Agressões a jornalistas em contexto eleitoral chegam a 150 no ano

Redação Portal IMPRENSA | 30/10/2018 11:04

O segundo turno da eleição 2018 registrou um crescimento no número de agressões contra jornalistas. De acordo com levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), já são 150 ocorrências em contexto eleitoral este ano. A maior parte delas em ambiente digital (81), as outras 61 foram físicas. Do início da campanha eleitoral, em 16 de agosto, até agora foram 39 casos. Em nota oficial, a entidade repudiou as agressões e hostilidades aos profissionais de imprensa. 

Crédito:Fernando Frazão/Agência Brasil

Carlos Eduardo Guimarães, assessor de comunicação do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), protagonizou um dos recentes casos de assédio digital. Em um grupo de WhatsApp de jornalistas, no domingo, ele ofendeu os profissionais após a divulgação das primeiras parciais de apuração. "Ué... não tava quase empatado? Vocês são o maior engodo do Jornalismo do Brasil!!!! LIXO", escreveu. 


Na tarde de segunda-feira, divulgou nota se retratando: "Gostaria de apresentar minhas sinceras desculpas junto aos jornalistas brasileiros (...) usei palavras absolutamente inadequadas, extrapolando na minha manifestação.(...) Acrescento que, de forma alguma quis generalizar, atacar ou desmerecer quaisquer profissionais, não sendo essa a orientação dos Deputados Jair Messias Bolsonaro e Dep. Eduardo Nantes Bolsonaro", diz o texto.


Outros profissionais foram hostilizados diretamente por outros apoiadores do presidente. O jornalista João de Andrade Neto, do Diário de Pernambuco, foi ameaçado pelo deputado federal eleito Marcio Labre (PSL) após uma postagem sobre combate ao fascismo e   defesa da democracia. O político escreveu: "Só avisando, se transgredir a lei e a ordem, vai conhecer a mão pesada do estado. Vencemos a eleição de forma soberana, vamos governar para todos e respeitar a constituição".


O trabalho de cobertura do segundo turno também foi complicado. Em Fortaleza (CE), houve registro de ocorrências contra profissionais de O Povo e da TV Verdes Mares. Em São Paulo (SP), a repórter Anna Virginia Balloussier do jornal Folha de S. Paulo foi cercadada e hostilizada por apoiadores do futuro presidente, uma equipe da TV Tribuna e profissionais do jornal A Tribuna também foram alvo de ameaças. O mesmo aconteceu com Mellyna Reis, no Rio de Janeiro (RJ).   


Em nota oficial, a Abraji declarou: "A Abraji repudia as agressões e a intimidação contra os profissionais. A cada vez que um(a) jornalista sofre violência por exercer seu ofício, a liberdade de expressão é atacada e um dos pilares da democracia se abala. Respeitar o(a) jornalista é respeitar o direito fundamental de acesso a informações, que é de toda a sociedade", registrou.


Até mesmo profissionais de outros países queixaram-se da situação de assédio crescente sobre a imprensa. Em sua página no Facebook, a holandesa Sandra Korstjens, correspondente da RTL Nieuws, relatou ter sido perseguida por um homem durante 20 minutos enquanto fazia a cobertura da festa de eleição de Bolsonaro, na avenida Paulista. Segundo ela, a polícia praticamente ignorou seus apelos por ajuda. 


"Quando contei a um policial que estava por lá, ele não levou minha reclamação a sério. Foi só conversar um pouco com o homem e não fez nada. O homem continuou perto e, quando fiquei nervosa, eles me chamaram de louca.(...) No meu trabalho como correspondente, nunca vivi este nível de assédio", relatou a holandesa. Segundo ela, o assédio só terminou depois que outras pessoas que participavam da manifestação intervieram.  


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