Opinião: “Junco na Baía”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 31/07/2018 14:41
Crédito:Edu Moraes
A droga chega pelo mar. A maravilhosa baía é o cenário ideal para os marinheiros extenuados com o trabalho no mar. Os navios atracam livremente e os fiscais não são capazes de impedir que a mercadoria seja desembarcada e distribuída rapidamente. A chave dessa agilidade é a corrupção. Os fiscais aduaneiros são venais e não conseguem ver os carregamentos da droga. Ficam cegos temporariamente. A droga rapidamente chega até as camadas mais pobres da população. A fome, miséria, falta de perspectiva de vida, o poder concentrado nas mãos de poucos são os motores da busca do consolo na droga. Pelo menos durante algum tempo o drogado sente-se fora da opressão de uma sociedade fundada para não mudar, para perpetuar os donos do poder e na qual qualquer contestação pode custar a vida de alguém. O crime organizado divide o porto e as matanças se sucedem com cada vez mais ferocidade. Nem mesmo velhos, mulheres e crianças escapam da matança.
 
A droga é plantada e refinada em países vizinhos. Uma fronteira terrestre e marítima mal vigiada é um convite para o tráfico. Os volumes aumentam ano a ano e o preço cai na mesma proporção. A lei de Adam Smith também vale para a droga. Isto facilita o uso pelas camadas mais miseráveis da população. O exército e a marinha nacionais não têm condição de vigiar e defender longas distâncias. O governo se esforça para segurar o que pode do tráfico. Leis não são respeitadas e as autoridades mais importantes estão distantes do porto, enclausuradas na capital do país. Vivem em outro mundo, tem renda garantida pelos impostos arrecadados da população e não se envolvem. Por sua vez os criminosos sabem que vendem uma substância altamente viciante, que causa dependência química e garante um mercado permanente e crescente. Se o consumo cai, os chefes das quadrilhas de traficantes forçam os cidadãos a consumir e utilizam métodos sutis e violentos para continuar vendendo. Os grandes traficantes não são nunca presos, ninguém sabe como flui a moeda que banca a vinda da droga de tão boa qualidade.
 
Ainda não se sabe sobre as consequências humanas, sociais e políticas do fenômeno de drogadição em massa. O vício bioquímico não é reprovável desde que contamine apenas a população do mundo periférico e atenta aos interesses das nações imperialistas. O que estas querem é vender os seus produtos de alto valor agregado e importar matérias primas ou produtos semi acabados. A droga desembarcada chega a 450 toneladas, ou seja, um grama para cada habitante da China. Nem a moral, nem a ética cristã impediam os britânicos de distribuir gratuitamente  cachimbos próprios para fumar ópio. O que valia era o superávit comercial entre as duas nações. Diante do desastre social e da derrocada econômica, o governo de Beijing proíbe a importação e o consumo do ópio. Destrói 20 mil caixas da droga e expulsa os traficantes ingleses e americanos. A armada imperial não perdoa. Cerca os principais portos da China, bloqueia uns e bombardeia outros. Sem condições de enfrentar o poderio militar britânico, o governo recua. Depois de 17 anos de guerras, a China finalmente se prostra diante do poderio das nações ocidentais colonialistas. O ópio tem livre trânsito na China, mas é totalmente proibido em Londres, Paris, Washington...

*Heródoto Barbeiro é editor chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.

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