A ditadura pelo olhar de Edney Silvestre e Antonio Carlos Secchin

Marta Teixeira | 21/01/2019 14:39

A ditadura no Brasil e seu impacto na obra de escritores é o tema de encerramento do ciclo "A palavra fora do lugar: escritores refugiados e em risco" promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro. Nesta quarta-feira (23), o jornalista, escritor, roteirista e documentarista Edney Silvestre e o poeta, ensaísta, professor e crítico literário Antonio Carlos Secchin falarão sobre o assunto, a partir das 18h30. A entrada franca. 

Crédito: CCBB/Reprodução

Silvestre comentará aspectos de sua produção literária, que aborda o governo Vargas e os anos de chumbo, das décadas de 1960-70. Através de sua carreira jornalística, ele falará o assunto relembrando entrevistas feitas com grandes escritores entre eles, os vencedores do Prêmio Nobel, a sul-africana Nadine Gordimer e o turco Orhan Pamuk. Secchin fará uma leitura cruzada entre a poesia de Ferreira Gullar e seus livros autobiográficos. 


Doutora em literatura brasileira Clarisse Fukelman, do departamento de Comunicação Social da Puc-Rio/Veredas, é a curadora do ciclo e mediadora do encontro. Ao Portal IMPRENSA, ela destaca a importância da literatura para escutar diferentes vozes. 


"Só isto já é um modo de contestar o momento político pautado pelo monologismo, pela voz única e autoritária que quer se impor como verdadeira. A literatura está na contramão disso. Não se pode esperar da literatura uma função prática, de causa e efeito imediato. Ela não se propõe a reverter uma situação, mas ela contribui para  subverter visões de mundo simplificadoras que vendem a ideia de que as soluções para questões humanas e para problemas sociais como a fome e o desemprego se resolvem sob a bandeira positiva 'ordem e progresso'", explica.


O encontro coloca em pauta um assunto que tem se tornado mais atual a cada dia: a ditadura e sua significação. "Há uma profunda crise ligada à má distribuição de renda, que leva populações inteiras ao desespero, muitas delas obrigadas a sair de suas casas e países, e disputar comida e espaço com outros também pobres. Estes últimos são levados, por um discurso oficial enganoso, a identificar nestas levas de gente pobre e desesperada os seus inimigos. E não são. Ao invés do cobrar do estado a solução para um desequilíbrio na distribuição de riquezas,  acham que pela força, pela violência contra os pobres as coisas se resolvem", responde Clarisse, ao ser questionada se o significado da ditadura brasileira está sendo esquecido pela população geral. 


A razão para isso estar acontecendo, avalia a curadora, passa pelo sucateamento da educação pública e pelo ambiente de superinformação descontrolada e de baixa qualidade aos quais os indivíduos são expostos. "Há uma profunda crise no ensino. A educação pública está sucateada, os professores têm de se virar em inúmeras escolas para sobreviverem e têm de competir com os novos meios eletrônicos que bombardeiam com informações em alta velocidade, sem tempo para reflexão."


No âmbito do indivíduo, a situação não é muito diferente. "Todo esse caos comunicacional cria uma nuvem sobre a crise de valores instalada na pós-modernidade. O descartável está em primeiro plano, não a memória. Isso contribui também para falsear a violência brutal da ditadura, embalada atualmente num verniz de boa moça, como produto reeditado para criar uma ilusão salvacionista de lei e ordem, acima das diferenças, das cumplicidades, das trocas de afeto e de confrontos que se resolvem na palavra, e não no tiro", finaliza.


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