Jornalista afegã relata experiência de passar seis anos como menino para ir à escola

Alana Rodrigues | 25/10/2016 16:30

Aos cinco anos de idade, a jornalista afegã Zahra Joya, 24, passou por uma "transformação" que mudaria sua vida. Ela começou a se vestir de menino para poder frequentar a escola durante o regime do Talebã.

À época, o movimento fundamentalista islâmico impedia que as meninas e mulheres fossem à escola ou à universidade. Elas aprendiam a ler e a escrever em casa. O tio de Zahra, porém, teve a ideia de transformá-la em Mohammed.

Crédito:Reprodução/Facebook

"Tive que aprender a ser menino", lembra. A afegã conta que cortou o cabelo, aprendeu a jogar futebol, ir para as montanhas e a se socializar com os homens. "Foram bons os dias em que eu era Mohammed. Naquele tempo, tinha prerrogativas que os meninos têm. Aqui, as mulheres têm vários problemas. No tempo do Talebã, não podiam nem ir ao mercado desacompanhadas", relata.

No início da transformação, Zahra tinha receio de que o disfarce fosse descoberto e fosse ameaçada, mas, aos poucos, ela ganhou confiança dos colegas e professores. Segundo ela, a escola ficava a 1h30 de sua casa e ninguém conhecia sua família.

"Eu me sentia livre. O primeiro dia de aula foi surpreendente. Vi pessoas novas. Estava feliz. Poderia fazer amigos e estava em um lugar que pudesse estudar. Quando o professor me perguntou: 'Qual é o seu nome?' eu iria dizer Zahra, mas meu tio disse: 'Agora você é Mohammed'. Tive professores amáveis e eles gostavam de mim", relembra.

Zahra conduziu o disfarce ao longo de seis anos. Quando completou 11, o regime do Talebã caiu e ela pôde frequentar a escola normalmente. Embora feliz pela conquista, sentia falta de ser Mohammed. "Foi uma boa experiência e eu teria feito tudo de novo", diz. 

A jovem afegã se formou em direito na Universidade de Cabul e atualmente é repórter na News Agency. Ela conta que sustenta a família e faz questão de investir na educação de suas irmãs mais novas.

Zahra destaca que os jornalistas no país são confrontados com a falta de informação e não-cooperação do governo, principalmente em casos investigativos. Segundo ela, a situação da liberdade de imprensa melhorou nos últimos anos, mas ainda é uma preocupação para as mulheres. "Optei por fazer jornalismo para ajudar o meu povo", acrescenta.

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