"Ajudar o público a separar o que é real e trazer informações para que ele possa ter uma visão mais consciente são imperativos para o jornalismo", diz diretor de conteúdo do UOL

Marta Teixeira | 07/02/2019 14:49

A eleição de Jair Bolsonaro para a presidência da República e a renovação na composição do Congresso nacional alteraram o cenário político e social do Brasil. Essas mudanças vão influenciar não somente os rumos do país, mas também as pautas do noticiário nacional em 2019. O Portal IMPRENSA conversou com diversos jornalistas para verificar quais temas eles acreditam que serão destaque na cobertura jornalística deste ano.

Todos responderam às mesmas quatro perguntas. Foram entrevistados Fátima Sudário, editora-coordenadora do Núcleo de Investigação do jornal O Povo, de Fortaleza, Marcelo Rech, vice-presidente editorial do Grupo RBS, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e vice-presidente Fórum Mundial de Editores, Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL, Renato Onofre, chefe de reportagem de política do jornal O Estado de S. Paulo, e Thiago Prado, editor-adjunto de política do jornal O Globo. 


Na entrevista de hoje, terceira das cinco realizadas, Murilo Garavello ressalta o papel da imprensa na conscientização popular sobre a realidade. "Ajudar o público a separar o que é real do que é falso - desde conteúdo que circula em redes sociais até no discurso dos políticos - e trazer informações para que ele possa ter uma visão mais consciente são imperativos para o jornalismo", afirma.


Garavello fala também sobre os desafios enfrentados na produção de jornalismo de qualidade e comenta que, apesar das mudanças referentes à Lei de Acesso à Informação (LAI), o jornalismo investigativo tem ferramentas para continuar a contribuir com a sociedade.


Crédito: Divulgação
Que tipo de pauta deverá ter destaque no noticiário em 2019? Questões sobre demarcação de terras indígenas, Amazônia, agrotóxicos e questões de gêneros, segurança etc vão ganhar destaque neste governo? Por quê? 


Murilo Garavello - Pautas de muitas áreas vão ganhar destaque na medida em que toma posse um governo que representa uma enorme ruptura de vários vieses e possui ideologias divergentes às dos últimos governos. Provavelmente haverá uma mudança de rumos importante - e isso, naturalmente, vai gerar notícia.


Que tipo de influência tem a mudança de governo nesse sentido? 


O novo governo diverge das gestões anteriores em diversos aspectos, além de ter uma relação diferente com o Congresso, com os meios de comunicação e com a sociedade. Por esses fatores, parece ser uma mudança mais radical do que as anteriores.


Acredita que ficará mais difícil do que antes fazer jornalismo investigativo? Por quê?


A mudança na Lei de Acesso à Informação, assinada recentemente, multiplicou o número de autoridades que podem classificar documentos como ultrassecretos. Essa é uma medida que pode reduzir a transparência dos atos governamentais – e consequentemente o acesso da imprensa a dados importantes. Por outro lado, existem muitas ferramentas à disposição dos jornalistas. O jornalismo continuará cumprindo seu papel.


Em um cenário no qual as mídias digitais ganham cada vez mais destaque no processo informacional, quais deverão ser os principais desafios para o jornalismo de qualidade no país?


A rapidíssima circulação de informações, desinformações e boatos é um enorme desafio para o jornalismo. A mentira pura e simples sempre foi uma arma (suja) da disputa política e nunca se espalhou com tanta rapidez e facilidade quanto hoje. Para piorar, informações verificadas e boatos são tratados por parcelas gigantes da população como a mesma coisa. Sendo assim, ajudar o público a separar o que é real do que é falso - desde conteúdo que circula em redes sociais até no discurso dos políticos - e trazer informações para que ele possa ter uma visão mais consciente são imperativos para o jornalismo.


Outras entrevistas já publicadas na série:
Thiago Prado - editor-adjunto de política do jornal O Globo

Renato Onofre - chefe de reportagem de política do jornal O Estado de S. Paulo

Fátima Sudário - editora-coordenadora do Núcleo de Investigação do jornal O Povo

Marcelo Rech - vice-presidente editorial do Grupo RBS, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e vice-presidente do Fórum Mundial de Editores (da sigla em inglês WEF)


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