Imprensa precisa informar e ser delicada com jovem, dizem participantes do Fórum AIDS

Jéssica Oliveira | 10/11/2015 10:15



A informação é a melhor forma de combate ao HIV. Para falar com o público mais suscetível à contaminação pelo vírus HIV, jovens de 15 a 24 anos, a revista e o Portal IMPRENSA, em parceria com a campanha #partiuteste e o Unaids, promoveram a 3ª edição do Fórum AIDS e o Brasil. Transmitido ao vivo na última segunda-feira (9/11), o evento abordou temas como os primeiros relacionamentos e sexualidade, questionamentos de como ele lida com a informação sobre a doença, as causas e consequências do aumento da infecção por HIV nos jovens no país. 


As jornalistas Cristine Kist, editora da Revista Galileu, e Monique Oliveira, editora-assistente do site Saúde!Brasileiros, discutiram o tema “Desafios da cobertura midiática sobre HIV direcionada ao jovem” ao lado de Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. 

Crédito:Reprodução
Cristine Kist, Monique Oliveira e Fábio Mesquita debateram os desafios da cobertura midiática sobre HIV direcionada ao jovem

Acostumadas a buscar pautas diferentes e novas formas de tratar o tema na imprensa, as jornalistas comentaram as dificuldades e características da cobertura e como despertar o interesse do jovem pela informação.


Segundo Cristina, a maior dificuldade é acabar com o estigma que foi construído pela imprensa há algumas décadas. Por outro lado, uma vantagem é o nível de documentação da doença, que tem muitos dados. Ela afirma que a Galileu fala muito para o jovem, mas não o trata diferente dos demais públicos. “Não existe uma abordagem específica para eles, porque a gente não pode subestimar a inteligência dos jovens. Escrevemos sobre o que achamos que é importante", diz.


Repórter experiente e premiada na cobertura de saúde, Monique concorda que não há "uma linguagem" para o jovem e reforça que a informação precisa ser passada da melhor forma, com profundidade e assertividade. Com passagens em jornais e revistas do país, ela lembra que ainda há questões que a “grande mídia” não abarca, como as particularidades e perfis da juventude. 


“Quem são esses jovens [contaminados pelo vírus HIV]? Quais as dificuldades que eles encontram nos relacionamentos? Não são jovens heterogêneos. Tem microdados, dos microdados, dos microdados... De modo geral, a mídia faz o trabalho do jeito que pode ser feito, mas há poucos jornalistas especializados em saúde no país”, diz.


Doutor em Saúde Pública e especialista em AIDS, Mesquita já gerenciou programas de DST/AIDS na capital paulista e em outras cidades brasileiras. Ele pontua que o aumento do HIV entre jovens não é um fenômeno brasileiro, mas global e geracional, mas chama atenção para um problema na realidade do país: a quantidade de intermediários entre o tema e os jovens, especialmente nas escolas, em que uma série de projetos são barrados pelo tabu que continua sendo falar de sexo.


“Investimos durante anos numa coisa que chamava PSE – Programa de Saúde nas Escolas - mas são muitos estepes e intermediários até chegar aos jovens. Então trabalhamos muito por outras vias, como aplicativos e redes sociais, por exemplo, porque são os mecanismos para chegar diretamente a eles”, explica.


Analisando a cobertura, ele acredita que a imprensa tem feito "muita coisa boa e interessante", e avalia que o tema AIDS tem tido uma enorme presença na mídia. De acordo com ele, aos poucos, os dados têm sido aprimorados, dando mais condições para o trabalho da imprensa. “[A presença do tema na mídia]Tem crescido, especialmente nos últimos três, quatro anos. Os indicadores brasileiros são consistentes e de qualidade. Os dados são confiáveis e estamos implementando essas classificações [diferenças de perfis e particularidades]"


As repórteres também comentaram as dificuldades da imprensa tratar temas como educação sexual e prevenção do jovem, e foram categóricas: ele não deve esperar pela mídia. “Essas pautas só saem quando têm relatórios, ganchos. Elas não têm espaço para sair diretamente. E isso é de qualquer doença. A mídia tem um papel muito importante de informar e trazer questionamentos, mas eu não esperaria por ela”, diz Monique. “Embora a mídia tenha uma função social, não é o único que ela tem. Ter um relatório, uma campanha colabora muito para dar um gancho, um motivo para falar. E a mensagem chega a mais pessoas. Mas não espere pela mídia”, completou Cristina.


Outro ponto destacado foi a forma de tratar esse público nas matérias. Para as jornalistas, a imprensa precisa acabar com o estigma criado quando a doença surgiu, de tratar o doente quase como um morto-vivo, e se colocar no lugar desse público. Cristina contou experiência recente sobre uma matéria feita na Galileu sobre a doença. A jornalista explicou que um dos pontos básicos para e equipe foi ter plena consciência de quem iria ler o conteúdo. 


“Pensamos em quem era a pessoa lendo. Era uma pessoa, que não podia pensar que a matéria trata como alguém extremamente doente. Na sociedade em geral esse estigma é muito pesado, em parte por culpa da mídia. Então, cabe tratar essa pessoa com mais delicadeza”, afirma.


O último painel, a partir das 17h, debateu “Como mudar a percepção dos jovens sobre o HIV?”. Participam Gabriel Estrëla, do Projeto Boa Sorte, Ingrid Caroline, da Fundação Poder Jovem, Alexandre Santos, da Secretaria de Vigilância em Saúde, e a apresentadora Marina Person, diretora do filme "Califórnia".

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Assista a íntegra do debate: