"Radicais precisam diferenciar opinião de trabalho profissional", diz jornalista agredida

Marta Teixeira | 03/10/2018 07:14
Desde 2009 atuando como repórter de rua, a jornalista Ana Nery, da rádio Bandeirantes, ainda tenta racionalizar a agressão que sofreu. No último domingo (30/09), ela se tornou mais uma vítima da radicalização e da violência contra os profissionais de imprensa. Agredida e ofendida por um homem durante ato pró-Bolsonaro, na Avenida Paulista, a profissional registrou  boletim de ocorrência por difamação e lesão corporal tentada no 89º DP. O caso, porém, foi encaminhado ao 78º DP, responsável pela área onde o incidente aconteceu. A investigação deverá durar seis meses. Depois disso, a jornalista decidirá se apresenta ou não uma queixa-crime contra o agressor junto ao Ministério Público. 

Crédito:Pixabay
Três dias depois do ataque, Ana falou ao Portal IMPRENSA sobre o assédio constante de que os profissionais de imprensa são alvo em eventos públicos, independentemente da inclinação política dos participantes. "O jornalista está sendo agredido por todos. Estou me lembrando que, ao lado do meu agressor, tinha outra pessoa, uma moça, que colocou o celular na minha cara enquanto eu entrevistava a capitã da Polícia na tentativa de me inibir. A gente fica em uma situação absurda e não podemos achar normal", diz a jornalista.  

Para Ana, a população precisa reavaliar sua relação com a imprensa. "Eles têm de aprender a criticar sem partir para a agressão", explicou a jornalista, que ficou positivamente surpresa com a união e o apoio que recebeu da classe jornalística. Confira a íntegra da entrevista:      

Como se sente, física e psicologicamente, depois da agressão?

Estou bem, mas ainda agitada. A situação gera um desgaste emocional muito grande. Eu estou me recuperando e querendo dar um passo de cada vez para não agir por impulso, mas desde domingo é uma agitação total. Eu sinto que ele (o agressor) só fez isso porque não aceitei seus insultos verbais e disse que iria fazer o BO. Ele ficou furioso. Eu entrevistava uma capitã da Polícia Militar quando ele começou a me insultar, me chamando de pilantra, me mandando ir para Cuba, dizendo que eu era uma jornalista de merda... No dia a dia, o jornalista lida com o assédio moral e é dos dois lados: da esquerda e da direita, só muda o que eles dizem. Eu registrei o BO com enquadramento por difamação e tentativa de lesão corporal. 

Quais as próximas etapas do processo?

O delegado que me atendeu foi legal, solícito e me orientou muito. Mostrei as imagens, o áudio e, a contar do registro do BO, tenho seis meses para apresentar a queixa-crime. Nesse período, a polícia fará a investigação para identificar o homem e checar tudo. Esse também é o prazo para eu decidir se quero realmente levar o processo adiante para o Ministério Público. 

Como jornalista, como se sentiu ao ser alvo de uma agressão como essa?

Tudo é muito intenso. No domingo, contei o caso em um grupo de imprensa e as meninas do coletivo "Jornalistas Contra o Assédio" conversaram comigo e pediram para publicar uma nota de repúdio. Elas mesmas afirmaram que não colocariam meu nome nem minha foto para que eu não sofresse ataques nas redes e foi quando eu percebi como ficaria exposta. No próprio domingo, à noite, eu saí das redes sociais: Twitter, Face e Instagram, até por não querer politizar o fato porque, apesar de o meu agressor ter características de eleitor do Bolsonaro: estava lá, de camisa amarela, durante a manifestação..., não tenho provas para dizer o que ele era. Eu decidi não divulgar a foto dele para não o expôr porque o caminho não é esse, mas, sim, tentar puni-lo pelos meios legais.  

Você chegou a sofrer algum assédio nas redes sociais antes de suspender seus perfis? 

