Alunos fazem revista laboratório acessível para pessoas com deficiência visual

Marta Teixeira | 26/10/2018 14:32

A nova edição da revista laboratório FOCA Rio, produzida por alunos do curso de jornalismo da ESPM-Rio, dá um exemplo importante de inclusão de pessoas com deficiência visual. Elaborada em parceria com o Instituto Benjamin Constant (IBC), a edição tem uma versão com audiodescrição disponível no portal de jornalismo da faculdade. Na versão em papel, a capa traz uma chamada em braile informando sobre a opção. 

Crédito:Divulgação/ESPM

Outro aspecto importante o projeto não é inclusivo apenas para pessoas com algum nível de dificuldade visual. As adaptações também permitem o acesso ao conteúdo a idosos com limitações visuais e iletrados. 


A iniciativa apresentou desafios. Uma tentativa anterior de viabilizar o projeto esbarrou em obstáculos práticos. "Fizemos um número também experimental usando o braile na capa. Tivemos um problema com a impressão em braile, que ficou apagada, e o papel não era o mais adequado porque prejudicava as fotos. Este número é o que conseguimos equilibrar a laminação da capa com o braile, o uso do papel mais adequado, assim como a tipologia", explicou ao Portal IMPRENSA a professora Angelina Nunes, professora do curso de jornalismo da ESPM e editora responsável pela revista. 


Juntamente com as também professoras Ana Lúcia Araújo e Vera Lopes, Angelina coordenou o trabalho dos alunos do segundo e terceiro períodos do curso. Foi uma experiência marcante para todos os envolvidos, assegura a coordenadora. Além dos desafios de pauta, reportagem, produção de texto, foto e diagramação da revista impressa tradicional, os alunos participaram de oficinas no IBC para produzir o material adaptado. "Todos saímos impactados desde a primeira vez. Percebemos como é necessário trabalhar melhor o texto, descrever melhor as fotos para que realmente a revista seja inclusiva", ressaltou Angelina. 


Nessa edição, a revista traz histórias de personagens cariocas que se destacam por meio de manifestações da cultura africana, do esporte como ferramenta de inclusão, de ações para tornar a cidade mais sustentável e do trabalho voluntário com animais. Há também um ensaio fotográfico do Forte do Leme, datado do século XVIII, e do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC), projetado por Oscar Niemeyer, explorando o contraste entre o clássico e o moderno.


O balanço final da experiência realizada com a revista é motivador, considera Angelina. "Acredito que esse produto realizado pelos alunos com a orientação dos professores mostrou que é possível a inclusão maior de outros consumidores de informação".


Clique aqui e acesse a versão adaptada da revista. E na entrevista a seguir, a coordenadora conta ao Portal IMPRENSA detalhes sobre a realização do projeto.

  


Como a revista surgiu?


A revista impressa é resultado de um trabalho em conjunto da disciplina que eu leciono (produção do conteúdo, elaboração das pautas, execução e edição das reportagens), da disciplina da professora Ana Lúcia Araújo (fotojornalismo, também do segundo período) e da professora Vera Lopes, responsável pela concepção do projeto gráfico com os alunos do terceiro período. Passei a cuidar dessa disciplina efetivamente em 2017, antes substituía um professor.   


Desde quando existe a Foca Rio e por que resolveram lançar uma edição para deficientes visuais?


O nome foi adotado em 2017. Antes disso, fizemos um número também experimental usando braile na capa. Tivemos um problema com a impressão do braile que ficou apagada e o papel não era o mais adequado porque prejudicava as fotos. Neste número, conseguimos equilibrar a laminação da capa com o braile, o uso do papel mais adequado, assim como a tipologia. O uso do braile na capa foi uma sugestão da professora Vera Lopes, que faz parte do comitê de inclusão da faculdade. Já era um desejo que o produto que realizaríamos com os alunos pudesse ser mais inclusivo. A revista não é especificamente para deficientes visuais, é inclusiva também para os deficientes visuais, para idosos que tenham algum tipo de deficiência visual, para iletrados, ou seja, para ampliar o acesso. Além do braile, o conteúdo impresso é transformado em áudio. As reportagens são gravadas em áudio no próprio estúdio da faculdade, as legendas das fotos são com áudio-descrição. Os alunos participam de todas as etapas. A sugestão do braile foi prontamente aceita pelos alunos que se empenharam na produção desse material. 


Como funciona a parceria com o Instituto Benjamin Constant?


