"Nunca foi tão necessário fazer jornalismo independente. Nunca também foram tão sofisticados os modelos para tentar dificultar ou impedir o trabalho da imprensa", diz presidente da ANJ

Marta Teixeira | 11/02/2019 16:22

"Nunca antes foi tão necessário se fazer jornalismo independente. Mas nunca também foram tão sofisticados os modelos de tentativa de controle e intimidação para dificultar ou impedir o trabalho da imprensa". A frase de Marcelo Rech, vice-presidente editorial do Grupo RBS, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e vice-presidente do Fórum Mundial de Editores (da sigla em inglês WEF), resume a situação atual da imprensa no Brasil e no mundo. 


Último entrevistado da série realizada pelo Portal IMPRENSA sobre os temas que deverão ser destaque na pauta jornalística brasileira em 2019, Rech alerta para a necessidade de a imprensa escapar da armadilha de considerar as redes sociais como espelho da realidade. "A vida real não está nas mídias sociais, essas servem apenas como um dos fatores de indicação", destaca.

 

Respondendo às mesmas quatro perguntas feitas a todos os cinco entrevistados da série - os outros foram Fátima Sudário, editora-coordenadora do Núcleo de Investigação do jornal O Povo, de Fortaleza, Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL, Renato Onofre, chefe de reportagem de política do jornal O Estado de S. Paulo, e Thiago Prado, editor-adjunto de política do jornal O Globo -, Rech destaca que o jornalismo precisa se reciclar constantemente para acompanhar a evolução das sociedades.  "O mundo não é cartesiano e o jornalismo também não pode ser, ele precisa reciclar constantemente as abordagens para refletir as expectativas da sociedade", afirma.


Crítico das alterações que afetaram a Lei de Acesso à informação (LAI), o jornalista destaca a importância da imprensa continuar se empenhando na produção de jornalismo investigativo de qualidade.

Crédito: Divulgação

Que tipo de pauta deverá ter destaque no noticiário em 2019? Questões sobre demarcação de terras indígenas, Amazônia, agrotóxicos e questões de gêneros, segurança etc vão ganhar destaque neste governo? Por quê?


Marcelo Rech - Há uma percepção generalizada de que precisamos buscar cada vez mais pautas da vida real, sair mais da redação, deixar o telefone de lado e procurar a realidade na periferia e nas cidades mais distantes, fontes que não são habituais e previsíveis. A vida real não está nas mídias sociais, essas servem apenas como um dos fatores de indicação. O Brasil real está nas ruas, à espera de ser apurado, visto, ouvido e interpretado em toda sua complexidade e riqueza. Incluo desde as questões de igualdade de gênero, direitos LGBT, até a questão dos evangélicos, que nem sempre é bem compreendida pelos veículos de comunicação. Não cobrimos muito religião e ela é importantíssima no país. Existe a percepção de que é preciso estar atento às redes sociais, mas não é ali que está o jornalismo. Ao contrário, o jornalismo é uma atividade que se vale das redes sociais para algum alerta, mas a vida real está fora desse lugar. Não se pode cair nessa armadilha.


Que tipo de influência tem a mudança de governo nesse sentido?

