Ana Estela de Sousa Pinto, Cláudia Collucci, Cleusa Turra, Hélio Schwartsman, Heloísa Helvécia, Mônica Bergamo, Patrícia Campos Mello, Suzana Singer, Vinicius Mota, Antonio Manuel Teixeira Mendes, Luiz Frias e Sérgio Dávila (secretário).

 


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