Conversamos com a professora Nadir Machado do IBC, que também abraçou a ideia e participou de uma oficina para áudio-descrição com os alunos. Era necessário que os alunos entendessem essa nova forma de fazer um material jornalístico inclusivo. O resultado dessa oficina permitiu que os alunos fizessem a áudio-descrição da reportagem e entendessem que era necessário um outro texto para descrever as fotos para as pessoas com algum tipo de deficiência visual. Esse processo foi documentado em vídeo pela professora Vera Lopes, que realizou um doc. 


Há diferenças nas atividades que os alunos desempenham na produção da revista em relação ao sistema de trabalho em uma revista 'tradicional'?


Sim. A revista engloba os dois processos. O tradicional, que seria a realização da reportagem, edição de fotos e texto, concepção do projeto gráfico e diagramação, além da prova para revisão antes da rodada da revista. O que acrescentamos foi a áudio-descrição da revista que está disponibilizada no site, criado para esse fim específico. Na prática, colocamos um produto tradicional mais inclusivo.  


Os alunos participaram de oficinas no Instituto, como foi essa experiência? Eles mesmos fizeram a gravação dos áudios?


A revista é o resultado do trabalho dos alunos. Eles têm prazo para entregar pauta, isso vale nota, assim como a entrega das três versões da reportagem e a participação na edição do material. Posteriormente, o material é todo gravado pelos próprios alunos. Não seria possível fazer esse produto sem os alunos. A parceria com o IBC é fundamental. No documentário feito pela professora Vera Lopes há depoimento de alunos falando sobre a experiência de participar da elaboração da revista. Todos saímos impactados desde a primeira vez, percebemos como é necessário trabalhar melhor o texto, descrever melhor as fotos para que realmente a revista seja inclusiva. 


Que tipo de dificuldades vocês encontraram para tornar o projeto viável?


Na questão da execução, temos as dificuldades normais de um aluno do segundo período que tem a responsabilidade de elaborar uma reportagem. Eles estão começando a entender esse universo jornalístico e, às vezes, demoram a chegar o texto ideal, mas tudo isso faz parte do aprendizado. Há também uma disputa saudáve,como em qualquer veículo impresso, para ter sua foto escolhida para a capa. Além das reportagens, fazemos um ensaio fotográfico.  É um trabalho em equipe.


Existem similares nacionais ou estrangeiras que serviram de modelo ou inspiração para esse projeto?


Não tenho conhecimento de outro produto similar, feito por alunos, com integração de três professores, num curso de jornalismo. Estamos falando de um produto feito por alunos no início do curso de jornalismo.


Como tem sido a receptividade a essa iniciativa?


Os alunos adoraram a experiência. É um processo trabalhoso, porque há idas e vindas de correções de texto. Às vezes, uma bela foto não pode ser usada por não ter resolução adequada para estar na revista. Tudo é aprendizado. Já estamos mandando para a gráfica a próxima revista, que teve o mote da abolição para discutir identidade, resgate cultural, preconceito contra negros e mulheres.   


Vocês possuem outros projetos como esse?


A cada turma há um pedido para o desenvolvimento de outros produtos ligados ao produto original revista. Um exemplo, esta que está na gráfica também motivou os alunos para a produção de um minidoc sobre a produção da própria revista, da logomarca para uma ecobag e camiseta. Na disciplina com a professora Vera Lopes, eles entendem que a revista é um produto e pode ser ligado a outros produtos que eles mesmos precisam pensar, imaginar, criar. A produção da revista motiva que os alunos do terceiro período não fiquem apenas na concepção do projeto gráfico. 


Pensando na formação dos alunos, como dimensiona a importância dessa experiência para a carreira profissional?


Percebemos que os alunos compreenderam, na prática, a existência de um mercado de trabalho mais amplo na comunicação. É importante que eles, desde o início do curso, pensem e realizem movimentos para tornar produtos acessíveis e outros públicos. Os temas propostos também os fazem refletir sobre a cidade, além dessa reflexão maior sobre outros problemas que, às vezes, não estão na sua rotina diária.


Comercialmente, uma revista como essa também seria viável ou a atual crise do mercado jornalístico dificultaria uma iniciativa como essa? 


Estamos falando de uma revista que integra também com o seu próprio conteúdo na internet, num site. Ou seja, aproveitamos o produto imaginado impresso para tornar mais acessível. Acredito que esse produto realizado pelos alunos com a orientação dos professores mostrou que é possível a inclusão maior de outros consumidores de informação.  A revista se completa com o material de áudio-descrição no site. O mote é a inclusão.  É um trabalho experimental que mostra que é possível ampliar o público. A crise que estamos vivenciando é de veículos e não do jornalismo. Novas experiências vão surgir para continuar formando público e divulgando conteúdo de qualidade. 


Crédito:Ana Lúcia Araújo/Divulgação
A professora Angelina Nunes coordena a revista


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