Primeira Leitura: Troquei dois tumores por um chapéu, por Reinaldo Azevedo

Por Reinaldo Azevedo* | 16/05/2006 09:37
Caros,
Ainda não estou de volta pra valer. Escrevo este texto e depois retomo o meu resguardo. O fato é que ganhei o direito a um segundo mandato. Troquei dois tumores por um chapéu. Num primeiro momento, esconde os pontos do couro cabeludo (por assim dizer) e, mais tarde, protegerá as cicatrizes da espiação (esta com "s", se me permitem) pública. "Expiação", com "x", é outra coisa. Ainda não. São dois cortes bem grandinhos: um com uns 12, 13 cm, o outro beirando os 20 cm.

Já deu para perceber: entro no elevador, abre-se um vácuo ao redor, preenchido por uma silenciosa apreensão. Todo mundo pensa na própria vida. Alguns arriscam um cochicho: "Deve ser tumor". "Aneurisma", discorda o outro. É uma forma de oração. A doença, a ferida, o corte, nos confere uma espécie de aristocracia negativa. "Nossa! Jovem, né?", observa um terceiro, olhando para o vazio e só de soslaio para o cadáver adiado (e sou só eu?). "Meu Deus! Que não venha em mim!" A gente fica mais sujo de humanidades e acaba tendo a licença de confundir fragilidades óbvias com uma sabedoria superior. Bobagem. Acordei, e algumas dúvidas continuavam a me perseguir. 

As cicatrizes não me restarão como mácula física do ofício, a exemplo daquele dedinho. Nem chega a ser uma marca das muitas lidas morais. Eram dois hemangiomas ósseos que pressionavam perigosamente a membrana parietal. Tumores benignos. Fiquei uma semana internado no Hospital Israelita Albert Einstein, sob os cuidados dos doutores Jairo Tabacow Hidal, Lúcia Milito e Marcos Augusto Stavale, o neurocirurgião que resgatou a ordem - a possível - na minha cabeça.

Jairo vem de uma raça de bravos. Seu pai, Manoel Tabacow Hidal, foi o homem que liderou os esforços para que o Einstein chegasse a ser o que é. O filho herdou sua ciência, a decência e outras rimas que juntam técnica, ética e moral. Lúcia sabe ser rigorosa, precisa, suave nos modos, enérgica na ação. E tem olhos tranqüilos, como quem porta a boa sorte. Marcos é um príncipe como quase não há. Não diz nem mais nem menos do que a gente precisa ouvir para encarar a vida e seu ofício, mesmo margeando a linha do abismo, que ele me ajudou a percorrer. É o Virgílio que me ensinou não a temer, mas a guardar o inferno. Sabe os segredos da morada da alma, aquela massa cinzenta irrigada de igarapés e armadilhas. E os nós de suas gravatas são impecáveis. Acreditem: o mundo é melhor com gravatas rigorosas se elas forem o epílogo de uma boa narrativa.

Meu especial afeto para a enfermagem da Ala Oeste do 10º andar do Bloco A. Mais do que isso: reconhecimento, deferência, respeito. Cláudio Lottenberg, o maestro daquela grande e eficiente estrutura, não ignora a raridade que tem nas mãos e o rigor necessário para alcançar a excelência. Muito obrigado a toda essa gente; a cada funcionário de cada um dos muitos serviços que utilizei nestes dias.

Em tempos de Google, não preciso discorrer sobre hemangiomas ósseos, sua raridade etc. e tal. O fato é que expulsamos o oitavo e o nono passageiros. Nesta quarta, finalmente, o laudo da patologia celebra a força das orações, da torcida, do afeto, da competência e da presteza. Um pouco a duras penas ainda, é verdade, decidi eu mesmo escrever este texto porque os meus muitos amores (e eles incluem quem me lê, mesmo quando me detesta) valem este pequeno sacrifício.

O que me restou depois de quase um mês de muita tensão é algo semelhante ao cansaço físico - chama-se "período do pós-trauma". Mais do que ele, pesam-me na consciência todas as moderações que não tive, que tenho de ter e que não sei se conseguirei ter. Pertenço àquela categoria de homens - todos nós - que acreditam que suas eventuais e poucas qualidades têm origem nos seus muitos e óbvios defeitos. Se eu fosse Lula, prometeria um segundo mandato melhor do que o primeiro. Mas eu não prometo nada "neste país" convulsionado que sou eu. De Santo Agostinho, há a citação que já virou boutade, com todas as suas variações: "Deus, me dê a moderação, mas não agora". Deus, me dê Santo Agostinho; quanto antes, melhor!

Bem, tinha fé de voltar. E vou. Já li quase tudo o que me foi enviado nestes dias. Dizer o quê? Prometo cumprir, de um jeito ou de outro, a minha obrigação. Minha cabeça andava cheia de tumores e de Musil, vocês se lembram. "Pois se, vista de dentro, a burrice não se parecesse com talento, a ponto de se confundir com ele, e se, vista de fora, não pudesse parecer progresso, genialidade, esperança, melhoria, ninguém quereria ser burro, e a burrice não existiria (...). Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é imóvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade (...)".

Desintegração e digressão
Reapresento-me para a batalha no dia em que Silvio Pereira executa o segundo tempo de sua pantomima. Ele não é burro, evidentemente, nem aqueles aos quais protege. Ao contrário: ele é uma das peças inteligentes de um sistema que cria um tempo, uma era, um espírito, o zeitgeist. É preciso ter força, coragem, determinação, energia para lutar contra o demônio (serve até o sentido religioso da palavra) da desintegração.

O que é a desintegração? Sabem quando voltamos em viagem a um lugar em que já fomos muito felizes, reconhecendo todos os detalhes do cenário, as personagens que animavam o ambiente, mas não a felicidade, que já nos fugiu e não pode ser recuperada? Ou quando, ao fim de uma procissão, os fiéis começam a se dispersar, a andar apressada e desordenadamente, a passos largos, com as velas apagadas, os pavios já voltados para o chão, como se fossem eles, os relaxados, a decidir que Deus dispensa cuidados, solenidades, carinhos?

Sabem quando os encontros alegres de toda sexta, sábado que seja, se quedam tristes, sem assunto, repetitivos? E não que faltem indignações e alegrias comuns ao grupo, mas é que elas já não bastam, e a gente já não sabe o que bastaria? Sabem quando as idéias que nos são muito caras ganham uma versão comum, pública, até decente, chegando mesmo a ser honesta, e nem podemos dizer: "Isso não me serve; não é bem assim"? Porque nem mesmo saberíamos dizer como seria se não fosse daquele jeito? Há um desajuste de tom, de contraste, de saturação. É quase certo que alguém, algum íntimo, indague: "Está tudo bem com você?". E só nos resta dizer: "Sim, claro, está tudo bem!".

Repare, leitor, que torno tudo muito pessoal, subjetivo. Fui até ali e voltei e, talvez por isso, tenha de reaprender a compartilhar imagens, sensações, percepções. Num esforço final - já estou bem cansado -, esclareço: o PT é esse miasma que toma conta dos dias, que faz com que a mentira não se distinga da verdade ou, pior de tudo, que torna o verdadeiro apenas uma das várias formas do falso. Para Silvio Pereira, tanto faz dizer num dia "Lula sabia" e a versão oposta no dia seguinte: "Lula não sabia de nada". Há até a possibilidade de que, de certo modo, ele próprio acredite que as duas ocorrências podem ser reais, sem que uma anule a outra.

Uma parte do jornalismo ainda lhe faz o favor de dizer que sempre foi assim. Nesta quarta, voltei aos jornais. Clóvis Rossi escreve na Folha, repetindo Vinicius Torres Freire (que está certo), que o arranjo institucional brasileiro "apodreceu". Rossi diz depois que tal arranjo permanece porque alguns dele se beneficiam. "E se beneficiam faz uns 500 anos", observa. Pronto! Ao evocar os cinco séculos de culpas sabe-se lá de quem, o articulista evidencia que não entendeu nada e que é membro ativo daquela vanguarda da decadência de que falo acima. Ouso dizer que ele não entendeu nem o que o seu próprio colega de jornal escreveu.

Nem tentarei demonstrar que ele está errado, o que seria fácil. Aliás, com mais talento do que Rossi, Raymundo Faoro encontrava culpados até na Casa de Aviz. Trata-se apenas de um pensamento que não serve pra nada, que reflete aquela suave estupidez que foi botando ferrugem no pensamento, na academia, na imprensa, nos jornais. Rossi põe a culpa nos últimos 500 anos porque se nega - e ele está longe de ser o único - a admitir o que há de particular no petismo.

Também pudera! Ele fez a sua parte para que Lula chegasse lá. E continua a fazer para mantê-lo onde está. Afinal, "se estamos todos juntos, contra quem vamos lutar?". Esse era o lema com que um grupelho trotskista a que eu, ainda um fedelho imberbe, pertencia no fim dos anos 1970. Com ele, interpelávamos a "frente ampla com a burguesia" que o Partidão (PCB) propunha. Rossi criminaliza os últimos 500 anos - o copyright de tal pensamento profundo pertence a Lula - e, assim, ajuda a livrar a cara do Apedeuta e seus 40 mensaleiros.

A imprensa brasileira parece Saturno devorando os próprios filhos em quadro célebre de Goya. Com reportagens, ela dá fatos à luz; com análises, ela os engole. Isso prova que não nos faltam nem lambanças nem patrões dispostos a transformá-las em notícias. Falta-nos, mesmo, é inteligência, capacidade analítica, para entender o que vemos.

Concluindo
Como costumava dizer Ângela Maria, a cantora, resta-me agradecer "a este imenso público que me apóia". Virão ainda alguns dias de resguardo. Devo evitar situações de tensão e pessoas gripadas. A gente se vê por aí. Serei aquele do chapéu, da cicatriz que provoca alguma introspecção. Serei aquele que voltou. Não estou mais sábio; não recebi mensagem; nada me foi soprado das alturas. Ou, por outra, foi, sim:

A fé é nua.

* Reinaldo Azevedo é editor da revista Primeira Leitura.
Este artigo foi publicado no portal www.primeiraleitura.com.br em 10 de maio de 2006.