Jornalista Luís Carrijo lança livro sobre japonês da PF e promete revelações inéditas sobre o personagem e presos da Lava Jato

Marcia Rodrigues | 27/06/2018 13:31

A partir de 7 de julho, estará nas prateleiras das principais livrarias do país o livro “O Carcereiro - o Japonês da Federal e os presos da Lava Jato”, que conta a história de Newton Ishii, agente da Polícia Federal, que ficou conhecido como o japonês da Federal e ganhou fama ao ser fotografado com frequência conduzindo presos célebres da Operação Lava Jato.

Crédito:Montagem /Fotos divulgação
Luis Carrijo diz que apuração demorou dois anos e que Newton Ishii 'o deixou à vontade para conduzir o projeto'


O livro é escrito pelo jornalista Luís Humberto Carrijo, que teve passagem pelos grupos Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, revista Exame e TV Cultura e, atualmente, comanda a agência de comunicação Rapport, que fundou há 14 anos.


Carrijo diz que o leitor pode esperar revelações inéditas tiradas de entrevistas exclusivas com o próprio Newton Ishii, Marcelo Odebrecht, Alberto Youssef, Adir Assad e Ranato Duque, que contam casos sobre eles mesmos e de outros companheiros de cela, suas impressões sobre seus crimes e sobre a Lava Jato.


“Todos eles, tanto Newton como os presos, criticaram como a imprensa cobriu o caso. Sentiram-se injustiçados. Acham que a imprensa foi sensacionalista e pouco objetiva em muitas matérias com o interesse apenas na busca de audiência.  Adir Assad reclamou que a mídia o desenhou como um monstro, destacando seus malfeitos e ignorando seu passado como empresário de sucesso de grandes eventos culturais, que revolucionou os musicais no país. Já Marcelo foi mais fundo e acusou a indústria da notícia de conivente com o estado de corrupção no país. ” 


Carrijo conta que os eventos narrados por Newton foram refinados por meio de pesquisa, de outros depoimentos e de consultorias técnicas de especialistas em segurança pública e em assuntos tributários, ora para evitar imprecisões, ora para complementar informações que careciam de explicações ou que mereciam maior detalhamento.


Segundo o autor, os testemunhos para o livro só se encerraram em março de 2018, quando Newton já estava aposentado, para mantê-lo atualizado. Ao todo foram 17 meses de entrevistas, mas a apuração e pesquisa continuaram até o final do processo de edição, totalizando quase dois anos de ”entrega intelectual e emociona”. “O projeto do livro foi o eixo central de minha vida, com inevitáveis implicações para minha vida social e familiar. ” 


Como tudo começou


O jornalista conta que a ideia de escrever o livro surgiu após ele intermediar uma entrevista japonês para o correspondente Jonathan Watts, do The Guardian. “Newton já era uma celebridade, mas ninguém sabia dizer ao certo se a fama teria vida longa. O jornalista inglês estava apenas começando a apurar uma reportagem especial sobre a Lava Jato para expor ao mundo o surpreendente universo de corrupção deslindado pela força-tarefa e suas implicações políticas e socioeconômicas no Brasil. ”


Crédito:Arquivo pessoal

Ideia do livro surgiu quando Carrijo intermediou encontro de Newton com Jonathan Watts, do The Guardian (foto)

O correspondente e uma tradutora foram pessoalmente a Curitiba fazer a entrevista. Carrijo lembra que foi difícil convencer Newton a dar entrevista. 


“Havia poucos meses, cedera uma entrevista ao Correio Braziliense da qual ainda colhia repercussão negativa dentro da corporação. Sua visibilidade incomodava muita gente, principalmente os jovens delegados federais, enciumados com sua projeção. Ao mesmo tempo, era ressuscitado na Justiça seu processo decorrente da Operação Sucuri. Fora aconselhado pela chefia a ficar quieto e evitar mais polêmicas. ”


Carrijo, então, ressaltou a credibilidade e independência do The Guardian e o convenceu.  “O Guardian sempre me fora uma referência de jornalismo verdadeiramente independente e profissional, por ser um truste empresarial sustentado basicamente por leitores e apoiadores. No Brasil, ao contrário, a grande imprensa é custeada sobretudo por anunciantes públicos e privados, justamente os players que em dobradinha participaram da pilhagem do país, como revelado pela Lava Jato. ”


Ao longo da entrevista, ele diz que se deu conta de que, de fato, Newton “era um baú de revelações surpreendentes e testemunha viva de aspectos ainda inexplorados pela indústria editorial e pela mídia”. 


