Seminário da BBC: credibilidade e formação crítica de leitores no combate às fake news

Marta Teixeira | 13/03/2019 11:32

Ensinar a pensar criticamente é a melhor maneira de combater a doutrinação e as notícias falsas. O destaque foi feito por Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas, durante sua participação no seminário "Beyond Fake News - Em Busca de Soluções" realizado pela BBC News Brasil, nesta terça-feira (12), em São Paulo. Dividido em painéis temáticos, o encontro colocou em discussão questões relativas à desinformação e propagação de notícias falsas ou corrompidas (fake news). 



Crédito: Marta Teixeira

Jornalistas e pesquisadores durante um dos painéis do seminário sobre desinformação

Diretor do BBC World Service Group, Jamie Angus, abriu o evento destacando a importância da imprensa livre nessa missão. "Precisamos reafirmar e valorizar a liberdade de imprensa. Uma imprensa vibrante e livre que apoia a liberdade de expressão é a melhor arma contra as fake news", afirmou. 


O jornalista Octavio Guedes, da GloboNews, apontou a credibilidade como ponto chave para a sustentação do jornalismo. "Credibilidade é a essência, esse é o modelo de negócios. Jornalismo vive de relevância e credibilidade", ressaltou. 


Responsável pelas estratégias digitais da Folha de S. Paulo, Camila Marques chamou atenção para a reflexão sobre os motivos que levaram o público mais jovem a perder interesse no jornalismo. "Não adianta fazer o melhor jornalismo se ele não chega a esse público", lembrou. 


A respeito da conexão com o público, o jornalista Rene Silva, do Voz das Comunidades, falou sobre a importância de quem produz conteúdo jornalístico ter empatia e tentar compreender a realidade do outro. Eleito um dos 100 jovens negros mais influentes do mundo pela revista Forbes em 2018, Rene tornou-se fonte da grande imprensa no trabalho de cobertura da operação de pacificação do Complexo do Alemão, em 2010. "O Voz das Comunidades surgiu em 2005. Começou justamente pela necessidade de mostrar o que a grande mídia não está mostrando", explicou.


"Não é somente informar, mas se aproximar daquilo sobre o que estou falando", acrescentou Lília Melo. Professora da rede pública da Terra Firme, periferia de Belém (PR), ela ganhou o prêmio de melhor professora do Brasil no ano passado pelo projeto "Terra Firme: Juventude periférica - Do extermínio ao Protagonismo!", incentivando estudantes a produzir conteúdos audiovisuais a partir de suas realidades. 


Para Lília, a ponte entre a mídia tradicional e a comunitária é a chave para contrabalançar a pouca importância ou o sensacionalismo que muitas vezes marca a cobertura da periferia pela grande imprensa. "O caminho está começando a ser percorrido com a ação colaborativa entre os dois. A mídia precisa reconhecer a mídia comunitária e essa, até por não ter estrutura, precisa aprender algumas linguagens para ter um alcance real. Construímos uma estrutura dentro dessa falta de estrutura para termos um canal, uma linguagem. Agora chegou o momento que precisamos andar juntos senão chegará o momento que essa informação (da grande mídia) não interessará mais porque não reflete minha realidade", complementou.


Educação midiática

Durante os debates, os participantes destacaram a importância do processo de educação midiática tanto no combate à desinformação como para fortalecer os processos democráticos e o próprio jornalismo. Nessa linha, a BBC News Brasil lançou seu projeto de alfabetização midiática e leitura crítica de notícias. 


"O objetivo é instrumentalizar a barreira do ceticismo. Combater essa ideia de que você deve duvidar de tudo, mas como não sabe ultrapassar essa desconfiança, se afasta das instituições e acaba se concentrando na sua bolha. Queremos instrumentalizar (o público) de forma saudável para a leitura crítica não apenas do vídeo do tio no WhatsApp, mas também do nosso trabalho na imprensa", destacou a diretora de redação da BBC News Brasil, Silvia Salek, ao apresentar a iniciativa. 


O público-alvo do projeto são adolescentes de 14 a 19 anos. A iniciativa é composta por dois módulos, cada um com 10 minutos de vídeo-aula. O primeiro é sobre o processo de produção jornalística e o segundo aborda a desinformação, seu impacto social e como identificá-la. 


"Não queremos que os alunos façam apenas um jornal, mas que tenham habilidade para fazer uma leitura crítica da notícia", ressaltou a jornalista Paula Adamo Idoeta, coordenadora da iniciativa no Brasil. O projeto será apresentado às escolas e está disponível no site e no canal da BBC News Brasil no Youtube. 
  
Responsável pela maior audiência digital entre os 43 idiomas abrangidos pelo serviço mundial da BBC, o Brasil (27 milhões de usuários únicos em 2018) é o quarto país a sediar o seminário, que já foi realizado na Índia, no Quênia e na Nigéria. 





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