Sérgio Carvalho fala sobre as transformações do jornalismo na seção "Sinval Convida"

Sérgio Carvalho | 23/09/2016 14:00



Sérgio Carvalho por Sinval de Itacarambi Leão

Serginho, como é conhecido entre seus coleguinhas de redação em Minas, já na adolescência, batia ponto no jornal (esportivo) do pai. Para Sérgio Augusto de Carvalho, atleticano de berço, ser frequentador fanático do Mineirão permitiu-lhe marcar gols de letras (alguns mereceriam até placa) na grande imprensa: Estado de Minas (1968-75) e Placar (1975-86). 

Apurador obcecado e observador arguto, tinha o dom de descobrir pautas que ninguém pautava. Humor sutil, texto maneirista e mineirinho, era só alegria para a galera de seus leitores e inveja dos concorrentes. 

Importante para se entender a atuação do jornalista vale ressaltar é a valorização do detalhe. Como cozinheiro de forno e fogão, ele dominava os ingredientes desde o sofisticado Ora pro Nobis aos açucares e sais do Himalaia. Sabia do ponto de cocção de cada pauta e a pimenta devida. Nas coberturas dos treinos da Seleção Brasileira de 1982 e 1986, pontificou na Toca da Raposa, como anfitrião, jornalista esportivo e professor. Especialidade: Telê Santana, comissão técnica. Diploma: Rei Reinaldo. 

Após ter sido diretor de imprensa da Assembleia Legislativa de Minas Gerais por várias legislaturas, aposentou-se como o chef dos chefs de cozinha em Minas. Antes de ganhar a alma de suas fontes e amigos, sempre soube que o mais importante era contemplar papilas e estômagos exigentes. Rendem mais dividendos e “menas” cobra criada. Coisas de Minas, Sinval de Itacarambi Leão

Barra pesada, por Sérgio Carvalho

Comecei minha vida no jornalismo numa época brava. Cheirava gás lacrimogênio todo dia. Em 1967, Belo Horizonte era uma cidade que justificava seu título de “cidade jardim”. Bonita, limpa e calma.

A época era brava, mas a vida era mansa. Garotão, fui ajudar meu pai no jornal que ele fundou, Estádio, especializado em futebol. O time da redação era comandado pelo grande Oséas de Carvalho, o Zereco, que foi braço direito do Samuel Wainer na Última Hora, no Rio.

Minha missão no Estádio era administrativa. No meio daquela turma de promessas do jornalismo comecei a me interessar pela coisa. Quando a equipe se dissolveu, eu me vi sozinho com a responsabilidade de “botar o jornal na banca”.

Acho que tirei de letra. Tanto que, um ano depois, fui chamado para a equipe de esportes do maior jornal do estado, o Estado de Minas

Foi uma época de provação. A busca pela notícia era uma guerra. Principalmente para os companheiros de outras editorias, que viviam às voltas com os coronéis, generais e censores da época e sofriam tremenda pressão do governo militar. Para nós, que lidávamos com os Dários, Tostões e Pelés da vida, era mais fácil...

“Fácil”, maneira de dizer. Comparado com hoje, era uma luta. A gente tinha de matar um leão por dia. Correr atrás da notícia sem estrutura nenhuma e com todo mundo querendo furar seu olho... barra pesada! Se um concorrente desse uma informação que você não deu, era uma senhora humilhação.

A redação parecia uma estação de metrô na hora do pico. Uma barulheira louca. Descolar uma Remington pra desovar 10, 15 laudas de matéria era um “pega pra capá”. 

Então, eu comparo como seria a turma dos anos 1960, 1970 trabalhando hoje. Celular, internet, teclado digital: a fonte sem sair do lugar! O Mr. Google, a sua biblioteca na ponta dos dedos! As viagens eram aventuras em Avros e Electras. Hoje são passeios de Airbus ou helicóptero.

Sucursais? Não existem mais. O correspondente hoje trabalha em casa, de cueca ou calcinha e sutiã. Resolve tudo pelo WhatsApp, pega a notícia no Facebook e com uma ligação de celular a matéria está completa. Acabou aquela indispensável mania de deixar o leitor informado de tudo tim-tim por tim-tim. Não existe mais o clássico “o quê, onde, como e por que?”. Importante é a celebridade, não o cientista.

Tudo ajuda para desvalorizar ainda mais o jornalista de hoje com golpes mortais nos seus salários e carreiras. O poder de negociar morreu. Uma pena, pois a luz está cada vez menor no fim do túnel. Talvez fosse melhor cheirar gás lacrimogênio nos anos 1960, quando ainda havia uma esperança.

*Sérgio Augusto Carvalho, jornalista mineiro, cronista esportivo aposentado, trabalhou nas redações do Estado de Minas e revista Placar. Foi diretor de imprensa na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Hoje é cronista gastronômico de várias publicações. 

Em nova seção do Portal IMPRENSA, Sinval de Itacarambi Leão, diretor de IMPRENSA, convida profissionais renomados para escreverem artigos sobre questões relevantes do mercado de comunicação