“A imprensa tratou aqui e ali de eventos relacionados à custódia da Polícia Federal, em Curitiba, por meio de vazamentos de dentro da própria polícia, de advogados e familiares dos presos, mas de maneira espaçada e tímida ? mas não por falta de visão jornalística. Ao contrário, colunistas e repórteres de política se empenharam numa guerra por audiência atrás de curiosidades da rotina do entourage criminoso da Lava Jato e do próprio Japonês da Federal. Qualquer notícia sobre o que acontecia na carceragem de Curitiba repercutia e gerava milhares cliques. Muitas vezes, a informação não passava de boato. Mas quem se importava?”


Segundo Carrijo, a conversa de Newton Ishii com Jonathan Watts tornou-se ainda mais rica quando, longe da formalidade do gravador, o agente federal, mais relaxado, desatou a contar casos interessantes e engraçados da vida dos encarcerados. “Antes mesmo de nascer o projeto deste livro, Newton já dava mostras de como seria a produção da obra ? formal e evasivo diante on the record, falante e fofoqueiro em off.”


Outro traço do agente que chama atenção, de acordo com o jornalista, é sua aversão a polêmicas. “Newton evita emitir opinião sobre situações que podem gerar ruídos. Foi assim quando a Justiça bloqueou os bens de seu algoz da Operação Sucuri, ou quando o ex-presidente Lula foi preso. Ficou calado”.


Carrijo comenta que foi preciso uma boa dose de paciência até descobrir as formas mais eficazes de obter o melhor de Newton. “Tratar com ele, cujo humor varia conforme a pressão a que é submetido, requereu psicologia. Mas, a partir da descoberta, o trabalho fluiu. Newton deu qualidade a algumas inconfidências. Sua experiência como chefe do núcleo de operações na superintendência da polícia federal mostrou-se rica, e seu testemunho da vida de encarcerados famosos, de quem se tornou confidente e amigo, eram surpreendentes. ”


Segundo o jornalista, se o conteúdo das revelações de Newton já parecia suficiente para render um bom livro, quando os condenados de Sergio Moro, em sinal de gratidão, aceitaram dar depoimentos sobre carcereiro, a lava jato e sobre si mesmos, o conteúdo atingiu outro patamar. “O espectro se ampliou. A obra não seria somente a respeito do japonês da federal, mas traria um esboço das mentes dessas figuras e dos bastidores da corrupção no país. ”


O autor revela bastidores da apuração. “Alberto Youssef me recebeu em seu apartamento na Vila Nova Conceição, bairro nobre de São Paulo. Depois de advogados e familiares, eu fui o primeiro a falar com ele fora da carceragem, em regime de prisão domiciliar. Tivemos quatro horas de produtiva conversa, mas havia assunto e disposição para outras quatrocentas, não sem antes de se precaver. Tomou meu celular, abriu todos os aplicativos para se certificar de que eu não tentara gravar a entrevista e me devolveu o aparelho. Youssef me pareceu acolhedor, assim como os demais com os quais conversei no parlatório da superintendência da PF, em Curitiba, também com o compromisso de apenas anotar a entrevista. Em comum entre eles, a simpatia, a satisfação em retribuir os cuidados e a atenção de Newton durante seus anos de má sorte, e a necessidade de se explicarem para um estranho, como num desabafo. ”


Ele também diz que o aspecto mais positivo de trabalhar com Newton foi que ele “o deixou à vontade para conduzir o projeto, sem pressões nem censuras”.


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