Sinval Convida: "Um arrancão tecnológico na imprensa do interior", por Zé Hamilton

José Hamilton Ribeiro | 21/10/2016 16:30


José Hamilton Ribeiro por Sinval de Itacarambi Leão


"Sempre é bom relembrar o Zé Hamilton repórter. O príncipe dos repórteres brasileiros. Sagrado na guerra do Vietnã, em Quang Tri; consagrado nas redações e onde uma pauta relevante existir. Na revista Realidade, muitas existiram. Zé, você se lembra de Pasangua?


Foi no ano de 1972. Lá na redação da Tietê, onde Raimundo Pereira, Milton Coelho da Graça, o arquiteto Tonico Ferreira e você inventaram a primeira macrópolis brasileira e também a primeira editoria de cidade. São PAulo, SANtos e GUAnabara, antes de ser a pauta Pasangua, ficção urbanística e futurista para a virada do século, era a bandeira pela liberdade de expressão naqueles tempos bicudos. 


E Pasangua, tematizada na capa como Nossas Cidades, foi a última edição de Realidade.  No futurável do projeto editorial, havia uma dialética surda. Sonhava-se com a The New Yorker e tinha de se haver com a censura dentro das redações.  


Você se lembra, ainda, do Sr. Jequitibá, no programa "Globo Rural", quando, em 1982, você  o apresentou ao Brasil que então tateava nas pautas de meio ambiente. E você gosta ainda de lembrar que recebeu em Nova York, há dez anos, o prêmio Maria Moors Cabot de jornalismo?  Por essas e por outras, é admirável seu amor pela profissão de repórter".



Um arrancão tecnológico na imprensa do interior, por José Hamilton Ribeiro
 
Campinas em 1978/1980 já era a maior cidade do interior de São Paulo, talvez do interior do Brasil. Polo econômico e cultural, a cidade tinha (tem) duas grandes universidades (PUC e Unicamp), dois times no campeonato brasileiro, uma orquestra sinfônica reconhecida e em outros aspectos também mostrava vanguarda e pioneirismo. Menos na sua imprensa.

Seus dois jornais, um deles já quase centenário, em plena segunda metade do século 20, ainda usavam tecnologia do século 19: impressão tipográfica (com clichês e prensa) e composição a quente (com os tachos de chumbo fundindo as letrinhas que iam estar no jornal no dia seguinte). Aí surgiu o projeto de um jornal novo (JH), que ia nascer já com o computador (para composição a frio) e o processo de “off set” na impressão.

Assim que o JH (de Jornal de Hoje) saísse – limpo, com fotos nítidas (muitas e belas fotos) e que não sujava de tinta a mão dos leitores, os dois outros jornais ficariam num dilema: ou iam depressa atrás de tecnologia equivalente (basicamente computador e “off set”) ou ficariam para trás, cada dia mais. Foi mais ou menos o que aconteceu: em poucos meses os dois jornais adquiriram também a tecnologia do século 21, no lugar daquela que tinham, do tempo de Gutemberg.

O novo jornal veio também com uma redação reforçada e isso provocou ti-ti-ti na cidade sobre como iriam reagir os jornais já existentes. A movimentação mais rápida e mais conspícua se deu no Diário do Povo. Ancorado em sua situação de liderança, o Correio Popular aparentemente não se abalou. (Viu-se depois, porém, que ele entraria logo num processo de modernização, a ponto de convidar para trabalhar lá o diretor de redação do JH).

Era eu o chefe de redação do Jornal de Hoje. Tinha conseguido, em Campinas e São Paulo, atrair para o projeto bons jornalistas, e a redação, de fato, ficou forte. Tinha cinco pilares: Moacir Longo, o mais velho de todos, antigo redator do jornal Novos Rumos, do Partido Comunista Brasileiro, então na clandestinidade e  sob mira permanente dos militares, era o secretário de redação; Zaiman de Brito Franco (então, e até hoje, um dos maiores jornalistas da história de Campinas); Nelson Homem de Melo, que tanto batalhava um texto como fazia diagramação e edição; João Batista Olivi com sua criatividade e seu grupo de repórteres;  e Luiz Gonzaga De Luca, antigo monge beneditino e artista plástico que fazia a diferença no jornal com suas ilustrações da hora, sobre cenas de crimes do dia, por exemplo. Havia até uma cereja do bolo: Caio Blinder, antes da Folha, fazia edição das notícias do mundo (hoje é correspondente em Nova York e um dos membros do “Manhattan Connection” da GloboNews.)

Os reforços no Diário do Povo foram logo monitorados. Ele que já tinha uma boa base em casa (exemplo: Zeza Amaral) contratou José Roberto Alencar (o “cabeça de fósforo”, excelente editor e grande repórter); Luiz Nassif (já então uma fera do jornalismo); Tomé na Economia e uma irmã de Nassif para a reportagem, entre outros.

Aí rolou pela cidade um bizu que acendeu a curiosidade de todos. O Diário Popular estava agora atrás de um grande diretor de redação. Após alguns contatos, o dono do jornal teria tido a decisão de escolher um dos maiores (se não o maior) chefes de redação do jornalismo brasileiro em todos os tempos, Alberto Dines, então o brilhante diretor do Jornal do Brasil, do Rio, em sua fase áurea. Quando o rumor chegou ao JH, o jornal todo tremeu. “Pegar o Dines pela frente vai ser um massacre diário”, disse um.

Essa história terminou de maneira inusitada. Contam que a secretária do diretor do DP ligou para o JB no Rio e falou para a secretária de lá que era um convite do Diário do Povo para Dines assumir a chefia de redação. Ela anotou o assunto direitinho e comprometeu-se a dar um retorno assim que falasse com seu diretor. Ligou de fato algumas horas depois:

- “Falei com o Sr. Dines. Ele respondeu que se for o Diário do Povo de Pequim, o convite está aceito. É só combinar a viagem.”

Com essa recusa de Alberto Dines, os três jornais de Campinas, na década de 80, tiveram de resolver os problemas com seus caipiras de sempre...

*José Hamilton Ribeiro é autor de quinze livros, sendo o primeiro "O Gosto da Guerra", em função da reportagem sobre a Guerra do Vietnã, que fez para a revista Realidade em 1968. Passou pelas redações das revistas Realidade e Quatro Rodas, do jornal Folha de S. Paulo e dos programas "Globo Repórter", "Fantástico" e "Globo Rural".


Na seção "Sinval Convida", o diretor de IMPRENSA convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre e para o trade de Comunicação. Leia também as colunas de Nemércio NogueiraMíriam LeitãoSérgio CarvalhoFrei Betto, Ricardo Kotscho e José Nêumanne.