Painel de abertura do Fórum AIDS discute ações educativas para a prevenção da doença

Christh Lopes* | 27/11/2014 16:15
O painel de abertura da 2ª edição do Fórum AIDS e o Brasil, organizado por IMPRENSA, apresentou um debate sobre as ações educativas e as políticas públicas que podem evitar o contágio da doença. Ao lado do infectologista Dr. Robério Alves Carneio Júnior, do Hospital Emílio Ribas, o representante do Ministério da Saúde Ivo Brito dissertou sobre formas eficazes no combate à proliferação do vírus.

Crédito:Divulgação
Debate focou as ações educativas para combater o HIV

Com carreira consolidada na contra o vírus HIV, Brito tem contribuído em questões sobre a saúde do país há mais de 18 anos. Questionado sobre o contexto da doença no Brasil, o sociólogo relata que, antes se encarava o contágio como se todas as pessoas estavam vulneráveis, e hoje, as medidas são voltadas a certos nichos para aprofundar a prevenção.

Segundo ele, as campanhas de comunicação eram dirigidas à sociedade em geral até o final dos anos 90. O combate pelo governo, porém, teve início em iniciativas próprias de estados e municípios na década de 80. “A década seguinte nos coloca frente a um contexto muito parecido com aquele que se deu no início a epidemia; e quando nós começamos a observar os números, percebemos que a evolução do vírus estava muito localizada em segmentos da população”.

Entre os focos de trabalho, estão jovens homossexuais, profissionais do sexo feminino, usuários de drogas e a população que vive nas ruas. “Você tem uma epidemia que se reproduz em redes muito especificas. O Ministério da Saúde olha tais segmentos e focaliza as ações de atuação”, completa. 

As ferramentas de comunicação, portanto, passaram a trabalhar com um público específico, que seria, segundo ele, mais fácil para orientar as estratégias de comunicação. Opinião, no entanto, que não é compartilhada pelo médico. 

Carneio Júnior diz que as campanhas devem começar a ser introduzidas mais cedo, de modo claro e correto. “Há paciente que chega no consultório revoltado, com queixa de professor que diz que quem tem o vírus HIV morre”, ressalta o infectologista. “É uma questão muito delicada”, declara.

Para ele, uma ação feita para o público em geral tem mais eficácia, pois as pessoas sentiriam a informação de modo constante, capaz de chegar a todos. “Às vezes falamos ao paciente: não há calendário para o vírus”.

Na educação, projetos desenvolvidos ao longo dos anos foram destacados pelos dois convidados. De um lado, Carneio Júnior entende que nesse ponto o país voltou para trás. “Nos livros da minha avó tinha uma infinidade de coisas que podiam pegar um gancho na ciência para falar das doenças sexualmente transmissíveis”, disse. O médico defende uma ação conjunta das redes privada e estadual de ensino.

Por sua vez, o representante do Ministério da Saúde citou algumas iniciativas, como a realizada durante a gestão de Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo. “Quanto mais cedo você começa a veicular a informação e trabalha com a educação, possibilitará ao longo do tempo um resultado positivo. Se nós, em trinta anos de epidemia tivéssemos constituído uma resposta consistente, teríamos outro cenário na questão do vírus”, diz.

“O espaço da escola do âmbito da cobertura é estratégico. A forma como isso vai ocorrer e se realizar é uma disputa enorme, porque há contradições quando se trabalha com a sexualidade. Não é fácil nem para o professor nem para a família. Há um conjunto de fatores que interferem nesse processo”, afirma Ivo Brito. Entre eles, estaria o preconceito e o estigma presente no assunto em questão.

Alcançar o jovem é prioridade

A escola pode ser o primeiro passo para a veiculação de informações sobre a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Brito conta que é nesse espaço em que se trabalham as políticas públicas para evitar o crescimento do vírus. Como, por exemplo, a criação de um programa nacional de saúde nas escolas, preparando os professores e docentes de ensino para um “salto no futuro” .

Foi distribuído uma quantidade maciça de vídeos sobre as formas de tratar o assunto, além do estímulo a projetos de estados e municípios. No entanto, por ser uma iniciativa do governo federal, é preciso que os prefeitos e governadores solicitem a implementação das ações, o que ainda não foi feito por boa parte desses políticos. “Isso ocorre mesmo com a disponibilidade de financiamento”.

De acordo com Brito, é preciso aprofundar os mecanismos de informação e o Ministério tem trabalhado com essa perspectiva. “Para a população, em geral, há as mídias de massa. Temos nos concentrado em trabalhar com veículos alternativos que buscam atingir os segmentos mais vulneráveis a doença”, diz.

“Temos tecnologias disponíveis para interromper a epidemia. Para isso, porém, é preciso olhar para a questão do preconceito de estigma. Não há como vencê-la se mantivermos o nível de preconceito e estigma que existe atualmente com pessoas com o vírus”, afirmou.

Por fim, o médico defende o envolvimento de cidadãos em uma campanha coletiva para o combate ao vírus HIV. Para ele, há a necessidade de participação da população no debate sobre as formas de se precaver contra a doença. “A sociedade tem que participar mais, os atores devem estar sempre falando e continuarem na luta, engajados para tentar fomentar o debate. Mas eu ainda sinto falta de uma campanha mais frequente”, conclui.

Acompanhe a cobertura do Fórum AIDS e o Brasil aqui.

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