Morremos todos um pouco

Brasil aparece em 102ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa

Ana Paula Oliveira | 07/05/2018 08:53
Os nove jornalistas mortos em Cabul, e os três profissionais de imprensa executados em cativeiro, no Equador, duas tragédias recentes e de grandes proporções, ocorridas em abril, deste ano, foram lembradas no 10º Fórum de Imprensa e Democracia. Segundo dados da ONG Repórteres Sem Fronteiras, só em 2018, no mundo, 29 jornalistas foram mortos por motivos diretamente ligados ao exercício da profissão. “Com eles, morremos todos um pouco”, declarou Artur Romeu, coordenador de comunicação da RSF, em sua apresentação. 
Crédito:Renato Alves / IMPRENSA Editorial

A ONG Repórteres Sem Fronteiras atua em 180 países e monitora as condições de liberdade de imprensa. O Brasil está em 102ª posição entre os países, no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, divulgado pela organização, no final de abril. “Como a liberdade de imprensa é uma espécie de termômetro do vigor das democracias, é com muito pesar que a gente vê, mais uma vez, que o índice global da liberdade de imprensa está numa baixa história nos últimos três anos”, lamentou o coordenador da RSF. 

Segundo os levantamentos feitos pela ONG, foi a partir de 2010, que o Brasil começou a aparecer no topo da lista de países com o maior número de jornalistas assassinados. Desde então, foram 27 casos de morte. “Os assassinatos são os aspectos mais brutais, a ponta do iceberg da violência. Além disso, os profissionais sofrem agressões físicas, verbais, ameaça de morte, assédio judicial”, ressaltou Artur, relembrando os casos mais recentes de violência contra profissionais de imprensa no país. 

A tentativa de assassinato do profissional Gabriel Binho, em Embu da Artes, no interior de São Paulo, em dezembro de 2017, os assassinatos do jornalista e vereador suplente Ueliton Bayer Brizon, em Rondônia e do radialista Jefferson Pureza Lopes, em Idealina, no sul de Goiás, ambos num espaço de menos de 24 horas, em janeiro, deste ano. 

A participação de autoridades públicas como mandantes dos crimes contra a imprensa é cada vez mais escancarada. A morte de Jefferson, é um exemplo disso. O vereador José Eduardo Alves foi preso suspeito de encomendar o crime. O também radialista Hamilton Alves sofreu três disparos de arma de fogo no início de abril, em Rondônia. Felizmente a vítima sobreviveu ao atentado. 

Outra forma de violência sofrida pelos profissionais, em um levantamento da Abraji, são hostilizações e agressões verbais, principalmente por forças policiais, durante a cobertura de manifestações. Desde junho de 2013, quando foram iniciadas diversas mobilizações pelo país, segundo os dados, nos últimos três anos, mais de 300 jornalistas foram agredidos em manifestações. 

O estudo Mulheres no Jornalismo da Abraji em parceria com o Portal Gênero e Número, também foi lembrado por Artur Romeu. Os dados mostram que 70% das profissionais já presenciaram ou tomaram conhecimento de uma colega ser assediada. 86% já passaram por discriminação de gênero no ambiente de trabalho. Insultos presenciais ou pela internet, humilhação em público, abuso de poder ou autoridade, intimidação verbal, escrita ou física e ameaças pela internet. Vindo de superiores, colegas, fontes e do público em geral. 

“A gente entende que a violência contra o jornalista produz um efeito triplo. O primeiro: cercear o direito à liberdade de expressão do comunicador, impedindo de informar ou opinar sobre um determinado assunto. O segundo: tem a ver com o impacto que essa violência tem sobre o conjunto de colegas da profissão, que acaba produzindo autocensura. O terceiro efeito: tem a ver com a dimensão coletiva do direito à liberdade de expressão, no sentido de que ao cercear, através da violência ou de pressões sociais, viola o direito de informar”, listou, Artur. 

Preocupados com o crescimento do número de casos e de diversificação de violência contra profissionais de imprensa, além da desvalorização desses trabalhadores, incluindo baixos salários, demissões constantes, causando instabilidade financeira e profissional, alguns órgãos públicos, além da própria categoria, buscam debater o tema. No próximo 8 de maio, o Conselho Nacional de Direitos Humanos promove a Audiência pública “Estratégias de enfrentamento à violência contra comunicadores/as no Brasil” e conta com a participação de jornalistas e outros profissionais de comunicação. 

Promovido pela Revista e Portal IMPRENSA, o 10º Fórum Liberdade de Imprensa e Democracia conta com o patrocínio da ABERT, e o apoio da OAB-DF. Além do apoio de mídia do Maxpress e apoio institucional da ABRAJI, ANER, ANJ e do Instituto Palavra Aberta.