Livro analisa relação entre transformações sociais e tecnológicas, democracia e liberdade de expressão

Marta Teixeira | 19/11/2018 09:00

A crise da democracia em uma configuração de transformações sociais que colocam em risco a liberdade de expressão é um dos temas centrais do livro "Pós-tudo e crise da democracia". A obra será lançada nesta quarta-feira (21), às 19h30, no auditório Lupe Cotrim da Escola de Comunicações e Artes (ECA), na USP, com a realização de um debate do qual participarão a advogada Taís Gasparian e o professor e jornalista Eugênio Bucci. 

Crédito:Reprodução

O livro é uma coletânea de 16 trabalhos apresentados no seminário de mesmo nome realizado no ano passado na USP. "A seleção foi feita desde o início com os trabalhos que foram aceitos para apresentação oral. Cada autor pode incorporar ao seu texto os debates havidos durante o seminário, após as apresentações orais", explicou a professora, socióloga e pesquisadora Maria Cristina Castilho Costa do Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura da ECA-USP (OBCOM), organizadora da obra juntamente com Patrícia Blanco, do Instituto Palavra Aberta. 


Ao Portal IMPRENSA, Maria Cristina falou sobre a concepção do livro, editado pelo OBCOM e pelo Instituto Palavra Aberta em parceria com o CPF Sesc-SP.    


Qual o objetivo principal da obra?


Analisar as grande transformações que ocorrem no mundo hoje, especialmente aquelas provocadas pelo desenvolvimento da cultura em rede de computadores, a globalização e a emergência de novas potências mundiais como a China e a Rússia.


O que exatamente é esse conceito de pós-tudo do título?


Pós-Tudo é o título de uma poesia de Augusto de Campos que fala de mudança, de transformação. O que temos assistido neste século XXI é justamente uma transformação radical nas instituições, no comportamento das pessoas e nas relações nacionais e internacionais entre os países. Para nós que estudamos a Liberdade de Expressão é muito importante entender o que está acontecendo e defender valores que são basilares para a democracia e a vida social saudável.


O título também fala em crise da democracia, como define essa situação atualmente?


O cenário não está favorável às instituições democráticas - há a ascensão de países países como super-potências que nunca conheceram a liberdade e a democracia. Isso assusta muito porque o Ocidente tem uma tradição democrática que caracterizou a Modernidade e que resulta em uma sociedade diversificada, múltipla e feita de segmentos e categorias que se definem, se manifestam e aprendem a conviver com o outro. Temos apreço pela individualidade, pela diferença e por princípios equânimes de vida social. A escalada do autoritarismo e da ideia de uma sociedade homogênea é assustadora.


O livro está sendo lançado em um momento extremamente oportuno. Muitas temáticas abordadas por vocês no seminário foram vistas no recente processo eleitoral brasileiro. Por que esses alertas insistem em ser ignorados?


Porque a sociedade está assustada - houve mudanças radicais no sistema produtivo - automação, globalização, terceirização que modificaram a inserção das pessoas na ordem produtiva. Valores novos substituem valores arraigados como trabalho e importantes objetivos de vida. Muitos perderam posições, empregos, profissões e perspectivas. Diante do novo, busca-se culpados pelas transformações e passa-se a se acreditar em um “salvador da pátria”que recoloque as coisas no lugar. Esse sentimento é embalado em conservadorismo e autoritarismo que é o que se observa na sociedade brasileira de hoje.


A imprensa tem sido muito atacada e questionada nos últimos tempos, por que chegamos a essa situação e como classifica esse momento? 


Tem havido um conflito entre as grandes agências de comunicação, a imprensa tradicional, e as novas formas de comunicação, especialmente as redes sociais e os dispositivos que permitem ao público se conectar e se comunicar uns com os outros. Há um novo espaço público com o qual a imprensa tradicional nem sempre sabe como se relacionar e conviver. O conflito está aberto. Nas últimas eleições vimos o embate entre eles.


Existe uma luz no fim do túnel para esse quadro?


Acreditamos que “nada será como antes”, mas precisamos, como nunca deixar de lado nossa forma tradicional de classificar a realidade para conhecer de fato o que as pessoas, organizadas em novas relações e agrupamentos, estão almejando. Os velhos conceitos não se aplicam mais à realidade. Precisamos aprender a ver e ouvir, antes de conceituar.


Julgando os eventos políticos e sociais mais recentes, como fica sua confiança no vigor da democracia brasileira? Ela pode resistir? E como fazer essa resistência? 


O país que as novas doutrinas (nem tão novas assim) pregam é fictício. Nós somos um país imenso, múltiplo, desigual, miscigenado, com pessoas das mais diferentes origens e tradições. Nós não cabemos em um projeto homogêneo de nação branca, cristã, heterossexual e patriarcal. Só um regime baseado no convívio dos diferentes e no respeito às diferenças pode prosperar.


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