"Cabe ao jornalista trazer outros olhares, ultrapassando o lugar comum sobre a narrativa", diz chefe-de reportagem do Estadão

Marta Teixeira | 06/02/2019 11:48

As mudanças de lideranças no governo, com a eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL), e nas configurações das casas legislativas federais são fatores determinantes na definição dos rumos do Brasil a partir de agora. Essa movimentação se reflete também na pauta dos jornais de todo o país. O Portal IMPRENSA conversou com vários jornalistas para verificar quais temas eles acreditam que serão destaque no noticiário nacional deste ano. 


A reportagem entrevistou Fátima Sudário, editora-coordenadora do Núcleo de Investigação do jornal O Povo, de Fortaleza, Marcelo Rech, vice-presidente editorial do Grupo RBS, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e vice-presidente Fórum Mundial de Editores, Murilo Garavello, diretor de conteúdo do portal UOL, Renato Onofre, chefe de reportagem de política do jornal O Estado de S. Paulo, e Thiago Prado, editor-adjunto de política do jornal O Globo para conhecer suas opiniões. Hoje, publica a segunda das cinco entrevistas sobre o assunto.


Os entrevistados responderam às mesmas quatro perguntas falando também sobre o impacto que mudanças referentes à Lei de Acesso à Informação (LAI) podem ter no trabalho dos jornalistas e sobre os desafios do bom jornalismo em uma sociedade na qual a propagação de informações também pode ser usada como arma para a desinformação. 


"Cabe ao jornalista trazer a análise, aprofundar a informação, trazer outros olhares sobre o acontecimento, ultrapassando o lugar comum sobre a narrativa do que aconteceu", diz Renato Onofre, o entrevistado de hoje.  


Crédito: Reprodução
Que tipo de pauta deverá ter destaque no noticiário em 2019? Questões sobre demarcação de terras indígenas, Amazônia, agrotóxicos e questões de gêneros, segurança etc vão ganhar destaque neste governo? Por quê?

Há dois pontos importantes para se observar no novo governo e no novo Congresso. Uma pauta inevitável são as reformas, porque ela está imposta pela agenda econômica e estava em alta desde o governo anterior. Mas há um segundo ponto que são as questões morais e de segurança pública de maneira geral. Diferentemente de outras gestões, esse Congresso tem um perfil, desenhado ainda na campanha eleitoral, indicando que vai tratar esse tema de maneira diferente de como já foi tratado. Essa é uma agenda que pode impactar diretamente a vida das pessoas e como elas fazem suas discussões. Extrapolando um pouco, podem entrar nessa pauta questões de meio-ambiente de maneira geral, que não estão diretamente ligadas à segurança e às questões morais, mas fazem parte desse grupo que apoia de forma direta mudanças mais radicais em relação a isso. 


Que tipo de influência tem a mudança de governo nesse sentido? 


Não digo que há uma influência, mas uma mudança de agenda. Depois de um período longo de social-democracia - e o governo do PT tem um pouco da social-democracia com a busca pelo estado de bem-estar social -, entra um governo calcado em dois pilares muito fortes: a discussão da moral e dos costumes, do campo conservador, e a questão da economia liberal. Pela primeira vez, temos uma equipe econômica que faz a defesa do liberalismo quase na sua essência. Tínhamos discussões de aspectos liberais no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso (1995-1998), mas não era tanto.


Acredita que ficará mais difícil do que antes fazer jornalismo investigativo? Por quê?


Nenhum governo quer expor seus dados, é cíclico. Cansamos de ver isso desde a redemocratização. Ainda não dá para saber, de fato, se vai ser mais difícil ou não. Estamos colhendo pequenas impressões. É preocupante qualquer tipo de alteração na LAI, qualquer restrição à publicidade da coisa pública é ruim, mas a gente não consegue ainda dimensionar qual será esse impacto na nossa vida. Estamos tentando descobrir isso através de novos pedidos. Mas ao mesmo tempo, a gente vê um potencial de apuração que parece renovado. Acho que há uma busca. As pessoas precisam começar a contar histórias que não estão nas redes, na internet, nos seus ambientes de discussões. É uma renovação no sentido que o jornalismo investigativo sai de onde ficou aprisionado no ciclo Lava-jato - com informação vinda de documentos e afins, quase oficial. Vamos ver o potencial do jornalista estar novamente em campo, buscando informação, retrabalhando as fontes... Eu vejo mais potencial do que coisas negativas. São desafios que o jornalismo está se impondo. 

 

Em um cenário no qual as mídias digitais ganham cada vez mais destaque no processo informacional, quais deverão ser os principais desafios para o jornalismo de qualidade no país?


Fazer o que a gente faz: informar bem e de maneira precisa. As redes sociais e todo esse ambiente são um desafio porque todos têm acesso à mesma informação. O fato por si só está quase disponível para todo mundo, praticamente em tempo real. Cabe ao jornalista trazer a análise, aprofundar a informação, trazer outros olhares sobre o acontecimento, ultrapassando o lugar comum sobre a narrativa do que aconteceu. A gente precisa trazer olhares diferentes, pegar um caso como Brumadinho, mostrar o que faltou, preencher os brancos da informação de maneira clara e com material mais analítico. Isso vai fazer o jornalismo sobreviver e se reinventar nesse ambiente digital.


OBS: Efeito das mudanças relacionadas à LAI, decreto publicado nesta quarta-feira (6) e assinado pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno Ribeiro, deu ao diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) o poder de classificar informações com grau "ultrassecreto". Outros funcionários da Agência receberam autorização para atribuir classificação  "secreta" a informações.


As outras entrevistas da série:

Thiago Prado - editor-adjunto de política do jornal O Globo

Murilo Garavello - diretor de conteúdo do UOL

Fátima Sudário - editora-coordenadora do Núcleo de Investigação do jornal O Povo

Marcelo Rech - vice-presidente editorial do Grupo RBS, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e vice-presidente do Fórum Mundial de Editores (da sigla em inglês WEF)


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