Eu quis me preservar. O jornalista está no limiar da exploração da imagem e não queria que o caso virasse notícia por mim, mas pela situação. O agressor me deu a cabeçada porque eu o enfrentei e disse que ele estava me desrespeitando como profissional, aí ele se descontrolou. Já cobri outras manifestações e a gente recebe xingamentos de todos os lados, independentemente de partido. Na manifestação de esquerda você é chamado de golpista. Na de direita, de pilantra. O jornalista está sendo agredido por todos. Estou me lembrando que, ao lado do meu agressor, tinha outra pessoa, uma moça, que colocou o celular na minha cara enquanto eu entrevistava a capitã da Polícia na tentativa de me inibir. A gente fica em uma situação absurda e não podemos achar normal. Por isso, o último parágrafo da nota da Abraji (o texto da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo diz: "Um país que não compreende a diferença entre crítica ao trabalho jornalístico e violência contra profissionais da imprensa coloca a democracia - e a si próprio - em grave risco") foi essencial para o meu caso. É exatamente isso que está acontecendo. O cara (agressor) não estava contente simplesmente por eu ser jornalista. Ele tem o direito de discordar, criticar, o que não pode é chamar de pilantra, de imprensa de merda sem saber quem eu sou, e muito menos, não pode me dar uma cabeçada.

Nestes tempos de polarização, você sentiu um aumento da intolerância em relação à atividade do jornalista no seu trabalho diário?
  
Muito! Eu trabalho como repórter de rua desde 2009 e cobri muitas manifestações de temas variados. Acompanhei protesto de médicos contra planos de saúde, de partidos políticos... foram muitos e não me lembro, antes desta polarização, de nós jornalistas sermos agredidos. Com as redes sociais, certas pessoas acham que podem nos inibir, acreditam que têm o poder de nos constranger porque também têm uma ferramenta de comunicação nas mãos. Eu não me considero uma formadora de opinião, mas alguém que noticia os fatos e eles (os radicais), tendo algum meio para nos filmar, nos gravar, acham que têm o poder de nos constranger e dizer que trabalhamos errado.  

O fato mudou alguma coisa na sua rotina de trabalho?

Eu tenho avaliado direto meus atos nos últimos dias. Há tempos, inconscientemente, eu e meus companheiros de imprensa já temos trabalhado um pouco acuados. Domingo, eu estava com o microfone escondido na bolsa, porque tinha ido fazer a Marina Silva (candidata à presidência da República) um pouco antes e automaticamente coloquei dentro da bolsa depois da entrevista. Em manifestação, eu nem uso o microfone, gravo com o celular. 

Sua relação com a profissão muda depois disso? 

Acho que sim, mas ainda não sei de que forma. Neste fim de semana (quando será realizado o primeiro turno da eleição), eu estarei completamente voltada para cobrir os candidatos. Não sei como vou me comportar, mas não quero mudar meu método de trabalho porque sei que não fiz nada de errado. O que sei é que vou continuar combatendo esse tipo de agressão. Às vezes, as pessoas falam coisas e fazemos que não escutamos, mas não sei se vale a pena levar na brincadeira. Não sei de que forma deve-se agir nessas situações porque tem um ônus, como no meu caso. São três dias que tenho me questionado sobre a profissão, sobre o processo de trabalho. Mas quem tem de reavalia sua posição é a população, a forma como eles estão tratando os profissionais. Eles têm de aprender a criticar sem partir para a agressão. Argumentar. Na atitude daquele homem não tinha crítica nenhuma. Qual o argumento dele ao me xingar? É antidemocrático. Machismo talvez. Eu não posso afirmar nada nessa linha porque não tenho prova a não ser suas atitudes. Não sei se ele faria o mesmo contra um homem. Os radicais precisam aprender a diferenciar o que é uma opinião de um trabalho profissional.

Você recebeu apoio de entidades jornalísticas de classe?

Confesso que fiquei feliz por ver a união da nossa classe nesse momento. Recebi todo respaldo jurídico da Band sobre o que deveria fazer. As meninas do "Jornalistas contra o Assédio" me deram orientações importantes, a Abraji me procurou e publicou a nota de repúdio e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo colocou advogado à minha disposição para me acompanhar no registro do BO, mas eu disse que não era necessário. 

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