Jornalista e escritora, Leila Ferreira fala sobre o poder da palavra

Marta Teixeira | 19/10/2018 10:27
"Sou uma jornalista que publica livros". A frase singela resume a maneira como a jornalista, escritora e palestrante Leila Ferreira se define profissionalmente. Pura modéstia. 
Crédito:Arquivo pessoal
Com seis livros publicados, ela é a palestrante convidada do Unifacisa Week, em Campina Grande (PB), neste sábado (20/10). Inscrições neste link. A autora de "A arte de ser leve" vai falar aos universitários sobre um tema bastante conveniente nestes tempos de extremismos e ódios no país. 

Leila pinça do mestre paraibano Ariano Suassuna uma frase modelar, acrescentando um tempero mineiro para explicar como se sente sobre a situação nacional. "O maravilhoso Ariano Suassuna dizia que não era pessimista nem otimista: era um realista esperançoso. Eu oscilo entre o realismo esperançoso de Suassuna e o estado de espírito de um contista mineiro que já morreu, Wander Pirolli. Ele se definia como 'um otimista em pânico'… (risos). É mais ou menos por aí", resume.

Apaixonada pelo ser humano e suas histórias, Leila fala com a mesma paixão sobre uma entrevista com uma benzedeira do Vale do Jequitinhonha (MG) e com a rainha Silvia, da Suécia, em seu castelo. Como uma jornalista "licenciada", porque quem já exerceu a profissão nunca a abandona totalmente, ela confessa que ainda se vale de lições da carreira na mídia para praticar o ofício de escritora.  

Nesta entrevista ao Portal IMPRENSA, Leila fala sobre ser jornalista, escritora e como tudo isso se mistura na sua produção. 

Como foi sua formação e como isso afetou a profissional na qual você se transformou?

Eu me formei em Letras e Jornalismo e fiz mestrado em Comunicação na Universidade de Londres. Decidi fazer Letras porque sempre fui apaixonada pela literatura, pela linguagem e pelos livros. Mas, quando comecei a dar aulas de português e inglês, vi que minha vocação para professora ficava muito aquém do desejado (risos). E o jornalismo, sonho antigo que eu tinha deixado adormecido porque me achava muito tímida, veio para o primeiro plano. Mas acho que as duas coisas sempre andaram juntas: a paixão pela linguagem, pelas possibilidades infinitas da palavra, nunca deixou de estar presente no meu dia-a-dia de jornalista.

Como começou no jornalismo?

Eu me formei em Belo Horizonte e fui em seguida para Brasília. Trabalhei um ano no caderno de Cultura do Correio Braziliense e três anos na TV Bandeirantes. Mas a paixão por Minas falou mais alto. Voltei, trabalhei como repórter na TV Alterosa (SBT), na Rede Globo Minas, e durante 10 anos apresentei o programa “Leila Entrevista” (oito anos na Rede Minas e dois na TV Alterosa). O programa produziu 13 séries internacionais e por ele passaram mais de 1600 entrevistados. Foi minha verdadeira faculdade. Ouvi histórias incríveis, conheci lugares interessantíssimos e personagens fantásticos, enfim, se minha carreira tivesse se limitado a esses 10 anos no programa, já teria valido a pena.

Foram muitos trabalhos importantes, mas alguma experiência te marcou de maneira mais profunda?

Talvez a série “Oh, Minas!”, que gravamos entrevistando pessoas anônimas nas 10 regiões culturais de Minas. Conversar com a benzedeira do Vale do Jequitinhonha de 106 anos de idade que falava como um personagem do Guimarães Rosa, ouvir um lavrador-poeta que mal sabia assinar o nome declamando seus versos em um curral – tudo isso me marcou profundamente e me fez sentir que eu estava na profissão certa. Também foi gratificante entrevistar a rainha Silvia da Suécia, no Palácio Real de Estocolmo, os escritores Sidney Sheldon e Isabel Allende, na Califórnia, o fotógrafo Sebastião Salgado, no estúdio dele, em Paris e, graças ao filósofo Renato Janine Ribeiro, que era amigo do então diretor do Museu do Louvre, tivemos a oportunidade única de gravar um programa ciceroneados pelo diretor, M. Jean Gallard, no dia em que o Louvre  fica fechado para o público. Percorrer o museu com os corredores vazios, guiados por alguém que conhecia cada obra que ali estava, foi algo mágico. Indescritível mesmo.

Durante dez anos, você apresentou um programa de entrevistas, sente falta do dia a dia das redações?

Acho que nunca tive o perfil daquela jornalista ligada ao factual e à adrenalina das redações. Quando eu era repórter da Globo, sempre brincava com os chefes de reportagem, quando chegava para trabalhar, pedindo a eles que me dessem alguma matéria que não tivesse notícia no meio… rsrs. Eu gostava das matérias frias, que me dessem mais tempo de conversar com as pessoas, trabalhar o texto, acompanhar a edição. Mas o fato de não sentir falta do clima de redação não quer dizer que eu não morra de saudades dos colegas de TV, da convivência que rendeu vários amigos e, acima de tudo, da possibilidade de entrevistar. Amo entrevistar e até hoje, quando fico conhecendo alguém interessante, o primeiro pensamento que me ocorre é: “Esta pessoa renderia uma ótima entrevista”.

Como a vivência da jornalista ajuda a escritora e a palestrante?

Não consigo dissociar esse “pacote”. Sou uma jornalista que faz palestras, uma palestrante que escreve livros, uma candidata a escritora que continua se sentindo jornalista… As três atividades se sobrepõem e invadem o território umas das outras sem a menor cerimônia. No final dá tudo certo – ou assim espero…

Tornar-se escritora foi uma sequência lógica nos seus planos de vida?

