Jornalismo e divulgação científica: uma combinação positiva no combate à AIDS/HIV

Marta Teixeira | 11/12/2018 16:33

Assunto delicado e ainda cercado de muitos mitos, a divulgação de notícias sobre AIDS e HIV oferece desafios extras aos profissionais de imprensa. O assunto foi discutido na 6ª edição do Fórum Digital Aids e o Brasil, realizado no dia 6, em São Paulo. Esta edição contou com a moderação do jornalista Fabio Rubira.

Crédito:Gisele Sotto

No debate sobre "A valorização do jornalismo científico dentro e fora das universidades", a jornalista e doutoranda em Saúde Pública pela USP, Monique Oliveira, ressaltou a necessidade de o profissional de imprensa compreender seu papel no processo de disseminação de informação. 


No retorno à vida acadêmica, após anos trabalhando em grandes redações, Monique diz ter descoberto uma nova maneira de se relacionar com o jornalismo. "Foi como se eu me redescobrisse jornalista, porque no jornalismo você trabalha com fatos. Mas ao redor desses fatos, existe uma rede com vários atores envolvidos: gestores, familiares... Com o meu mestrado em jornalismo científico, percebi a necessidade de incluir essa rede na abordagem", disse.


O jornalista Tiago Minervino  ressaltou a pouca atenção dada a aspectos ligados ao aumento de incidência do vírus entre determinados grupos, como os jovens e os heterossexuais, na maneira como a mídia aborda a AIDS/HIV. "A gente vê o crescimento do HIV, principalmente entre os jovens, mas não vejo no meio jornalístico o questionamento sobre por que isso está acontecendo", alertou. 


No período de 2007 a junho de 2018, por exemplo, levantamento realizado por faixas etárias, observou-se que a maioria dos casos de infecção pelo HIV encontra-se na faixa de 20 a 34 anos, com percentual de 52,6% dos casos.


Minervino é um dos responsáveis pelo documentário "Positivo" que aborda o cotidiano de jovens que convivem com o vírus HIV, um retrato que o jornalista sente falta em reportagens sobre o assunto. "Não basta, no fim do ano, falar que o número de infectados cresceu. É necessário investigar e tentar quebrar o tabu. As redações precisam dar espaço para o jornalismo científico, mas também para o humanitário."


Para Minervino, há lacunas também na cobertura sobre formas de prevenção. "A gente sabe que ainda não tem cura, mas, talvez, disseminar as formas de prevenção combinada seja algo que a imprensa possa fazer", destacou.


A bióloga Luanne Caires integra a equipe responsável pelo programa Oxigênio, da Unicamp. A iniciativa é uma prova de que jornalismo e divulgação científica podem caminhar na mesma sintonia para benefício do público. Especializada em jornalismo científico, ela concorda com a necessidade de se combinar o aspecto científico ao lado humano na cobertura sobre AIDS/HIV. 


O encontro entre essas duas vertentes da informação (jornalismo e produção científica), porém, permanece um desafio. A comunidade científica muitas vezes resiste a esse contato, mas Luanne acredita que isso também está mudando e por ações nos dois lados. "Existe um descompasso entre o tempo jornalístico e o da pesquisa e há uma certa preocupação sobre como aquela pesquisa será divulgada", reconheceu. "Como trabalhar isso? Investindo na formação de jornalistas na parte da ciência e trabalhando, entre os pesquisadores, o conhecimento da prática jornalística."


"O jornalismo científico está começando a ser valorizado. As universidades perceberam a necessidade de falar com o grande público", destacou Monique. Nas redações, a percepção sobre a necessidade de maior preparo profissional para lidar com temas científicos também existe, contudo, ela considera que a situação ainda está "aquém do esperado".



O Fórum Aids e o Brasil foi promovido pela Revista e Portal IMPRENSA, em parceria com o Ministério da Saúde e o curso de jornalismo da ESPM e teve o apoio do UNAIDS - programa da Organização das Nações Unidas para combater a doença. 

Para conferir os destaques do Fórum Digital Aids 2018 e ver conteúdos relacionados, acesse www.portalimprensa.com.br/forumaids

Assista ao documentário Positivo.




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