Precariedade, paixão e inovação marcam perfil de novas organizações jornalísticas em São Paulo

Marta Teixeira | 15/02/2019 17:21

Com as mudanças no mercado, um novo tipo de organização de mídia se popularizou no Brasil. Denominadas "arranjos econômicos de trabalho jornalístico" pelo Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT) da Escola de Comunicações e Artes (ECA), essas relações surgidas fora do sistema da imprensa tradicional foram objeto de estudo da unidade que pertence à USP. 

Crédito: Pixabay

Os resultados da pesquisa intitulada "As relações de Comunicação e as condições de produção no trabalho de jornalistas em arranjos econômicos alternativos às corporações de mídia" estão em livro  lançado nesta sexta-feira (15), em São Paulo.


O estudo partiu do Mapa da Mídia Independente, produzido pela Agência Pública em 2016. A partir de critérios jornalísticos e marcadores de autodeclaração foram mapeados 170 "arranjos jornalísticos" no Brasil, 70 deles apenas em São Paulo. Desse segundo núcleo, foi feito um recorte de 29 "arranjos" mais fortemente identificados com os critérios estabelecidos, 26 concordaram em ser entrevistados pelos pesquisadores e 15 participaram dos grupos de discussão.  


A partir dessa etapa qualitativa, a pesquisa constatou que esses "arranjos" têm em comum uma situação de precarização das relações de trabalho, o forte comprometimento dos membros de suas equipes com a atividade que desenvolvem e o fato de representarem a linha de frente do processo de transformação do jornalismo. 


A pesquisa constatou a forte presença de jovens até 35 anos nessas iniciativas. Quase todos (95%) têm diploma de jornalismo e as mulheres são maioria na direção desses "arranjos". Muitas dessas estruturas se mantêm graças a financiamentos coletivos, apoio de leitores, editais, fundações ou  ONGs. Essa situação de subfinanciamento acarreta uma instabilidade quanto ao futuro por não terem certeza sob até quando poderão se manter. Há exceções, exemplos são a Agência Pública e o Nexo Jornal. 


Porém, na maioria dos "arranjos", os jornalistas têm outra atividade paralela para se sustentar financeiramente. O resultado são jornadas de trabalho longas, situação que se agrava entre as mulheres por geralmente acumularem responsabilidades domésticas que nem sempre fazem parte da rotina masculina.   
 
Mesmo assim, um traço marcante desses profissionais é o comprometimento com a atividade jornalística. "Identificamos a grande paixão pelo jornalismo. Por que trabalhar tanto se o "arranjo" não dá dinheiro? Para eles, o trabalho é uma realização pessoal, muitos falam do compromisso com a coisa pública, com a democracia, sobre a importância da informação para a democracia. Existe uma potência muito positiva aí e a gente não dá apoio para isso", ressalta a professora Roseli Figaro, coordenadora do CPCT e da pesquisa. 


Por outro lado, os recursos limitados para o exercício profissional produziram um desdobramento positivo em relação à adaptação aos novos tempos. "Esses grupos produzem tudo a partir do smartphone. Inventam novas formas de fazer jornalismo dentro das novas tecnologias e estão na ponta da reinvenção do jornalismo. Conseguiram fazer o que a grande imprensa teve dificuldade", explica Roseli.  


Além dessa contribuição para mudanças na produção jornalística, os "arranjos" também estão provocando transformações nos conceitos de redação, pauta e utilização de linguagens no produto jornalístico. Em contrapartida, outros aspectos ainda estão indefinidos. "Uma coisa que não conseguimos fazer foi tirar uma medida de periodicidade. O conceito de periodicidade mudou. Dependendo do que o "arranjo" está cobrindo, pode-se fazer dez matérias em uma semana e nenhuma em outra", diz a coordenadora.


Quanto ao futuro dessas iniciativas para produção de jornalismo independente, Roseli Figaro destaca a importância da criação de políticas públicas capazes de diminuir a situação de precariedade no setor. "Para fazer jornalismo, não precisamos de grande empresa, porque os meios de produção são leves e mais baratos, mas é preciso dar sustentação à força de trabalho. Esses jornalistas produzem algo significativo para a democracia e para a defesa dos direitos à liberdade de informação e expressão."


Desdobramentos


O lançamento do livro é a segunda fase do projeto, a primeira foi a planilha. A próxima etapa será um estudo sobre o tipo de jornalismo produzido por esses "arranjos". O material para análise foi coletado no ano passado e corresponde a uma semana de noticiário do período pré-eleitoral e uma do segundo turno das eleições.  


A pesquisa terá ainda um desdobramento nacional e outro latino-americano. Já estão sendo montados grupos de pesquisa em universidades de todo o país. "Em um ano, esperamos ter o planilhamento e uma visão geral do que está acontecendo no país", finaliza a coordenadora.


Acesse o e-book com a pesquisa.


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