Eu ainda estou longe de me ver como escritora – na realidade, estou longe de ser uma escritora. Sempre digo que sou uma jornalista que publica livros. E nunca, jamais, imaginei ver livros meus numa livraria. Ainda não me acostumei. Sou tão apaixonada pela literatura que, para mim, ser autora era algo completamente distante e inacessível. Mas aí surgiu o convite para o primeiro livro, depois vieram outros e só agora, ao lançar meu sexto livro (no Brasil e em Portugal), começo a acreditar que estou seguindo um caminho que eu não imaginava possível.

O processo de criação de uma reportagem especial e de um livro têm semelhanças?

Sim, acho que os critérios são muito próximos. A coerência, o cuidado, a escuta atenta do outro (sempre converso com muitas pessoas antes de escrever), a honestidade, o uso mais apurado da linguagem… Claro que o livro te permite exercitar a subjetividade muito mais que uma reportagem. Ele nos deixa mais livres, mais soltos – o que só aumenta o desafio. E, naturalmente, tem a questão do prazo, que é bem diferente. Uma reportagem é sempre “para ontem”. Há um sentido de urgência que não se pode perder de vista. Com o livro há uma elasticidade maior. Digamos que ele é sempre “para hoje”… (risos).

Você fará uma palestra para estudantes universitários com o tema "A arte de ser leve" e vivemos uma época na qual os brasileiros flertam com extremismos, como analisa essa radicalização da sociedade?

É assustador o que temos visto no Brasil hoje. A prática cotidiana e assumida do ódio, dos extremismos, da intolerância – tudo isso tem nos feito viver e conviver num clima de antagonismo, de polarizações constantes. Amizades se perdem, famílias se desentendem, casamentos se abalam e os diálogos que poderiam nos ajudar a encontrar saídas para a crise monumental que estamos vivendo são substituídos por bate-bocas e agressões físicas. Nào sei onde este radicalismo cego nos levará. Se sou otimista quanto ao Brasil de amanhã? Não sei. O maravilhoso Ariano Suassuna dizia que não era pessimista nem otimista: era um realista esperançoso. Eu oscilo entre o realism esperançoso de Suassuna e o estado de espírito de um contista mineiro que já morreu, Wander Pirolli. Ele se definia como “um otimista em pânico”… rsrs. É mais ou menos por aí.

Conhecendo como era o exercício da profissão antes e vendo a situação atual, como avalia a evolução da profissão? Está satisfeita, é otimista ou pessimista quanto ao futuro do jornalismo? 

Volto a roubar a expressão de Ariano Suassuna: sou uma realista esperançosa. Acho que o jornalismo tem tido que se reinventar, por uma infinidade de variáveis que não cabe aqui explicar, e esse processo de reinvenção obriga a questionar e refletir,  duas práticas essenciais para o bom jornalismo. Nunca foi tão importante ter uma imprensa consciente e crítica como agora. Em tempos de “fake news”, de manipulação vergonhosa da realidade, e desta avalanche de informações que nos chega pela internet, é essencial que o verdadeiro jornalismo crie espaços de confiabilidade e ajude a encontrar sentidos para o que se vive e o que se lê. 

Seus livros são intimistas e alguns carregam um toque autobiográfico, é mais difícil falar de si ou é possível manter uma certa distância nessas situações?

Acho que quando nos permitimos falar de nós próprios o conceito de distância fica relativizado. Senti isso de forma clara ao escrever meu livro mais recente, “O Amor que Sinto Agora”, que narra muito da história de vida da minha família e a minha própria. Há elementos de ficção no livro, mas quando a base é autobiográfica, na chamada autoficção, até quando ficcionalizamos estamos, de certa forma, falando de nós próprios. Não há como criar uma distância segura. 

Tem algum preferido? Qual e por quê?

“O Amor que Sinto Agora”, pelo que ele representa e pela forma como nasceu. Minha mãe deixou uma carta para cada um de seus seis filhos ler depois que ela morresse – ela me entregou as cartas e, quando eu li a minha, quase cinco anos depois de sua morte (só então tive coragem), tive a certeza de que eu teria que responder de alguma forma. Eu precisava conversar com ela. Foi assim que surgiu o livro, uma série de cartas para minha mãe em que eu falo de nossas vidas, conto as viagens que fiz para o Egito, o México e a França em função do que esses lugares representavam para ela, converso sobre minha longa convivência com a depressão e a síndrome do pânico, e, acima de tudo, falo sobre perdão e esperança de recomeço. Minha mãe era uma pessoa excepcional e eu espero que meu livro consiga traduzir ao menos um pouco do amor infinito que eu sentia (e sinto) por ela.

Já pensou em transpor seus livros para o teatro?

Já fui procurada por três atrizes que pensaram em adaptar dois de meus livros anteriores, mas acabou não dando certo. Quem sabe “O Amor que Sinto Agora”? A Martha Medeiros, que fez o prefácio e é uma amiga querida, me perguntou se eu já parei pra pensar que o livro é um filme pronto. Talvez. Quem sabe aparece uma chance?

Palestras, livros, ainda consegue encontrar tempo para "ser jornalista"?

Ser jornalista é como ser mineira: um estado de espírito. Já morei em São Paulo, Rio, Brasília, México, Inglaterra, Estados Unidos e cada vez sou mais mineira. Está no DNA e o mesmo acontece com o jornalismo.