Informação é a cura para o preconceito; aceitação é fundamental, conclui Fórum AIDS

Jéssica Oliveira | 10/11/2015 11:15


A informação é a melhor forma de combate ao HIV. Para falar com o público mais suscetível à contaminação pelo vírus HIV, jovens de 15 a 24 anos, a revista e o Portal IMPRENSA, em parceria com a campanha #partiuteste e o Unaids, promoveram a 3ª edição do Fórum AIDS e o Brasil. Transmitido ao vivo na última segunda-feira (9/11), o evento abordou temas como os primeiros relacionamentos e sexualidade, questionamentos de como ele lida com a informação sobre a doença, as causas e consequências do aumento da infecção por HIV nos jovens no país.

O último bloco do evento discutiu “Como mudar a percepção dos jovens sobre o HIV” e reuniu o médico Alexandre Santos, chefe de gabinete da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, o ativista e diretor de teatro Gabriel Estrëla, criador do Projeto Boa Sorte, a entrevistadora Ingrid Caroline, da Fundação Poder Jovem, e a diretora, apresentadora e atriz Marina Person.
Crédito:Reprodução
Marina Person, Alexandre Santos, Ingrid Caroline e Gabriel Estrëla discutiram como mudar a percepção dos jovens sobre o HIV


Soropositiva para HIV transmissão vertical, Ingrid deu seu depoimento pessoal do quanto foi difícil para ela enfrentar a doença e de como o apoio da Fundação Poder Jovem e de seus integrantes foi essencial nesse processo. Para ela, a aceitação é o passo mais importante para o jovem.


“O pensamento que eu sempre tive foi 'por que vou tomar remédio, me cuidar, se eu vou morrer de qualquer jeito?' Comecei a me aceitar quando eu conheci a Fundação Poder Jovem. Até então o mundo para mim era uma guerra. A partir do momento que você se aceita o mundo te aceita”, diz.


O ativista Estrëla afirmou entender a sensação de impotência e derrota que Ingrid sentiu. Ele reforçou a ideia de que é preciso acabar com esse estigma no jovem infectado, mas alertou para o risco de banalizar a doença. “O HIV inicia uma nova etapa, não encerra a vida da pessoa. É preciso destruir esse estigma, porque ele afeta as pessoas. Por outro lado, não podemos banalizar o HIV. Precisamos encontrar o meio termo. A melhor forma é combater a discriminação”, afirmou.


A pouco mais de um mês de estrear o filme “Califórnia”, previsto para estrear em dezembro, Marina contou que apesar do filme não ser sobre a AIDS, ele fala sobre o tema, muito em função da vontade de inserir o assunto no longa. “A minha geração iniciou a vida sexual junto com o fantasma dessa doença, até então desconhecida. Queria falar sobre isso. Não é um filme sobre a AIDS, mas fala disso, de como uma geração amadureceu com a presença da doença. [...] A ficção nada mais é que o espelho da realidade. Uma das formas de atingir as pessoas é o entretenimento”, explica.


Da mesma geração de Marina, Alexandre comentou que atualmente um dos pontos que dificultam levar o tema aos jovens é a falta de exposição dessa geração aos ídolos que tiveram a doença e morreram décadas atrás, como Cazuza. “Temos observado um distanciamento da juventude sobre o tema em relação a nossa geração. Hoje não é um diagnóstico de morte, mas precisa de cuidados e tem que ser chamado atenção para isso todo o tempo”, afirma.


Nesse sentido, Estrëla apontou que um caminho é associar a discussão da doença a figuras conhecidas do público como blogueiros, youtubers e outros profissionais e ícones que dialogam diretamente com essas pessoas. Para ele, essa é uma forma de atingir mais gente de forma mais contundente. “Precisamos entender quem são esses jovens e tentar falar para eles”, ressaltou.


Seja qual for o canal de comunicação, os participantes concordam que campanhas em tom de terrorismo e medo – como era bastante comum décadas atrás – não funcionam com esse público e só contribuem para aumentar a desinformação e a discriminação. “Minha geração foi vítima disso, das campanhas terroristas, do preconceito. As pessoas morriam com a doença e a gente não sabia. As famílias escondiam. Por isso, a primeira coisa a se pensar hoje é no conhecimento, porque o medo, o preconceito e o terrorismo não ajudam em nada. É conversar”, afirma Marina.


Vítima várias vezes – da doença e do preconceito – Ingrid diz que para a sociedade é mais fácil julgar que acolher ou ouvir esse jovem. Segundo ela, a mídia tem culpa nesse processo, ao muitas vezes focar nas histórias tristes e no que de pior o vírus pode trazer. Ingrid lembra que antes tomava 12 remédios de manhã e 12 à noite, e hoje toma um. “Olha o avanço! Nós, jovens, somos curiosos. Queremos informações, vamos atrás. Mas a mídia às vezes acaba tirando isso da gente. A cura do preconceito é a informação. E a mídia tira a informação”, afirma.


Pensando em todas as dificuldades para mudar a percepção do jovem sobre o HIV, Santos também citou como uma possível solução a comunicação por pares. “Acreditamos muito nisso. Quem melhor para falar a língua dela [jovem]? Ela própria. [...] Como a mensagem vai ser trabalhada é que é importante”, avalia.


Criador do Projeto Boa Sorte, Estrëla aproveitou o debate para lançar a campanha #EuFaloSobre, que busca agregar todos aqueles que falam sobre o HIV e convidar outras pessoas a fazer o mesmo. 


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Assista a íntegra do debate: