Dez argumentos para entender o ataque de Renan à jornalista Dora Kramer

Marta Teixeira | 21/02/2019 13:52

Um grupo de jornalistas criou um abaixo-assinado online para pressionar o Senado e a Justiça a cassarem o mandato do senador Renan Calheiros (MDB). Até o momento da publicação dessa nota, o documento contabilizava 277 adesões. A solicitação é uma reação ao ataque feito pelo parlamentar à jornalista Dora Kramer através do Twitter. 



Crédito: Reprodução


"Considerando a ofensa, a injúria, a violência psicológica contra a jornalista, o desprezo pela dignidade da pessoa humana cometido nessa infame manifestação e o acintoso desrespeito à Carta Magna de nosso País, exigimos do Senado e da Justiça brasileira providências urgentes para a cassação do mandato do senador Renan Calheiros, brasileiro indigno de ocupar o cargo que a população lhe outorgou e que ele, com sua atitude, desonrou", diz o texto do abaixo-assinado. 


No início de fevereiro, Dora publicou um texto na revista Veja dizendo que o parlamentar havia sido "vítima da própria arrogância" ao não conseguir ser eleito para a presidência do Senado. Incomodado, o senador usou sua página no microblog para acusá-la de assédio e fazer insinuações sobre sua vida sexual. Pouco depois, ele retirou a postagem do ar. 


O Portal IMPRENSA contatou a assessoria do Senado e foi informado que um abaixo-assinado desse tipo não dá origem a um pedido de cassação. A assessoria esclarece que isso se dá por "expediente específico, de iniciativa de um dos indicados no rol do art. 13 da Resolução nº 20 de 1993, que institui o Código de Ética e Decoro Parlamentar: Art. 13. A perda do mandato será decidida pelo Plenário, em escrutínio secreto e por maioria absoluta de votos, mediante iniciativa da Mesa, do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar ou de partido político representado no Congresso Nacional, na forma prevista nos arts. 14 e 15 (Constituição Federal, art. 55, § 2º). Dentre os órgãos legitimados, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar recebe denúncias de qualquer cidadão".

IMPRENSA também conversou sobre o assunto com Roberto Romano, professor titular aposentado de Ética e Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-UNICAMP). Citando a proximidade do parlamentar a governos de diversas inclinações políticas ao longo de sua trajetória, o acadêmico considera pequeno o risco de cassação. 


"Um político como Renan, capaz de manobras ousadas e tratos obscuros, pode ajudar muito na recuperação de projetos assumidos pelo governo. Digamos assim: Calheiros é um "factotum político" que pode ser indispensável. Daí, nenhuma Comissão de Ética o sancionará de modo radical, com uma recomendação de perda de mandato. Ele perdeu capacidade de comando do Senado, mas é um ser político poderoso, um sobrevivente. Renan pode ser útil, sobretudo a um esquema de poder institucionalmente frágil como o atual", justificou Romano.   


Especificamente sobre o episódio envolvendo a jornalista, o acadêmico destacou dez pontos a serem considerados na atitude do senador: "O erro de Renan Calheiros, no caso de Dora Kramer, tem múltiplas faces:  

1.    A falta de escrúpulos ao trazer ao plano público algo que só poderia ser tratado, com muita delicadeza, no campo privado. 


2.    A explícita chantagem desvelada no próprio procedimento, o que dá uma ideia das técnicas infames usadas por ele nos "tratos políticos"  que lhe garantiram até hoje a sobrevivência.
 
3.    Ele atacou uma pessoa do sexo feminino, no momento em que o Brasil passa por uma crise inédita (e o Brasil sempre foi violento em tal setor) de assassinatos de mulheres.
 
4.    Ele desceu à sarjeta ao tentar a implicação, em seus tratos sociais, de uma jornalista cuja ética é reconhecida nacionalmente, e respeitada tanto no plano de sua profissão, quanto na sua vida particular.
 
5.     Ele deixou claro que não tem apreço nenhum pela imprensa, desde que ela não o ajude a sobreviver politicamente.
 
6.    Rompeu claramente com todo e qualquer código de ética, social ou parlamentar, de modo insofismável.
 
7.    Pela primeira vez em sua longa estadia no Congresso, mostrou desespero, o que é letal para todo político competente. Ninguém, a não ser em caso de extrema necessidade como é o caso do governo Bolsonaro, apoia ou confia em um político desesperado. O próprio de uma liderança é sempre gerar confiança em suas forças e não fragilidades que podem conduzir seus possíveis apoiadores, em sua companhia, aos esgotos éticos.
 
8.    Ele piorou o nexo entre mundo político e imprensa. A volatilidade do poder é algo reconhecido desde os tempos mais recuados. A imprensa, embora volátil na busca de notícias, se for de fato profissional, sempre está à busca de fatos. E, no caso de Renan, eles são supinamente desabonadores.
 
9.    O ataque à Dora Kramer mostrou que o arsenal de armas intelectuais de Renan é diminuto. Que beberrões na mesa de bar, com toda sua vulgaridade, tentem atacar a honra alheia, é algo inevitável. Mas um senador da República, que veio da esquerda (exigente pelo menos no plano das aparências ao acatamento dos direitos humanos) que exibe falta de rubor ao usar um meio baixo como a calúnia e a chantagem, é insuportável.
 
10.  Se com os ataques à Dora Kramer ele não assinou ainda o seu atestado de morte política definitiva, ele afastou de sua pessoa todos os jornalistas que se respeitam e tem carinho para com sua profissão. Em matéria de vida pública, tal perda é consideravelmente prejudicial a um político que sempre deseja sobreviver", finalizou o acadêmico.


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