"A testemunha ocular que ninguém viu", por Janine Saponara na seção "Sinval Convida"

Janine Saponara | 09/12/2016 14:30



Janine Saponara por Sinval de Itacarambi Leão


"Acompanho a vida de jornalista de Janine desde a universidade, PUC-MG primeiro e depois PUC-SP. Ela estagiou na revista desde o começo, virou foca e depois trabalhou na área corporativa da editora, chegando até a ser promovida a diretora em menos de cinco anos. Participou ativamente da criação e realização da primeira edição do Prêmio Libero Badaró, em 1989.

A vocação jornalística de Janine Saponara Viana manifesta-se  tanto na produção de conteúdos como na gestão de relacionamentos. Seu foco na revista IMPRENSA foi sempre atender as redações, donde ter montado uma rede invejável de contatos. No caso do Libero Badaró, teve seu batismo de fogo. Evento complexo, o prêmio abrangia todos os meios de comunicação e posicionava-se para maximizar a variável  “excelência jornalística”, incluindo uma festa de entrega do prêmio no Teatro Municipal. Nota 10 para Janine, pela excelência de gestão do júri, da comunicação e do pós evento.

Quando foi contratada pelo Ethos para fazer o prêmio de jornalismo do instituto, fê-lo com igual competência. Em 1996, tinha chegada a hora de criar sua própria empresa, a Lead Comunicação e Sustentabilidade, especializada em meio ambiente e pautas conexas. Respirou e respira sinergia, confiança e sinceridade. Grande, Janine".


A testemunha ocular que ninguém viu, por Janine Saponara

Minas Gerais tem disso. Encontros. E num desses, o que eu decidi contar aqui, a convite do Sinval, meu Mestre, eu me encontrei fazendo parte da história de um dos crimes brasileiros de maior repercussão no mundo: o de Chico Mendes.

Era uma noite comum para mim, já jornalista e, como não podia ser diferente, fã de Zuenir Ventura. Havia o conhecido anteriormente no lançamento de seu livro ‘1968 – o Ano que não terminou’, através de Afonso Borges, amigo em comum, criador do Projeto Sempre Um Papo. Ao levar gentilmente Zuenir ao aeroporto, a conversa profunda - apesar de breve - nos fez amigos. Assim foi o encontro que selou o destino de uma estória.

Seu desenrolar se deu alguns meses depois, quando meu telefone toca e era o Afonso Borges, desesperado, me chamando em sua casa, porque o que tinha pra falar não podia ser, em hipótese alguma, ser por ali.

Deixei meu recém-nascido, Gabriel, e acelerei para o apartamento do Afonso no bairro da Serra, onde ele me explicou que o Zuenir Ventura precisava imediatamente da nossa ajuda para esconder o Genésio. 

Genésio Ferreira da Silva era o garoto de família humilde do Acre, testemunha ocular do crime de Chico Mendes, que abalava o mundo. Jornalistas de milhares de redes cobriam o assassinato e Genésio já havia concedido muitas entrevistas. Por estar ameaçado de morte pelos assassinos que identificou, passou a ficar na cadeia de Rio Branco, por medidas de proteção. Ali fora entrevistado por Zuenir, que cobria o crime na época pelo Jornal do Brasil e acabou se envolvendo tanto com a reportagem, que ajudou algumas pessoas do bem, no Acre a esconderem Genésio. Acusado de sequestrador do garoto, Zuenir tinha que deixar Genésio com pessoas de sua confiança, mas não de seu circuito tão próximo.

Afonso e eu nunca hesitamos. Eu dirigia e ele comandava as rotas. Não havia celular. Tínhamos que pegar os recadas em casa, codificados, e sair para os locais marcados.  Buscamos Genésio e cuidamos dele por muitos meses em silêncio. Dizíamos sempre que ele era o filho de uma amiga que tinha que ficar ali por algum período. Ora eu, ora o Afonso, a gente o vigiava o tempo todo. O medo nos rondava, mesmo sabendo que estávamos agindo certo. Mentir não combinava conosco, mas não tínhamos outra saída. 

A rotina puxada de nossas vidas e a adaptação difícil do garoto nos levou a matriculá-lo em uma escola de tempo integral em Ouro Preto. O comportamento dele não era exemplar. Éramos chamados pela escola; quantas e quantas vezes pegamos a estrada... No rádio as notícias sobre o processo do crime de Chico Mendes eram cada vez piores... Líamos os jornais. Só pressão. Parecia que aquele ano também não ia terminar.

Zuenir e sua esposa, Mary Ventura, nos apoiavam em tudo. Por fim, viramos uma família. Uma família muito brasileira, sem que ninguém soubesse. 

Com o caminhar do processo de condenação dos assassinos, a localização de Genésio pôde ser revelada.  Zuenir o adotou oficialmente e ele mudou-se para o Rio. Ele testemunhou e contou tudo o que viu.

Nossos encontros passaram a ser sobre ele. Mas sempre encontros, em Minas.


Na seção "Sinval Convida", o diretor de IMPRENSA convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre e para o trade de Comunicação. Leia também as colunas de Nemércio NogueiraMíriam LeitãoSérgio CarvalhoFrei Betto, Ricardo KotschoJosé NêumanneZé HamiltonRicardo NoblatOtto SarkisEugênio Bucci  Eloi ZanettiJosé Maria dos Santos e Silvestre Gorgulho.