Para especialista, mesmo encolhida, bancada da mídia mantém seu poder

Marta Teixeira | 12/12/2018 09:15

Levantamento divulgado essa semana pela Folha de S. Paulo sobre a redução da bancada da mídia no Congresso revelou uma informação importante. A matéria informava que o número de políticos ligados a emissoras de rádio e TV caiu de 40, na legislatura passada, para 28 (além de três governadores).  Essa movimentação, porém, não pode ser considerada um prenúncio do fim do poder da mídia tradicional no cenário político, mesmo em uma configuração política na qual as redes sociais ganharam relevância. 

Crédito:Divulgação

"Deve ser a menor bancada que se tem nos últimos 20 anos. Dois aspectos me chamam a atenção. Por um lado, a perda do poder político dos meios mais tradicionais de comunicação diante da internet na influência do voto. Por outro, também uma falta de renovação e ampliação de proprietários de mídia", analisa a  jornalista Elvira Lobato. 


Oficialmente aposentada desde 2012, Elvira continua produzindo grandes reportagens e é uma das maiores especialistas do setor de telecomunicações e radiodifusão no Brasil, cobertura à qual dedicou boa parte dos seus 39 anos de profissão. Por isso, ela não se surpreende com os números levantados.   


"Essa redução da bancada da mídia no congresso vem se dando gradualmente", explica. O auge do grupo, recorda, foi no governo de José Sarney (1985-1990). Na época, as concessões eram dadas por decisão do presidente da República e serviam como poderosa moeda de troca em acordos políticos. A partir do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso (1995), as concessões comerciais passaram a ser vendidas em licitações públicas.  "Isso acabou com o uso político das concessões de rádio e televisão? Não. Diminuiu, mas não acabou", ressalta a especialista, destacando ainda o número restrito de licitações abertas nos últimos anos. As licenças de retransmissão e as educativas, acrescenta, continuam a ser distribuídas segundo critério político.


A perda de poder da mídia tradicional, portanto, é apenas ilusória na opinião de Elvira. Apesar da força demonstrada pelas redes sociais na última campanha eleitoral, rádio e televisão mantêm sua relevância, especialmente em pequenas cidades e localidades afastadas dos principais centros. "A televisão deixa de ser o meio tão ambicionado, já que o presidente foi eleito pelas redes sociais, com o menor tempo de televisão. Pode ser até que isso influencie os políticos daqui por diante, mas até que ponto essa estratégia vitoriosa para o Bolsonaro se aplicaria a uma pequena cidade do interior? Não sei", ressalta. 


Há cerca de dois anos, ela acompanhou de perto essa realidade, viajando pelos nove estados que compõem a Amazônia Legal para fazer uma reportagem sobre telecomunicações nesses locais.  O resultado desse trabalho está no livro Antenas da Floresta - A saga das TVs da Amazônia. "Em muitas cidades, você encontra todos os meios de comunicação em nome de políticos. Se todos têm, isso não vai ser o diferencial para eleger um ou outro. Mas se você não tiver é um fator contra você", compara.

Crédito:Agência Brasil

A questão financeira é outro fator importante. "Quando é uma área economicamente desinteressante, quem vai estar interessado em manter uma televisão deficitária? Só tem dois públicos alvos: igreja e políticos. Não tem como mudar muito essa equação. Por isso, acho que não vai desaparecer o poder da mídia, nem a presença do político nem a da igreja", complementa. 


Elvira também conhece bem a relação igreja e mídia. Em 2008, ela conquistou o Prêmio Esso de jornalismo com a reportagem "Universal chega aos 30 anos com império empresarial", sobre o conglomerado da Igreja Universal do Reino de Deus. A matéria histórica lhe rendeu 111 processos abertos pela denominação religiosa, todos vencidos pela jornalista. 


Independentemente da corrente religiosa, rádio e televisão facilitam o acesso das igrejas aos fiéis. Um levantamento feito por Elvira há alguns anos, por exemplo, constatou a força da igreja católica nas rádios. "Quase todas as licenças foram dadas no governo Fernando Henrique e foi assim com todas as igrejas. Esse presidente (Jair Bolsonaro) parece mais próximo dos evangélicos, mas a história brasileira, pegando as três últimas décadas, mostra que todas as igrejas acabam sendo contempladas."


Tanto em relação às igrejas quanto aos políticos, Elvira chama atenção para a necessidade de deixar mais claras suas ligações com as empresas de mídia. "Esse levantamento (da Folha), provavelmente estampou somente os veículos que estão oficialmente em nome de políticos [os autores da reportagem também chamaram atenção para esse fato no jornal]. Não é um fenômeno de agora. Políticos sempre tiveram muitos veículos de comunicação em nome deles, mas há um número maior ainda em nome de outros", destaca a jornalista. Ela cita uma conversa que teve, nos anos 90, com um político, dono de televisão no interior paulista, para retratar a situação. "Ele falava que esse era um setor cítrico, tal era o número de políticos que tinham emissoras em nome de laranjas."  


Leia também:

Projeto de lei sobre criminalização de fake news é protocolado para ser analisado pelo Senado
Publicitário é confirmado como futuro secretário de comunicação de Bolsonaro