“Apenas 30% da população mundial vai diretamente até os sites de notícias para se informar”, afirma Adriana Barsotti

Gisele Sotto, em colaboração | 28/09/2018 15:13
“O prêmio considerou a minha tese como a melhor tese de pesquisa sobre jornalismo no Brasil defendida em 2017”, orgulha-se Adriana Barsotti. Ela é professora de Produção de Textos Jornalísticos da ESPM-Rio e recebeu o Prêmio Adelmo Genro Filho, da SBP Jor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo – na categoria Doutorado, com a tese “Primeira página: do grito no papel ao silêncio no jornalismo em rede”, pela PUC-Rio. 
Crédito:Arquivo pessoal

O estudo retrata dois momentos do jornalismo. O primeiro período entre 1875 e 1925, início da primeira página dedicada às manchetes, e a segunda parte traz o cenário atual em que as home pages perdem relevância à medida que a navegação migra para as redes sociais e Google. 

Adriana pesquisou 446 capas de jornais antigas e entrevistou 28 jornalistas que já editaram primeira página e/ou editam home pages, entre eles Ricardo Boechat, Luiz Erlanger, Ricardo Noblat e Jânio de Freitas.

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Adriana comenta o processo de desenvolvimento da tese, que será premiada no dia 7 de novembro pelo Prêmio Adelmo Genro Filho.  
 
O que motivou a escolha do tema para a tese?
 
Em 2011 e 2012, quando eu fazia parte do time do O Globo encarregado do redesenho do site, do aplicativo para smartphone à época (desde então já aconteceram pelo menos mais dois) e do lançamento da revista digital O Globo A Mais, esta questão da fragmentação da leitura no acesso às notícias já nos preocupava. Naquele momento, já havia dados mostrando que a maioria dos leitores não passava mais pela home do site para ler as notícias. 

Analisando os dados do Google Analytics, percebíamos que muitas matérias tinham mais acesso que a home. Então, ali surgiu a necessidade de tratarmos cada matéria como uma home, oferecendo links para diversos outros conteúdos para tentar estender o tempo de leitura do usuário que tivesse chegado a ela por um link compartilhado, seja no portal Globo.com, seja encontrado no Google ou nas redes sociais.
 
Quais foram os desafios e oportunidades no processo de desenvolvimento do estudo? Você enfrentou alguma barreira?
 
O desafio foi encontrar uma metodologia que pudesse ser aplicada tanto no caso das primeiras páginas de jornais analisadas no período de 1875 a 1925 quanto no estudo de caso contemporâneo, que fez o cruzamento das chamadas de primeira página de três jornais – O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo – com os posts compartilhados por eles em seus perfis no Facebook. O pesquisador, nesse caso, precisa encontrar um caminho que seja demonstrável e que possa vir a ser replicado em estudos posteriores. Meu esforço foi nesse sentido. Quanto a barreiras, elas não aconteceram devido à minha trajetória de 25 anos trabalhando em redações de jornais e revista.
 
Que critérios você considerou para a seleção dos 28 jornalistas entrevistados? 
 
O critério era terem editado ou ainda editarem primeiras páginas de jornais, editarem ou terem editado home pages de sites jornalísticos e serem ou terem sido editores de mídias sociais. Esses foram os entrevistados em profundidade, como se diz na nomenclatura acadêmica. Mas conversei com dezenas de outros informalmente.
 
O que este estudo comparativo revela sobre como a população se informa atualmente e sobre o processo de edição das primeiras páginas e home pages?
 
Hoje, apenas 30% da população mundial vai diretamente até os sites de notícias para se informar. Metade da população se informa via Google ou redes sociais. Como essas plataformas de distribuição são regidas por algoritmos, há riscos que atentam contra o jornalismo. Uma das técnicas da objetividade jornalística exige que os jornalistas busquem diversidades de pontos de vista sobre os temas que vão retratar e um equilíbrio entre os temas no momento de editar primeiras páginas e home pages. No momento em que o usuário escolher navegar por meio de links, não enxerga mais a seleção jornalística estampada nas homes e nas primeiras páginas. Então, o internauta hoje recebe as notícias personalizadas de acordo com seu histórico de navegação, preferências individuais, localização geográfica e outros fatores programados pelos algoritmos. 

Essas grandes plataformas de distribuição estão buscando parcerias com as empresas de mídia, inclusive no campo da checagem de informações. Mas acredito que os investimentos precisam alcançar patamares bem mais elevados do que vemos no cenário hoje para que o jornalismo seja valorizado, principalmente neste cenário de proliferação de boatos na internet.

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