"A eleição de Jair Bolsonaro tornou este festival ainda mais urgente", diz convidada do Festival Mulheres do Mundo

Marta Teixeira | 16/11/2018 16:02

Começou nesta sexta-feira (16), no Rio de Janeiro, o Festival Mulheres do Mundo (da sigla em inglês WOW). Até domingo, o evento promoverá cerca de 150 atividades gratuitas em uma iniciativa que pretende celebrar a história das lutas e conquistas femininas, criando um ambiente de troca para fortalecer a continuidade dos avanços no setor. 

Crédito:Reprodução/Pinterest

Realizado pela primeira vez na América Latina desde sua criação em Londres, Inglaterra, em 2010, pela idealizadora Jude Kelly, o festival chega ao Brasil em um momento de muita discussão sobre o futuro das liberdades. "A eleição de Jair Bolsonaro tornou este festival ainda mais urgente", disse ao Portal IMPRENSA a jornalista e escritora Joana Gorjão Henriques, uma das convidadas do evento.  


Ganhadora do prêmio da comissão portuguesa da Unesco em Direitos Humanos, do prêmio AMI - Jornalismo contra a Indiferença - e diversas outras premiações, Joana tem forte atuação no segmento de direitos humanos, discriminação e integração racial e é uma das convidadas da organização para compartilhar suas experiências com o público. Autora dos livros "Racismo em português: o lado esquecido do colonialismo" e "Racismo no País dos Brancos Costumes", ela é conhecida do público brasileiro e já participou da Festa Literária de Paraty (Flip).  


Atenta às movimentações da sociedade ao redor do mundo, Joana falou sobre a situação da questão feminina e suas expectativas sobre o impacto que o Festival WOW pode ter. 


Qual a importância de uma iniciativa como a Festival para o fortalecimento da questão feminina? 


Olhando para este leque tão variado de mulheres incríveis que vão estar reunidas durante três dias, partilhando as suas experiências, e com quem teremos tanto a aprender, é impossível não pensar que esta é uma iniciativa importante para dar visibilidade e fortalecer as várias questões femininas.


A edição do Rio de Janeiro é a primeira na América Latina. Considera que existe uma importância simbólica por ocorrer em um momento no qual o governo se direciona mais para a direita política?


Eu estou muito expectante quanto ao impacto que um evento como este pode ter justamente agora e como a mídia tradicional vai abordar um festival de mulheres. Porque não se trata apenas de isto acontecer num governo de direita mas sim em um governo chefiado por um homem que defendeu a desigualdade de tratamento entre homens e mulheres. A eleição de Jair Bolsonaro tornou este festival ainda mais urgente. 


Assim como no Brasil, outros países registram o crescimento de movimentos mais à direita na política. Como analisa o panorama político mundial atualmente? 


Essa é uma questão muito complexa para a qual não sinto competências para responder. Posso apenas dizer que pensando em Trump nos Estados Unidos, em Bolsonaro no Brasil, nos Conservadores no Reino Unido que provocaram a saída da União Europeia, nos extremismos em Itália, Polônia ou Hungria preocupa-me a vulnerabilidade que as sociedades criaram para o aparecimento e expansão de um novo fascismo. Pessoas que antes não se atreviam a ser racistas, xenófobas, homofóbicas em público começam a perder o pudor de o ser. E assim assistimos ao reflorescimento dos radicalismos, de posições extremadas, da derrocada de valores tão valiosos que demoraram tanto a conquistar.


Com todos os debates em torno da importância do papel da mulher na sociedade ocorridos nos últimos anos, você acredita que o mundo avançou o suficiente em relação a essa questão? Teme que essas conquistas possam estar em risco? 


Ligando à questão anterior, em muitos dos países em que se deram grandes avanços apareceram líderes políticos que representam um autêntico retrocesso na conquista dessas liberdades. Num mundo em que o simples facto de uma mulher ser mulher faz com que ganhe menos do que os homens e em que o simples facto de uma mulher ser negra faz com que ganhe menos do que os homens mas também do que as mulheres brancas, não pode haver avanço. Avanço será quando estas desigualdades desaparecerem. 


Sua trajetória profissional é marcada por um posicionamento muito forte em defesa da igualdade. Acredita que, considerada a situação atual, faz-se ainda mais importante uma postura militante dos profissionais de imprensa e da sociedade em geral?


Dizem as regras que os jornalistas devem ser neutrais e ouvir os dois lados. Esse princípio serve como guia do meu trabalho na maior parte das vezes. O problema é que se em causa está a violação de valores básicos como direitos humanos ouvir os dois lados coloca no mesmo plano a vítima e o opressor. Ser neutral pode, assim, ter como consequência ser complacente com o mal. Quando se trata de direitos humanos, os jornalistas não devem ter medo de estar ativamente do lado certo. 


Além de Joana, outras personalidades de destaque no cenário internacional estarão participando do WOW. Entre elas estão Donalda Mackinnon, diretora da BBC Escócia, que liderou este ano o plano de carreira para as mulheres na emissora e se dedica à BBC Children in Need, ONG de assistência a crianças e jovens em situação de vulnerabilidade; a jornalista e documentarista angolana Diana Andringa, presa nos 1970 por apoiar a independência de seu país; a jornalista e documentarista brasileira Amanda Kamanchek, que foi coordenadora de campanhas de enfrentamento à violência da ONU Mulheres Brasil e dirigiu o documentário "Chega de Fiu Fiu", produzido em parceria com a organização feminista Think Olga. 


O Festival Internacional Mulheres do Mundo é gratuito e para participar das atividade basta fazer a inscrição online ou retirar os ingressos antes. A programação completa está disponível no site do evento.   


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