Talvez fique mais evidente que algumas forças políticas, que não eram fontes habituais, têm a sua expressão, sua realidade e devem estar contempladas no dia a dia dos veículos. Mas elas não são massas uniformes porque a opinião pública se transforma com muita velocidade. Milhões de pessoas que votaram no Bolsonaro votaram na Dilma na eleição anterior e sabe-se lá em quem votarão no futuro. As coisas não são consolidadas nem definitivas, são fugazes. São fatores difíceis de serem explicados, mas que precisamos estar constantemente monitorando e transformando a própria pauta. Há 30 anos, a questão dos sem-terra, a reforma agrária, era prioritária, matéria de primeira página. A criminalidade era relegada às páginas policiais, hoje é assunto de primeira grandeza pelo crescimento das organizações criminosas e por não estar mais restrita às grandes cidades. Há, em razão de mudanças conjunturais no país, novas pautas. Um tema central será a reforma da Previdência, assunto que já havia sido introduzido no governo Temer, mas hoje pesa mais na balança. No mundo oficial, será um tema central. Infelizmente, a tragédia de Brumadinho recoloca em primeiríssima grandeza as questões ambientais no país. Desde a tragédia de Mariana, tínhamos os radares ligados, mas Brumadinho ficará marcado por tudo que representa de descaso, incúria, parte da cultura da irresponsabilidade do país. Talvez tenhamos a oportunidade de transformar um pouco essa cultura. O Brasil é muito maior do que Brasília e do que as pessoas que ficam tuitando o dia inteiro, é muito mais complexo e isso ficou demonstrado na eleição com aspectos que fogem às leituras tradicionais. O mundo não é cartesiano e o jornalismo também não pode ser, ele precisa reciclar constantemente as abordagens para refletir as expectativas da sociedade, seu auto conhecimento. Essa é uma obrigação intransigível da imprensa: ajudar a sociedade a se conhecer melhor, independentemente das pressões via redes sociais, ataques, tentativas de intimidação, de desmoralização, um fenômeno que está acontecendo no mundo todo. Nossa melhor reação a isso é fazer mais e melhor jornalismo.


Acredita que ficará mais difícil do que antes fazer jornalismo investigativo? Por quê?


Claramente o decreto da Lei de Acesso à Informação é um retrocesso. Nós, da ANJ, lançamos nota conjunta com a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) e a ANER (Associação Nacional de Editores de Revista) lamentando essa posição porque não ajuda a transparência. Não acho que, observando neste momento, a lei em si seja capaz de criar obstáculos intransponíveis para o jornalismo investigativo no Brasil - até porque ele já era feito antes da lei -, mas não ajuda e é um mau sinal. Contraria o próprio discurso do presidente, que se elegeu com um discurso de transparência, combate à corrupção... Todos os países têm direito a informações confidenciais de defesa nacional, diplomacia... não é isso que se está contestando, mas ampliar para que cargos de confiança possam definir o grau de confidencialidade não ajuda a transparência, vai em direção contrária. Mas acho que isso se torna um estímulo para continuarmos fazendo jornalismo investigativo no Brasil. Nunca antes foi tão necessário, no Brasil e em qualquer outro país do mundo, se fazer jornalismo independente, vigiando e acompanhando o trabalho dos governos. Mas nunca também foram tão sofisticados os modelos de tentativa de controle e intimidação, uso de setores de opinião pública ou legislação, para tentar dificultar ou impedir o trabalho da imprensa. Isso acontece o tempo todo, em todas as partes do mundo, desde os casos mais absurdos como na Venezuela até a intimidação que acontece todos os dias contra repórteres e veículos nas redes sociais.


Em um cenário no qual as mídias digitais ganham cada vez mais destaque no processo informacional, quais deverão ser os principais desafios para o jornalismo de qualidade no país?


Paralelamente à missão de apurar e trazer coisas novas, nosso papel é, cada vez mais, certificar o que circula por aí, o chamado fact-checking. Essa certificação sempre foi obrigação de qualquer veículo de comunicação e passou a ser central. As pessoas sempre acreditaram no que quiseram, mas nossa obrigação é fazer a checagem para tirar a limpo desde os discursos oficiais, os números, até as informações que circulam, contrariando ou não as pessoas. Essa é a missão do jornalismo com a sociedade: fazer a sociedade se conhecer, usando as melhores técnicas para que não possa haver contestação técnica porque a contestação política sempre vai acontecer, é normal. Nossa obrigação é trazer a realidade à tona.


As outras entrevistas da série:

Thiago Prado - editor-adjunto de política do jornal O Globo
Renato Onofre - chefe de reportagem de política do jornal O Estado de S. Paulo
Murilo Garavello - diretor de conteúdo do UOL

Fátima Sudárioeditora-coordenadora do Núcleo de Investigação do jornal O Povo


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